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Medicina Cada
um é... cada um Sabe aquelas pessoas que fazem
tudo errado e, ainda assim, exibem um corpo invejável ou se vangloriam
de seus exames perfeitos? Pois é, elas têm a força.
Da genética  Paula
Neiva
Antonio Milena
 | Samantha
Baena Montanari, estudante Idade:
24 anos Altura: 1,80 metro Peso: 57 quilos Peculiaridade:
come de tudo (e bastante) e não faz ginástica. Mesmo assim,
é magérrima Hipótese médica: ao que tudo
indica, o metabolismo de Samantha é mais eficiente do que o da maioria
das pessoas. Por isso, seu gasto calórico é sempre proporcional
ao que ela ingere. Dessa forma, Samantha não engorda, já que a energia
contida nos alimentos não fica estocada sob a forma de tecido adiposo |
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Com 1,80
metro de altura, a estudante paulista Samantha Baena Montanari pesa apenas 57
quilos. Na maioria esmagadora dos casos, essas medidas dos sonhos só são
conseguidas (quando são) à base de salada e litros de suor na academia.
Samantha, porém, tem esse corpo sem fazer nenhum esforço
ou melhor, fazendo o esforço contrário. A moça "come feito
peão", como ela própria diz. Adora arroz, feijão com lingüiça,
picanha com capa de gordura, doce de leite, chocolate, batata frita, cerveja,
pizza, pipoca, caipirinha, pão, queijo, sucos, refrigerante, frutas...
E tudo em porções generosas. Apesar de toda essa comilança,
Samantha não engorda um mísero grama. Diante de sua silhueta de
sílfide, combinada a um apetite pantagruélico, é inevitável
que os amigos brinquem que ela "é magra de ruim". Essa "ruindade" encontra
explicação na genética. Tal como Samantha, algumas pessoas
podem cultivar hábitos pouco recomendáveis e, mesmo assim, ter um
corpo invejável e uma saúde perfeitamente normal. Ainda há
muito a ser desvendado no campo da proteção que os genes oferecem
contra os vários tipos de agressão e doenças. No caso de
Samantha, por exemplo, uma das hipóteses é que seu metabolismo funciona
em sintonia fina com a ingestão de calorias. Ou seja, seu organismo queima
na exata proporção aquilo que consome não deixa sobras
que se transformariam em gordura demasiada. "Para mim, tanto faz comer uma feijoada
ou uma fatia de queijo branco", diz ela. "Meu peso raramente muda." Obra e graça
de seus genes. O papel da genética na manutenção
da boa saúde começou a ser definido em 1953, quando os cientistas
Francis Crick e James Watson descreveram pela primeira vez a estrutura do DNA.
Desde então, uma das frentes de trabalho dos geneticistas é estabelecer
a relação de determinados genes com funções específicas
no organismo. Trata-se de um trabalho complicado e cheio de idas e vindas. Foi
somente em meados da década de 90, por exemplo, que a ciência formulou
as primeiras explicações para o fato de certas pessoas se mostrarem
imunes a infartos e derrames, apesar do tabagismo e de uma dieta rica em gorduras.
Um dos motivos são mutações nos genes que determinam os níveis
de colesterol ApoA, ApoB e ApoE, entre outros. Possivelmente, essas alterações
reduzem a absorção de gorduras no intestino, aumentam a produção
de HDL, o colesterol bom, determinam a produção de um tipo de HDL
mais potente ou de um tipo de LDL, o colesterol ruim, menos nocivo. O mesmo acontece
com a propensão ao diabetes do tipo 2. Foram identificados vários
genes relacionados à doença ou à defesa contra ela. "Sabe-se
que algumas mutações no gene PPAR-gama melhoram a absorção
de insulina pelos tecidos", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, pesquisador
da Universidade de São Paulo. Quanto melhor é o aproveitamento do
hormônio insulina, menores são as taxas de açúcar no
sangue e, conseqüentemente, mais baixo é o risco de manifestação
do diabetes (veja
quadro).
Marco
Pinto
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Luiza
Pereira Pinto, dona-de-casa Idade:
95 anos Altura: 1,64 metro Peso: 60 quilos Peculiaridade:
fuma desde os 16 anos, não tem uma dieta balanceada e nunca fez atividade
física. Apesar de forte candidata a problemas cardiovasculares e pulmonares,
Luiza tem a saúde perfeita Hipótese médica: um
dos distúrbios pulmonares mais comumente associados ao tabagismo é
o enfisema pulmonar, a inflamação e destruição dos
alvéolos, que pode levar a um quadro de insuficiência respiratória
grave. Acredita-se que haja uma dezena de genes envolvidos na proteção
dos pulmões contra as agressões do cigarro, o que explicaria a saúde
de Luiza. Entre esses benefícios, estaria o fato de que o organismo dessas
pessoas é capaz de reparar com bastante rapidez possíveis lesões
na mucosa pulmonar | | É
por causa desses "genes do bem" que pessoas como Osmar Malavasi, de 57 anos, consultor
de recursos humanos, e Karen Domingues Silva, de 28 anos, comerciante, podem ter
uma vida desregrada e, mesmo assim, não apresentar complicações
decorrentes desses excessos. Com uma jornada de trabalho de doze horas por dia,
no mínimo, Malavasi vive sob stress constante, não controla a alimentação,
é sedentário e está longe do peso ideal. "Grande parte das
pessoas com essas características apresenta alterações de
pressão, colesterol ou das taxas de açúcar no sangue", diz
o endocrinologista Ricardo Peres, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.
