Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Espionagem
A usina de espionagem da Kroll

Relatório da Polícia Federal mostra que,
desde os anos 90, a Kroll espiona políticos
e empresários brasileiros – nem sempre
utilizando expedientes legais


Marcelo Carneiro
e Thaís Oyama

A maior empresa de investigação do mundo, com sede nos Estados Unidos, vive, no Brasil, seu inferno particular. Desde julho do ano passado, a Kroll é suspeita de usar meios ilegais de espionagem. O caso veio a público quando a Folha de S.Paulo revelou que a empresa, para fornecer informações a um de seus clientes, a Brasil Telecom, chegou a ponto de investigar integrantes do governo Lula como o ex-presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, e o ministro Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação. A viagem da Kroll ao submundo das operações ilegais incluiu, segundo investigações da Polícia Federal (PF), o uso de escutas telefônicas e o acesso a dados protegidos por sigilo fiscal. Até então, porém, suspeitava-se que a empresa havia atropelado os limites estabelecidos pela Constituição para atender apenas aos interesses da Brasil Telecom – até o mês passado comandada por Daniel Dantas, do banco Opportunity. O material reunido pela PF no curso da investigação, batizada de Operação Chacal, revela, no entanto, que pelo menos desde a década de 90 a Kroll se dedica a monitorar a vida de dezenas de pessoas, entre elas políticos e empresários – e nem sempre por meio de expedientes legais.

VEJA teve acesso ao conteúdo de um relatório parcial enviado à Justiça pela PF no último dia 14 de abril. O documento, reunido em um DVD, tem quase 600 arquivos, alguns deles contendo mais de 1.500 páginas. Trata-se de um levantamento colossal sobre os métodos usados pela Kroll. Há cópias de relatórios produzidos pelos espiões da empresa, e-mails trocados entre os seus agentes e diálogos captados pela polícia em interceptação telefônica realizada com autorização judicial. Por meio da análise desse material, descobre-se que já estiveram na mira dos agentes da Kroll, entre outros, o ex-governador Mário Covas, a senadora pelo PFL Roseana Sarney e o banqueiro Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, cuja liquidação foi decretada pelo Banco Central há duas semanas.


Alexandre Campbelli/Folha Imagem
APREENSÃO
Polícia recolhe papéis da Kroll: métodos revelados

Quatro arquivos, com material apreendido pela PF no 8º e no 9º andares do prédio da empresa em São Paulo e batizados pela PF com as siglas MB-09A e MB-09B, são o coração das espionagens praticadas pela Kroll a partir da década de 90. Eles incluem uma pasta marrom identificada sob o número 18000-407. Seu conteúdo traz uma revelação surpreendente. Em 16 de setembro de 1998, a vinte dias do primeiro turno das eleições para o governo do estado de São Paulo, a Kroll produziu um relatório chamado "Caso Covas". O documento, segundo a PF, foi elaborado a pedido da Kroll Miami e do ex-prefeito Paulo Maluf, então candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Análise dos agentes de inteligência da PF conclui que os espiões da Kroll tentaram levantar informações que comprometessem o então governador de São Paulo – e adversário de Maluf na campanha – por meio de investigações de pessoas ligadas a ele. Supostas visitas do filho de Covas, Mário Covas Neto, a cassinos paraguaios, por exemplo, constam de memorandos dos espiões. Batizada de projeto Au Liban (nome de um restaurante árabe em São Paulo), a investigação da Kroll inclui também um levantamento de informações sobre o ex-prefeito de Osasco Francisco Rossi – outro adversário de Maluf à época. Em um dos relatórios apreendidos pela PF, um funcionário da Kroll narra uma conversa que travou com um ex-motorista de Rossi. Segundo relato do espião, o motorista teria demonstrado a intenção de "vingar-se de seu ex-patrão" e tinha a memória "melhorada na medida em que o estímulo à mesma incluía a possibilidade de ganhos monetários". Ouvido por VEJA, Maluf nega que tenha contratado a Kroll para espionar adversários. "Nego, absolutamente."

Em outra pasta, bem mais alentada, o alvo das investigações da Kroll é o banqueiro Edemar Cid Ferreira. As análises da Polícia Federal não apontam a identidade do contratante, mas os textos indicam que se trata de um escritório americano de advocacia especializado em falências e propriedade intelectual. A julgar pelo material produzido, Edemar sofreu uma rigorosa investigação por parte da Kroll a partir de 2001. Só a lista de documentos coletados sobre ele tem quase dez páginas. Entre os papéis, de acordo com o relatório produzido pela PF, está um extrato do cartão de crédito do banqueiro, indicando, como uma de suas dependentes, a hoje senadora Roseana Sarney. A descoberta da PF reforça uma informação que já é de conhecimento público há mais de uma década: a de que as relações entre o banqueiro e a família Sarney são mais do que boas. Além de cópias de reservas feitas em hotéis nos Estados Unidos, a pasta relativa a Edemar contém ainda dados sobre suas transações financeiras, algumas delas protegidas por sigilo bancário – como depósitos realizados em uma conta corrente do banqueiro em Miami. Outros políticos, como o então ministro da Justiça, Iris Rezende, e a deputada federal Jandira Feghali, também foram, segundo a PF, alvo dos espiões da Kroll.

