Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Arqueologia
O faraó por trás da máscara

Imagens de tomografia ajudam
a reconstituir a face de Tutancâmon,
3 300 anos após sua morte


Thereza Venturoli

AP


Tutancâmon é o faraó que mais fascina a imaginação moderna – e isso por um fato acidental: sua tumba não foi saqueada como ocorreu com a de outros faraós. Ao ser aberta em 1922, continha intacto o estoque de bens preciosos que o faraó esperava usufruir na vida eterna. As peças de ouro, as jóias, os tecidos, mobília, armas e textos sagrados encontrados ao redor da múmia revelaram muito sobre o Egito de 3.300 anos atrás e fizeram desse monarca, que morreu adolescente, o personagem mais conhecido da história egípcia – muito mais do que seus antecessores e sucessores mais longevos. Tutancâmon chegou a ganhar um apelido – "rei Tut" – e a inspirar um personagem de histórias em quadrinhos e de TV, na série Batman. Mas, três milênios após sua morte, Tut ainda guarda alguns mistérios: sua fisionomia só era conhecida por antigas estatuetas e a causa de sua morte é tema de debate.

Na semana passada, alguns desses segredos caíram por terra. O Conselho Supremo de Antiguidades, órgão responsável pela preservação e pelo estudo do patrimônio histórico e artístico do Egito, divulgou o que pode ser a verdadeira face do faraó, reconstruída a partir de imagens de tomografia computadorizada. Sabe-se agora que o rei Tut era dentuço, tinha a parte posterior do crânio estranhamente alongada e o queixo retraído. Ou seja, não era exatamente bonito. A reconstituição começou em janeiro, quando a múmia foi levada para um aparelho de tomografia. Dali saíram 1.700 imagens que, primeiro, foram analisadas por radiologistas e patologistas e, depois, serviram de base para a montagem dos modelos. Três equipes foram chamadas para construir três bustos de plástico, silicone e argila. Duas dessas equipes – uma egípcia e outra francesa – sabiam que estavam lidando com Tutancâmon. A equipe americana ignorava a identidade da múmia. A idéia era que esse trabalho às cegas confirmasse as conclusões das duas primeiras equipes. Deu certo: as reconstituições ficaram muito semelhantes, principalmente no formato do rosto e na disposição dos olhos (compare nas fotos abaixo). "O resultado nos revelou um rosto extremamente parecido com o de antigas estatuetas que mostram o faraó ainda criança", diz o arqueólogo Zahi Hawass, secretário-geral do conselho egípcio.

 
Supreme Council of Antiquites, Egypt and National Geographic Magazine/Reuters
Egypts Supreme Council of Antiquites/AP
DO SARCÓFAGO PARA O SCANNER
O rosto do rei Tut, que só era conhecido por estatuetas antigas (à dir.), ganha vida nos bustos montados pelos franceses (à esq.), pelos americanos (abaixo, à esq.) e pelos egípcios (abaixo, à dir.)
AP
Supreme Council of Antiquites/AP

Esta não é a primeira vez que Tut é submetido a estudos. Em 1968 e 1978 a múmia passou por duas sessões de raios X. O resultado foram imagens de pouca nitidez, que levantaram a suspeita de que o faraó fora assassinado, talvez com um golpe na cabeça. As imagens da tomografia, mais detalhadas, parecem afastar a suspeita de morte violenta. A julgar pelos ossos e pelos dentes, Tut era saudável e bem nutrido e morreu aos 19 anos de idade. A coluna vertebral não era defeituosa, como sugeriam os raios X, mas deve ter se arqueado devido à posição em que o corpo foi embalsamado. O formato ovalado do crânio não é sinal de alguma degeneração física, mas apenas uma variação antropológica natural.

A tomografia confirmou uma fratura no fêmur esquerdo, ocorrida pouco antes da morte do faraó. Talvez a morte prematura tenha sido causada por uma infecção resultante do ferimento. Por outro lado, descartou-se a suspeita de golpes no crânio – pelo menos, antes de morrer. Depois da morte a história é outra. Para coletarem amuletos e pedaços de tecidos, os exploradores que descobriram sua tumba, comandados pelo arqueólogo inglês Howard Carter, literalmente trucidaram o corpo do faraó, partindo-o em vários pedaços. A máscara mortuária dourada, que havia se colado à cabeça, foi arrancada à força, com facas em brasa – daí o sinal encontrado no crânio, que rendeu especulações sobre assassinato. Havia até um suspeito para o crime: Ay, o primeiro-ministro que lhe sucedeu no trono.

Tutancâmon governou numa época de tensões religiosas e intrigas palacianas. Ele provavelmente era genro de Akhenaton, o faraó que instituiu o culto de Aton, o deus Sol. Assumiu o trono aos 10 anos, restaurou os antigos deuses e os privilégios do clero e morreu sem herdeiros. Ocorre então algo que teria conseqüências para a posteridade: Ay, o novo faraó, decide apoderar-se da tumba do antecessor e transfere a múmia para um local mais modesto. Outro faraó tomou posse dos monumentos deixados por Tutancâmon, de forma que se apagou dos registros egípcios a localização de seu sarcófago. Por fim, o entulho da construção do mausoléu de um rei de uma nova dinastia cobriu a última morada do faraó adolescente. Graças a tantas descortesias de seus sucessores, a múmia e as riquezas do rei Tut puderam encantar o século XX.

 
 
 
 
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