No entanto, o último check-up de Malavasi, feito no mês passado,
revelou que parâmetros como glicemia, hormônios da tireóide
e colesterol, entre outros, estão absolutamente normais. "Conto com a genética
para ultrapassar os 90 anos, sem abrir mão dos prazeres da vida, como um
torresmo bem crocante", diz ele. Ao que tudo indica, Karen segue o mesmo caminho.
Ela faz questão de passar longe da academia de ginástica e não
resiste a um belo prato de comida se for polenta frita, então, nem
se fale. Seu índice de massa corporal é 37 o que a deixa
a um passo da obesidade mórbida. Mesmo assim, a relação entre
seus níveis de colesterol bom e ruim indica que o risco cardiovascular
é inferior ao da média da população.
Os parâmetros que balizam as condições de saúde de
uma pessoa são determinados com base em grandes estudos epidemiológicos.
Feitos principalmente a partir da década de 40, esses levantamentos cruzam
dados de risco para o desenvolvimento de uma doença com os resultados de
exames laboratoriais dessas populações. Com isso, obtêm-se
valores de referência que determinam os limites entre a saúde e um
dado distúrbio. Um dos mais importantes trabalhos do gênero é
o estudo de Framingham, realizado desde 1948, na cidade de mesmo nome, nos Estados
Unidos. Com essa pesquisa, chegou-se aos fatores de risco e aos parâmetros
para o diagnóstico das doenças cardiovasculares. Saiu de Framingham,
por exemplo, o primeiro corte do que deveria ser considerado uma alta taxa de
colesterol alto. Na década de 60, definiu-se que taxas acima de 240 miligramas
por decilitro de sangue eram o limite máximo do colesterol total. Vários
estudos populacionais depois, o limite baixou para os atuais 200. Mas esse balizamento,
é lógico, não dá conta das peculiaridades individuais
estabelecidas pelos genes. "Análises baseadas na genética de cada
pessoa representam um dos maiores desafios da medicina: a individualização
da prevenção e do tratamento", diz o epidemiologista e cardiologista
Aloyzio Achutti.
Lailson dos Santos
 | Karen
Domingues Silva, comerciante Idade:
28 anos Altura: 1,65 metro Peso: 103 quilos Peculiaridade:
Karen está a um passo da obesidade mórbida. Seu índice
de massa corpórea é de 37 quando o limite é 25. Apesar
do excesso de peso, seus índices de glicemia e de colesterol e sua pressão
arterial são absolutamente normais. Seu nível de açúcar
no sangue, por exemplo, é de 84 miligramas por decilitro o limite
máximo de normalidade é 100 Hipótese médica:
uma dezena de genes está associada ao modo como o organismo processa
a glicose. Mutações em alguns deles, como o do fator hepático
nuclear-4 e o 1-alfa, podem aumentar a produção no fígado
de proteínas que facilitam a ação da insulina. Ou seja, um
organismo como o de Karen teria mais facilidade para levar para dentro das células
as moléculas de glicose. Dessa forma, as taxas de açúcar
no sangue permanecem inalteradas, apesar do acúmulo de tecido adiposo |
| Os parâmetros baseados
nos grandes estudos epidemiológicos talvez venham a ser substituídos
por medidas absolutamente pessoais, obtidas por meio de mapas genéticos
mais precisos. Mesmo assim, os médicos advertem que os efeitos dos hábitos
diários jamais deverão ser subestimados. "Ter uma boa genética,
por assim dizer, não garante que uma vida desregrada deixe de repercutir
negativamente na saúde", afirma o cardiologista Raul Santos, do Instituto
do Coração de São Paulo. Da mesma forma, ter os exames regulares
normais não significa que se está imune às doenças
que eles tentam prevenir. À medida que os estudos sobre a fisiologia humana
avançam, vão sendo identificadas substâncias cuja atuação
no organismo aumentaria os riscos de surgimento de certos problemas, ainda que
os parâmetros para outros compostos estejam dentro dos limites aceitos.
Descobriu-se recentemente, por exemplo, que taxas baixas de LDL, o colesterol
ruim, não significam um atestado de saúde se a pessoa tiver o que
foi chamado de síndrome metabólica uma combinação
de hipertensão moderada, doses elevadas de glicose, altas taxas de triglicérides
e baixas de HDL, o colesterol bom. Quem tem essa síndrome costuma exibir
ainda altos níveis de proteína C-reativa, substância pouco
estudada que inflama e danifica os vasos sanguíneos, facilitando o depósito
de gordura que leva a infartos. Sim, você acertou: chegará o dia
em que se descobrirá que os genes w ou z determinam o surgimento da tal
síndrome metabólica ou a resistência a ela. Mas não
será amanhã.
Antonio
Milena
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Osmar
Malavasi, consultor de recursos humanos Idade:
57 anos Altura: 1,72 metro Peso: 93 quilos Peculiaridade:
Malavasi tem um dia-a-dia de muito stress, é sedentário, está
acima do peso e sua dieta é farta em gordura. Apesar disso, todos os seus
parâmetros médicos são normais. Alguns, como a taxa do colesterol
ruim, o LDL, se enquadram num patamar bastante adequado 116 miligramas
por decilitro de sangue, quando o limite de LDL ideal é 130 Hipótese
médica: algumas pessoas, como talvez seja o caso de Malavasi, apresentam
uma baixa absorção de colesterol no intestino. Isso aconteceria
devido a uma redução dos níveis de substâncias responsáveis
por levar o colesterol do intestino para a corrente sanguínea |
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