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Especial O
fim dos mitos sobre o câncer Nos
últimos vinte anos, a medicina venceu várias batalhas contra
a doença e passou a entendê-la melhor. Com isso, os estigmas
que cercam esse mal também estão sendo demolidos
Ricardo Valladares e Giuliana Bergamo
| Fotos
Lailson Santos | | | O
ator Raul Cortez: depois do choque do diagnóstico, serenidade e confiança nas
armas da medicina atual |
No dia 10 de dezembro do ano passado,
uma notícia mudou o curso da vida do ator Raul Cortez. Internado às
pressas depois de passar mal em casa, ele recebeu um diagnóstico assustador:
estava com câncer no aparelho digestivo. Cortez teve de interromper sua
participação na novela Senhora do Destino, então no
ar, para submeter-se a uma cirurgia de extração do duodeno e de
partes do estômago e do pâncreas. Atualmente, ele passa por um duro
tratamento quimioterápico. "A doença cobra um preço alto.
Mas eu sei que hoje a medicina tem armas para combatê-la. Isso me dá
uma certa serenidade para atravessar esta fase", diz. A experiência de Raul
Cortez reflete de maneira exemplar o momento atual da luta contra o câncer
no Brasil, onde se estima que mais de 450.000 casos sejam diagnosticados em 2005.
A medicina tem obtido grandes avanços na compreensão da doença
e no combate a ela. O câncer deixou de ser equiparado a uma sentença
inapelável de morte e tornou-se um problema que, em muitos casos, pode
ser controlado, dando ao portador uma sobrevida antes inimaginável e uma
qualidade de vida bastante próxima daquela das pessoas que sofrem de doenças
crônicas. Os progressos no campo científico se somam a novas atitudes
culturais de médicos, grupos de apoio, parentes e dos próprios pacientes
que, via internet, podem obter informação atualizada e de
qualidade sobre o mal que os aflige. O resultado é a pulverização
de velhos estigmas em torno do câncer. A doença ainda é um
desafio para a medicina, mas a vida dos doentes e de suas famílias tornou-se
muito mais suportável com a compreensão mais precisa do que ela
acarreta. Duas décadas atrás,
a ciência apenas tateava na compreensão do câncer. Isso mudou
bastante. Falar da doença no singular é hoje, inclusive, uma imprecisão:
segundo a Organização Mundial de Saúde, existem 804 tipos
de câncer identificados e classificados. Diagnósticos mais precoces
e precisos, remédios mais potentes e menos nocivos ao organismo, técnicas
de extração dos tumores menos agressivas todos esses avanços
fizeram com que a sobrevida aumentasse (veja
quadro). Atualmente, a taxa de pacientes com câncer de pulmão
que não apresentam reincidência depois de cinco anos de tratamento
é de 17% um avanço de 70% em relação à
década de 70. No câncer de próstata e de testículos,
o índice de sobrevida se aproxima dos 100%. O diagnóstico precoce
é a maior razão desses progressos. As taxas de acerto das máquinas
de tomografia computadorizada mais avançadas já passam de 90%.
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"Quando
soube que estava com câncer na região anal, em 2001, fiquei abalada.
Eu já havia vencido um tumor de pele, mas esse era bem mais grave. Vivia
um momento especial da minha vida. Meus filhos tornavam-se adultos e eu estava
amando de novo. Sentia-me feliz também com meu programa na televisão.
Fiquei várias vezes internada, fiz 42 sessões de quimioterapia,
que me debilitaram muito. Depois, entrei na radioterapia, e aí já
não conseguia trabalhar. Meus filhos e meu então marido foram pessoas
importantes nessas horas. Com a força deles, resolvi expor minha condição.
Tem gente que diz 'aquela coisa', 'aquela doença'. Se você não
enfrenta seu inimigo, tem muito menos chance de vencê-lo. Câncer não
é pecado. As pessoas devem se informar, pesquisar na internet, questionar
os médicos. Têm de continuar trabalhando e não aceitar a pena
alheia. O tempo para ser considerado curado é dez anos. Já estou
quase na metade da história. Quem enfrenta uma doença com possibilidade
de morte sempre sai transformado da experiência. Em alguns sentidos, a vida
fica até melhor depois de vencer um desafio como esse." Ana
Maria Braga, apresentadora de televisão
| | Campanhas
de prevenção também são um fator na melhora das estatísticas.
