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Arqueologia
O faraó por trás da máscara
Imagens de tomografia ajudam a reconstituir a face de Tutancâmon,
3 300 anos após sua morte  Thereza
Venturoli
AP
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Tutancâmon
é o faraó que mais fascina a imaginação moderna
e isso por um fato acidental: sua tumba não foi saqueada como ocorreu com
a de outros faraós. Ao ser aberta em 1922, continha intacto o estoque de
bens preciosos que o faraó esperava usufruir na vida eterna. As peças
de ouro, as jóias, os tecidos, mobília, armas e textos sagrados
encontrados ao redor da múmia revelaram muito sobre o Egito de 3.300 anos
atrás e fizeram desse monarca, que morreu adolescente, o personagem mais
conhecido da história egípcia muito mais do que seus antecessores
e sucessores mais longevos. Tutancâmon chegou a ganhar um apelido
"rei Tut" e a inspirar um personagem de histórias em quadrinhos
e de TV, na série Batman. Mas, três milênios após
sua morte, Tut ainda guarda alguns mistérios: sua fisionomia só
era conhecida por antigas estatuetas e a causa de sua morte é tema de debate.
Na semana passada, alguns desses segredos
caíram por terra. O Conselho Supremo de Antiguidades, órgão
responsável pela preservação e pelo estudo do patrimônio
histórico e artístico do Egito, divulgou o que pode ser a verdadeira
face do faraó, reconstruída a partir de imagens de tomografia computadorizada.
Sabe-se agora que o rei Tut era dentuço, tinha a parte posterior do crânio
estranhamente alongada e o queixo retraído. Ou seja, não era exatamente
bonito. A reconstituição começou em janeiro, quando a múmia
foi levada para um aparelho de tomografia. Dali saíram 1.700 imagens que,
primeiro, foram analisadas por radiologistas e patologistas e, depois, serviram
de base para a montagem dos modelos. Três equipes foram chamadas para construir
três bustos de plástico, silicone e argila. Duas dessas equipes
uma egípcia e outra francesa sabiam que estavam lidando com Tutancâmon.
A equipe americana ignorava a identidade da múmia. A idéia era que
esse trabalho às cegas confirmasse as conclusões das duas primeiras
equipes. Deu certo: as reconstituições ficaram muito semelhantes,
principalmente no formato do rosto e na disposição dos olhos (compare
nas fotos abaixo). "O resultado nos revelou um rosto extremamente parecido
com o de antigas estatuetas que mostram o faraó ainda criança",
diz o arqueólogo Zahi Hawass, secretário-geral do conselho egípcio.
Supreme
Council of Antiquites, Egypt and National Geographic Magazine/Reuters
 | Egypts
Supreme Council of Antiquites/AP
 | DO
SARCÓFAGO PARA O SCANNER O rosto do rei
Tut, que só era conhecido por estatuetas antigas (à dir.), ganha
vida nos bustos montados pelos franceses (à esq.), pelos americanos
(abaixo, à esq.) e pelos egípcios (abaixo, à dir.)
| AP
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Supreme Council of Antiquites/AP
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Esta
não é a primeira vez que Tut é submetido a estudos. Em 1968
e 1978 a múmia passou por duas sessões de raios X. O resultado foram
imagens de pouca nitidez, que levantaram a suspeita de que o faraó fora
assassinado, talvez com um golpe na cabeça. As imagens da tomografia, mais
detalhadas, parecem afastar a suspeita de morte violenta. A julgar pelos ossos
e pelos dentes, Tut era saudável e bem nutrido e morreu aos 19 anos de
idade. A coluna vertebral não era defeituosa, como sugeriam os raios X,
mas deve ter se arqueado devido à posição em que o corpo
foi embalsamado. O formato ovalado do crânio não é sinal de
alguma degeneração física, mas apenas uma variação
antropológica natural. A tomografia
confirmou uma fratura no fêmur esquerdo, ocorrida pouco antes da morte do
faraó. Talvez a morte prematura tenha sido causada por uma infecção
resultante do ferimento. Por outro lado, descartou-se a suspeita de golpes no
crânio pelo menos, antes de morrer. Depois da morte a história
é outra. Para coletarem amuletos e pedaços de tecidos, os exploradores
que descobriram sua tumba, comandados pelo arqueólogo inglês Howard
Carter, literalmente trucidaram o corpo do faraó, partindo-o em vários
pedaços. A máscara mortuária dourada, que havia se colado
à cabeça, foi arrancada à força, com facas em brasa
daí o sinal encontrado no crânio, que rendeu especulações
sobre assassinato. Havia até um suspeito para o crime: Ay, o primeiro-ministro
que lhe sucedeu no trono. Tutancâmon
governou numa época de tensões religiosas e intrigas palacianas.
Ele provavelmente era genro de Akhenaton, o faraó que instituiu o culto
de Aton, o deus Sol. Assumiu o trono aos 10 anos, restaurou os antigos deuses
e os privilégios do clero e morreu sem herdeiros. Ocorre então algo
que teria conseqüências para a posteridade: Ay, o novo faraó,
decide apoderar-se da tumba do antecessor e transfere a múmia para um local
mais modesto. Outro faraó tomou posse dos monumentos deixados por Tutancâmon,
de forma que se apagou dos registros egípcios a localização
de seu sarcófago. Por fim, o entulho da construção do mausoléu
de um rei de uma nova dinastia cobriu a última morada do faraó adolescente.
Graças a tantas descortesias de seus sucessores, a múmia e as riquezas
do rei Tut puderam encantar o século XX. |