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Dinheiro
Ressaca do crédito
O governo e os bancos criaram o
empréstimo popular. Virou vício.
Agora, pede-se aos consumidores
que se "endividem com moderação"

Carina Nucci
Fotos divulgação
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gação
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| Comerciais contra e a favor da
euforia do crédito: efeito de bebida |
Deve-se à política
de estímulo ao crédito popular do governo Lula o mérito
de ampliar a oferta de dinheiro na economia e incentivar o consumo
da população de baixa renda. O governo criou modalidades
novas de empréstimos que baratearam a taxa de juros e permitiram
a milhões de pessoas se tornarem devedoras de bancos dos
quais nunca haviam sido clientes. O resultado foi imediato. Em pouco
mais de um ano, consumidores embriagados pela oferta inédita
de crédito absorveram cerca de 17 bilhões de reais.
O comércio agradece: no ano passado, estimuladas principalmente
pelos empréstimos com desconto em folha, as vendas nas lojas
cresceram 10%.
Passada a euforia inicial, o
governo e algumas instituições financeiras começam
a enxergar nesse festival de empréstimos sinais de exagero.
Segundo eles, uma parcela da população pode ter abusado
na dose. O risco é uma ressaca que poderia vir na forma da
interrupção brusca do consumo (que possivelmente atrapalharia
o desempenho da economia) ou, nos casos dos empréstimos populares
sem desconto em folha, da inadimplência. Na semana passada,
o Banco Itaú, a segunda maior instituição financeira
privada do país, chamou a atenção de seus clientes
no horário nobre da televisão para a importância
do crédito consciente. "Temos a responsabilidade de educar
nosso cliente. O movimento oportunista de empréstimo não
faz sentido", avalia Antonio Matias, vice-presidente do Itaú.
Outros bancos preparam medidas semelhantes. Ao mesmo tempo, o governo
já elaborou uma cartilha para ensinar ao brasileiro como
se endividar com responsabilidade. Numa espécie de força-tarefa,
os ministérios da Fazenda, Previdência e Justiça
vão pedir aos aposentados que não se endividem além
da conta eles sozinhos consumiram mais de 6 bilhões
de reais em empréstimos com desconto em folha. "Primeiro,
estipulamos que o valor de cada parcela não pode ultrapassar
30% da remuneração do aposentado. Agora, lançaremos
uma campanha nacional para esclarecimento desse público",
explicou Romero Jucá, ministro da Previdência.
E quais são os sinais
de pileque no endividamento do brasileiro? O índice de cheques
sem fundo cresceu a níveis recordes em março. Mais
de vinte borrachudos para cada 1 000 cheques emitidos. Também
aumentou a inclusão de nomes na lista negra de devedores.
Cerca de 1 milhão e meio de pessoas ficaram com o nome sujo
nos primeiros quatro meses deste ano, 23% a mais do que no mesmo
período do ano passado. Nos bancos, a inadimplência
nos financiamentos de eletrodomésticos e de outros bens duráveis
foi de 6,8% para 9,4% em dois anos. No empréstimo sem desconto
em folha para a população de baixa renda, o calote
chega a exorbitantes 16 reais a cada 100 reais emprestados. É
simplesmente três vezes maior do que no crédito pessoal.
Foram números como esses que chamaram a atenção
do governo. O Banco Popular do Brasil reduziu drasticamente de 600
para 50 reais o limite de financiamento quando empresta pela primeira
vez ao cliente. "Tivemos de ser mais rígidos na liberação
do dinheiro para evitar perdas", afirma Geraldo Magela, presidente
do banco.
Todo esse esforço de conscientização
é bem-vindo, mas há uma situação no
mínimo curiosa. Ele está sendo feito concomitantemente
ao bombardeio de publicidade favorável ao financiamento.
Na TV e no rádio, bancos utilizam a imagem de figuras públicas
e ambientes lúdicos para seduzir o consumidor. "O próprio
governo está tendo um papel lamentável nessa história.
Usa o Banco do Brasil para oferecer crédito e o Banco Central
para frear o consumo. Está contaminando a população
com o vírus da dívida. Não vai demorar para
o aposentado e o trabalhador serem obrigados a fazer superávit
primário para pagar os juros do consignado", afirma o economista
Eduardo Giannetti da Fonseca. Como se a situação já
não fosse complicada, em quinze dias o Judiciário
vai colocar sua mão nesse vespeiro. O Superior Tribunal de
Justiça vai decidir se o empréstimo em folha fere
ou não o Código Civil, que impede a penhora de salários.
Em tempo: três ministros do STJ são usuários
assíduos do empréstimo com desconto em folha. "Só
assim a gente se livra dos juros exorbitantes do cheque especial",
disse um deles a VEJA.
Não há economista
no mundo que duvide da importância do crédito para
gerar crescimento. Financiar o consumo deu certo dos Estados Unidos
à China. O problema é que o Brasil é um dos
países onde os bancos oferecem o menor volume de empréstimo
a consumidores e empresas. Isso porque, com sua dívida gigantesca,
o Estado suga o crédito que poderia fomentar o consumo e
a produção. Portanto, tal como náufragos sem
água nem comida, os brasileiros convivem com o pior dos mundos:
com a necessidade acima do normal de crédito e com a sua
escassez absoluta. Para complicar, o consumidor ainda vive o encantamento
da abertura econômica que trouxe os importados mais baratos
e encheu as lojas de produtos sofisticados a preços mais
acessíveis. E pior: nem todo o crédito barato está
sendo usado para reduzir o endividamento. Quase metade dos clientes
repassa o empréstimo a parentes, reforma a casa, troca de
carro ou viaja. Por isso, hoje os brasileiros devem 3,5 bilhões
de reais a mais no cheque especial e no cartão de crédito
do que deviam há um ano.

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