Nos anos 70, o número de diagnósticos de câncer de mama era
dez vezes menor do que hoje. No entanto, as taxas recentes de sobrevida são
maiores do que naquela época. Isso porque, graças à difusão
de informações e da prática do auto-exame, pode-se diagnosticar
um nódulo em estágio inicial. Outra evolução foi o
desenvolvimento de drogas mais potentes. Novas classes de remédios, como
os anticorpos monoclonais, têm a capacidade de detectar as células
do tumor e agir especificamente sobre elas. Com isso, os efeitos adversos diminuíram
muito embora ainda sejam consideráveis. Firmou-se a consciência
de que é preciso rigor máximo nos tratamentos, algo que nem sempre
ficava evidente num período anterior, em que o nível de especialização
dos médicos não era tão elevado. "Garantir o controle da
doença, mesmo nos casos em que aparentemente não há cura,
é o melhor procedimento", afirma o oncologista Císio Brandão,
do Hospital do Câncer A.C. Camargo, em São Paulo. "Novos medicamentos
surgem a todo momento, e esses pacientes devem estar prontos para se beneficiar
deles." As vitórias da
medicina sobre o câncer permitiram que alguns mitos se desfizessem. A mais
célebre estudiosa desses mitos foi a ensaísta americana Susan Sontag.
Em 1978, depois de descobrir que tinha um câncer no seio, ela publicou um
texto de enorme impacto intitulado A Doença Como Metáfora.
"Enquanto essa doença particular for tratada como um predador maligno,
invencível, e não apenas como um mal físico, a maioria das
pessoas com câncer se sentirá deprimida ao descobrir qual é
a sua doença. A solução não é sonegar a verdade
dos pacientes, mas retificar as concepções sobre a doença,
desmistificá-la", escreveu ela. Susan curou-se do primeiro tumor, mas no
fim dos anos 90 foi apanhada novamente pela doença, que acabou por matá-la
em 2004. Pouco antes de sua morte, numa entrevista a VEJA, ela afirmou que se
sentia aliviada ao perceber que, no intervalo entre seus dois diagnósticos,
as atitudes irracionais em relação ao câncer haviam diminuído.
Sontag resumiu admiravelmente os avanços percebidos por ela: "Há
mais franqueza no ar, mais informação circulando entre os leigos,
menos medo de tratamentos efetivos como a quimioterapia e mais ceticismo em relação
a tratamentos sem eficácia como as dietas".
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"Em
setembro do ano passado, ligaram da escola de minha filha Julia, então
com 7 anos, dizendo que ela não estava bem. Fazia um mês que Julia
aparecia com marcas roxas pelo corpo bastava esbarrar em alguém
para ficar assim. Eu e meu marido a levamos ao hospital. O diagnóstico
foi leucemia. Na hora, vem o clichê: o chão se abriu sob meus pés.
Vi minha filha vulnerável, como se alienígenas estivessem tomando
o corpo dela. Depois de 24 horas prostrada, tomei uma decisão. Iríamos
viver um dia de cada vez. Eu estou aqui agora com a Julia, não sei de amanhã
nem do ano que vem. Tenho de ser verdadeira com ela. A gente nunca tentou dourar
a pílula. Nem fazer previsões boas ou ruins. No hospital em que
ela está se tratando, os médicos também falam sobre o momento,
não criam expectativa. A Julia é curiosa e está aprendendo
tudo sobre a doença. Outro dia, disse à minha mãe: "Estou
com 300 000 plaquetas, vó". Hoje ela toma alguns comprimidos e vai ao hospital
tomar injeção todas as terças. Está em remissão,
já não se detectam as células leucêmicas. Remissão
não é cura, mas ela está bem." Soninha
Francine, vereadora paulistana (PT) e apresentadora
de televisão | |
Um dos estigmas que vieram abaixo foi aquele que igualava o câncer à
morte certa. Em segundo lugar, a doença perdeu muito do caráter
de mal inescrutável. Falar de câncer já foi um tabu social.
