Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Dinheiro
Ressaca do crédito

O governo e os bancos criaram o
empréstimo popular. Virou vício.
Agora, pede-se aos consumidores
que se "endividem com moderação"


Carina Nucci


Fotos divulgação
gação
Comerciais contra e a favor da euforia do crédito: efeito de bebida


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Enquanto a população se embriaga de crédito governo e bancos temem a ressaca

Deve-se à política de estímulo ao crédito popular do governo Lula o mérito de ampliar a oferta de dinheiro na economia e incentivar o consumo da população de baixa renda. O governo criou modalidades novas de empréstimos que baratearam a taxa de juros e permitiram a milhões de pessoas se tornarem devedoras de bancos dos quais nunca haviam sido clientes. O resultado foi imediato. Em pouco mais de um ano, consumidores embriagados pela oferta inédita de crédito absorveram cerca de 17 bilhões de reais. O comércio agradece: no ano passado, estimuladas principalmente pelos empréstimos com desconto em folha, as vendas nas lojas cresceram 10%.

Passada a euforia inicial, o governo e algumas instituições financeiras começam a enxergar nesse festival de empréstimos sinais de exagero. Segundo eles, uma parcela da população pode ter abusado na dose. O risco é uma ressaca que poderia vir na forma da interrupção brusca do consumo (que possivelmente atrapalharia o desempenho da economia) ou, nos casos dos empréstimos populares sem desconto em folha, da inadimplência. Na semana passada, o Banco Itaú, a segunda maior instituição financeira privada do país, chamou a atenção de seus clientes no horário nobre da televisão para a importância do crédito consciente. "Temos a responsabilidade de educar nosso cliente. O movimento oportunista de empréstimo não faz sentido", avalia Antonio Matias, vice-presidente do Itaú. Outros bancos preparam medidas semelhantes. Ao mesmo tempo, o governo já elaborou uma cartilha para ensinar ao brasileiro como se endividar com responsabilidade. Numa espécie de força-tarefa, os ministérios da Fazenda, Previdência e Justiça vão pedir aos aposentados que não se endividem além da conta – eles sozinhos consumiram mais de 6 bilhões de reais em empréstimos com desconto em folha. "Primeiro, estipulamos que o valor de cada parcela não pode ultrapassar 30% da remuneração do aposentado. Agora, lançaremos uma campanha nacional para esclarecimento desse público", explicou Romero Jucá, ministro da Previdência.

E quais são os sinais de pileque no endividamento do brasileiro? O índice de cheques sem fundo cresceu a níveis recordes em março. Mais de vinte borrachudos para cada 1 000 cheques emitidos. Também aumentou a inclusão de nomes na lista negra de devedores. Cerca de 1 milhão e meio de pessoas ficaram com o nome sujo nos primeiros quatro meses deste ano, 23% a mais do que no mesmo período do ano passado. Nos bancos, a inadimplência nos financiamentos de eletrodomésticos e de outros bens duráveis foi de 6,8% para 9,4% em dois anos. No empréstimo sem desconto em folha para a população de baixa renda, o calote chega a exorbitantes 16 reais a cada 100 reais emprestados. É simplesmente três vezes maior do que no crédito pessoal. Foram números como esses que chamaram a atenção do governo. O Banco Popular do Brasil reduziu drasticamente de 600 para 50 reais o limite de financiamento quando empresta pela primeira vez ao cliente. "Tivemos de ser mais rígidos na liberação do dinheiro para evitar perdas", afirma Geraldo Magela, presidente do banco.

Todo esse esforço de conscientização é bem-vindo, mas há uma situação no mínimo curiosa. Ele está sendo feito concomitantemente ao bombardeio de publicidade favorável ao financiamento. Na TV e no rádio, bancos utilizam a imagem de figuras públicas e ambientes lúdicos para seduzir o consumidor. "O próprio governo está tendo um papel lamentável nessa história. Usa o Banco do Brasil para oferecer crédito e o Banco Central para frear o consumo. Está contaminando a população com o vírus da dívida. Não vai demorar para o aposentado e o trabalhador serem obrigados a fazer superávit primário para pagar os juros do consignado", afirma o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Como se a situação já não fosse complicada, em quinze dias o Judiciário vai colocar sua mão nesse vespeiro. O Superior Tribunal de Justiça vai decidir se o empréstimo em folha fere ou não o Código Civil, que impede a penhora de salários. Em tempo: três ministros do STJ são usuários assíduos do empréstimo com desconto em folha. "Só assim a gente se livra dos juros exorbitantes do cheque especial", disse um deles a VEJA.

Não há economista no mundo que duvide da importância do crédito para gerar crescimento. Financiar o consumo deu certo dos Estados Unidos à China. O problema é que o Brasil é um dos países onde os bancos oferecem o menor volume de empréstimo a consumidores e empresas. Isso porque, com sua dívida gigantesca, o Estado suga o crédito que poderia fomentar o consumo e a produção. Portanto, tal como náufragos sem água nem comida, os brasileiros convivem com o pior dos mundos: com a necessidade acima do normal de crédito e com a sua escassez absoluta. Para complicar, o consumidor ainda vive o encantamento da abertura econômica que trouxe os importados mais baratos e encheu as lojas de produtos sofisticados a preços mais acessíveis. E pior: nem todo o crédito barato está sendo usado para reduzir o endividamento. Quase metade dos clientes repassa o empréstimo a parentes, reforma a casa, troca de carro ou viaja. Por isso, hoje os brasileiros devem 3,5 bilhões de reais a mais no cheque especial e no cartão de crédito do que deviam há um ano.

 

 
 
 
 
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