Empregavam-se eufemismos para evitar a palavra. Era comum também esconder
dos portadores a sua verdadeira condição em geral, era aos
familiares que o médico solenemente confidenciava a verdade sobre o paciente.
"Mente-se para pacientes de câncer não apenas porque a doença
é (ou considera-se que seja) uma sentença de morte, mas porque é
percebida como obscena no sentido original dessa palavra: agourenta, abominável,
repugnante", escreveu Susan Sontag. "Câncer"
deixou de ser palavrão. O termo é pronunciado abertamente em público
e figura em camisetas e acessórios que viraram moda, como aqueles com o
logotipo da campanha contra o câncer de mama. Outro exemplo é a pulseira
que o ciclista Lance Armstrong, sobrevivente de um câncer nos testículos
que no caso dele se complicou com metástases nos pulmões
e no cérebro , lançou para angariar fundos para pesquisas
sobre a doença, em parceria com a Nike. Em um ano, mais de 46 milhões
de pulseiras já foram vendidas no mundo todo. Depois de tratado, Lance
voltou a competir e venceu seis vezes a prova mais desafiadora de sua modalidade
esportiva, a Volta da França, da qual é o maior campeão de
todos os tempos. No ano passado, quando
a vereadora paulistana e apresentadora de televisão Soninha Francine teve
a notícia de que sua filha caçula, Julia, de 8 anos, sofria de um
tipo raro de leucemia, fez questão de tratar do problema sem meias palavras.
"Cheguei a brigar com meu marido porque ele disse a um amigo que nossa filha estava
com uma 'doença chata'", afirma. Não é só o nome que
não tem mais de ser evitado. Hoje, a grande maioria dos doentes considera
um direito seu saber com todas as letras do que sofre. "Quando não recebem
informação adequada, eles se sentem traídos e às vezes
até abandonam o tratamento", diz Císio Brandão.
Dois outros estigmas foram derrubados, mas ainda resistem em certos círculos:
o de que o câncer tem raízes psicológicas, em geral ligadas
à repressão de sentimentos, e o de que a manifestação
da doença é uma espécie de punição. A primeira
idéia foi popularizada pelo psicólogo austríaco Wilhelm Reich
(1897-1957), segundo o qual o câncer era "a doença que se segue à
resignação emocional, uma desistência da esperança".
Essa concepção de uma origem psicológica do câncer
foi desacreditada pela ciência. Hoje em dia, quando os psicólogos
insistem na importância de uma atitude reativa em relação
à doença e grupos como os Doutores da Alegria são admitidos
em hospitais para levantar o astral dos pacientes, é menos por acreditar
que isso tenha uma influência direta sobre a cura do que por saber que essa
atitude ajuda a reforçar o ânimo para enfrentar um tratamento longo
e sofrido. A crença de que a doença é uma forma de punição,
no entanto, está muito enraizada na história cultural da humanidade.
É possível encontrar esse conceito já em poemas da Antiguidade
grega, como a Odisséia, a narração de Homero escrita
quase 900 anos antes da era cristã. O próprio cristianismo cuidou
de reforçar a idéia de que certas atitudes mentais produzem doenças
graves. As terapias de apoio contemporâneas procuram desfazer esse tipo
de associação. "Ter câncer não é pecado", diz
a apresentadora Ana Maria Braga, que enfrentou dois diagnósticos e submeteu-se
a dois tratamentos bem-sucedidos, o primeiro de pele, em 1991, e o segundo na
região anal, em 2001.
Paulo
Liebert/AE
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"O
diagnóstico do câncer é impactante. Mas é importante
não se entregar a esse momento, e canalizar energias para o duro combate
à doença. No meu caso tive um câncer no testículo
em 1998 e outro no estômago, em 2002 , o fato de ter uma família
sólida me fez sentir amparado. No tratamento, é preciso ter disciplina
e seguir os procedimentos indicados pelos médicos. Essa crise nos oferece
a oportunidade de lidar melhor com nossas fragilidades e compreender que não
temos controle sobre os ritmos e os prazos da vida. É natural que os exames
sejam precedidos de muita ansiedade. E a notícia da superação?
A sensação, ao receber a informação de que o problema
está sob controle, é a mesma de receber uma mensagem de boas-vindas,
de ter sido contemplado com mais uma possibilidade de vida." Luiz
Gushiken, ministro da Secretaria de Comunicação
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Talvez não haja símbolo mais evidente da maneira como o câncer
é enfrentado socialmente hoje em dia do que a cabeça raspada das
pessoas que se submetem à quimioterapia. É um emblema ainda, mas
nem de longe tão negativo quanto os de outros tempos. A cena em que a personagem
vivida pela atriz Carolina Dieckmann perde o cabelo na novela Laços
de Família (2000), depois de descobrir que tem leucemia, foi um momento
marcante da televisão brasileira nos últimos anos. A atriz veterana
Glória Menezes também se desfez das madeixas para interpretar uma
doente na peça Jornada de um Poema. Entre as doentes reais, a apresentadora
Ana Maria Braga foi pioneira ao ostentar a careca na televisão como símbolo
de uma luta pessoal. "Eu tinha duas opções: esconder-me de meu público
ou assumir o que estava passando. Expor a falta de cabelo foi minha forma de enfrentar
o problema", diz ela. A vereadora Soninha passou pela situação delicada
de explicar à filha por que as demais crianças da clínica
onde ela se tratava estavam carecas e informar-lhe que ela também
ficaria assim. "A Julia ficou preocupada com o que os amiguinhos de escola iam
dizer. No fim, encontramos um jeito leve de tratar do assunto. Eu disse: 'Olha,
Julia, é como a gripe carecal das histórias do Cebolinha, só
que aqui vocês tomam um remédio que faz o cabelo cair'", conta.
A compreensão da doença e o fim dos mitos tiraram um peso adicional
dos ombros dos doentes. Obviamente, isso não significa que o impacto de
descobrir que se tem um câncer seja assimilado igualmente por todos. Como
toda doença grave que nasce e cresce em silêncio, o câncer
é um lembrete esmagador de nossa mortalidade. Dá-se o que os especialistas
chamam de "elaboração do próprio luto". "Com uma notícia
dessas, a morte deixa de ser um evento abstrato e se transforma numa possibilidade
concreta", diz a psicóloga Maria Júlia Kovács, coordenadora
do Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de São Paulo.
Uma experiência desse tipo é tão perturbadora que não
se deve roubar do paciente o direito de sofrer com sua condição.
Os médicos relatam que são comuns os casos de pessoas que escondem
a própria angústia numa tentativa heróica de poupar as pessoas
próximas. Parentes e amigos dos doentes também sentem medo da morte
e do sofrimento que o câncer pode causar. Eles também vivem a elaboração
antecipada do luto do outro. "Quem está ao lado de um doente de câncer
também precisa de apoio, até para poder ajudá-lo de maneira
mais eficaz", diz Maria Goretti Sales Maciel, coordenadora do Programa de Cuidados
Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo.
Pessoas saudáveis ou aquelas
que nunca conviveram com um doente grave tendem a subestimar o poder desestabilizador
de um mal como o câncer. A doença revoluciona toda a vivência
do cotidiano. Ajudar os doentes e seus familiares a reestruturar o dia-a-dia é
a tarefa de novas disciplinas como a medicina paliativa. A especialidade ainda
não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, mas programas
desse tipo são oferecidos nas principais instituições que
trabalham com pacientes de câncer no país. Suas equipes são
compostas de médicos, enfermeiros e psicólogos, que atendem os doentes
nos hospitais e em casa. Muitos dos conselhos e regras simples empregados por
quem atua nessa área têm o sabor de platitudes, mas a doença
grave é justamente um desses momentos em que o senso comum se desfaz
e as pessoas precisam ser trazidas de volta a ele. Entre as orientações
dirigidas aos familiares e amigos está, por exemplo, a de respeitar a intimidade
do doente (veja
quadro). Entre aquelas dirigidas ao paciente está a de não
abandonar os planos, mesmo que sejam somente para o dia seguinte. Casos como os
de Ana Maria Braga, Luiz Gushiken e Raul Cortez, no entanto, mostram que se pode
ambicionar mais do que isso. Diz Ana Maria: "É possível sobreviver
ao câncer. Em alguns sentidos, a vida fica até melhor depois de vencer
um desafio como esse".  |