A empresa, porém, não se limitou a bisbilhotar a vida de ministros, deputados e senadores. A Kroll também investigou empresas e, neste caso, a Polícia Federal pôde constatar os mecanismos que regem a ética da firma de espionagem. Em junho de 2000, a Petrobras requisitou os serviços da Kroll para realizar uma varredura nos seus telefones. Dois meses depois, a pedido da Kroll dos Estados Unidos, a seção brasileira da empresa iniciou uma investigação contra a própria Petrobras. O fato de esse trabalho ter se estendido até o ano passado não impediu que, nesse período, a Kroll aceitasse firmar outros contratos com a estatal brasileira. A situação, como notam os policiais que produziram o relatório da PF, "equivale a dizer que a empresa petrolífera nacional figurava no período mencionado, para a Kroll, como cliente e investigada, simultaneamente". Por meio de sua assessoria, a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, confirmou a contratação da Kroll e justificou-a "por se tratar de uma investigação de transações financeiras".

Marcio Fernandes/AE
PAULO MALUF
O então candidato ao governo de São Paulo em 1998 teria mandado espionar adversários
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Há tempos a Polícia Federal monitora as ações ilegais da Kroll. No relatório, os agentes relembram que a empresa era alvo de investigações desde a Operação Anaconda, deflagrada há pouco mais de um ano e que resultou na prisão de juízes e policiais federais. A Anaconda teve início em 2002, a partir da denúncia de que um delegado aposentado da Polícia Federal, Jorge Luiz Bezerra, teria oferecido 5.000 reais mensais a dois agentes federais em troca do repasse de informações privilegiadas à Kroll. Dois anos depois, no decorrer das investigações sobre a quebra da empresa italiana Parmalat no Brasil, a PF descobriu uma nova tentativa de aliciamento de seus agentes – que, supostamente, teria partido também da Kroll. Conforme mensagens encontradas pela polícia no servidor de correio eletrônico da empresa, funcionários arquitetaram uma operação de aproximação com o delegado José Nogueira Elpídio, que comandava o inquérito Parmalat na Polícia Federal. O caso interessava à Kroll porque a Parmalat tinha relações financeiras com a Telecom Italia, adversária da sua cliente, a Brasil Telecom. É nesse momento que entra em cena o português Tiago Verdial, um personagem que se tornou conhecido em agosto do ano passado, ao ter sua prisão decretada pela Justiça. Tiago prestava serviços à Kroll e, de acordo com o relatório da Polícia Federal, chegou a oferecer dinheiro a uma das testemunhas do caso Parmalat.

Um policial que participou da Operação Chacal tem a convicção de que a Kroll agiu, "em 90% dos casos", fora da lei. No relatório entregue à Justiça, a PF afirma que a empresa de investigação "tem como prática profissional a corrupção de servidores públicos, a fim de obter dados protegidos por lei". Foi agindo dessa maneira que a empresa montou uma rede informal de espiões em órgãos como a Polícia Civil de São Paulo, a Secretaria da Receita Federal e a Caixa Econômica Federal. Depoimentos colhidos pela PF demonstram que funcionários desses órgãos usavam suas senhas para entrar em bases de dados de acesso restrito e, algumas vezes mediante pagamento, repassavam as informações para a Kroll. Tanto o acesso a bases de dados sob sigilo quanto o pagamento em dinheiro a servidores públicos são crimes previstos na legislação brasileira. Para o jurista Ives Gandra, empresas como a Kroll não deveriam nem sequer atuar no Brasil, quanto mais agir desafiando a lei. "Investigar é exclusivamente poder de polícia", diz Gandra. O advogado Jorge Nemr diz que a falta de uma regulamentação que defina claramente as atribuições das empresas de investigação propicia casos como o da Kroll: "Isso coloca as empresas à margem da lei". No fim do mês passado, o Ministério Público Federal apresentou denúncia contra a Kroll e seus diretores, por causa das violações supostamente praticadas no episódio de espionagem da Telecom Italia. Para que uma ação penal contra a empresa tenha início, a Justiça precisa dizer se aceita ou não a denúncia. A julgar pelo material recolhido pela Polícia Federal, não será por falta de indícios que ela deixará de fazê-lo.

Com reportagem de Juliana Linhares,
André Rizek e Erin Mizuta

 

Os espionados


Claudio Rossi
Antonio Milena
Caio Guatelli/AE
EDEMAR CID FERREIRA
Aparentemente a pedido de um escritório de advocacia americano, a Kroll teve acesso a informações pessoais do então presidente do Banco Santos em 2001, incluindo alguns dados protegidos por sigilo bancário
ROSEANA SARNEY
No mesmo período, a empresa levantou informações sobre a senadora depois de obter extrato de cartão de crédito de Edemar Cid Ferreira que trazia a então governadora do Maranhão como sua dependente
MÁRIO COVAS
Candidato à reeleição ao governo do estado de São Paulo em 1998, teve sua vida vasculhada pela empresa às vésperas das eleições, a pedido, segundo a Polícia Federal, do adversário Paulo Maluf


Sebastião Moreira/AE
Antonio Milena
Jefferson Rudy/Folha Imagem
FRANCISCO ROSSI
Também foi investigado por encomenda de Maluf, de acordo com o relatório da PF. Era candidato ao governo pelo PDT em 1998. A Kroll deveria descobrir suas supostas "atividades ilícitas"
MÁRIO COVAS NETO
A mesma investigação atingiu ainda o filho de Mário Covas, Mário Covas Neto, o Zuzinha. Em memorando interno, espiões da Kroll comentam visitas de Zuzinha a cassinos paraguaios
IRIS REZENDE
Em 1997, a Kroll recolheu dados pessoais do então ministro da Justiça pelo PMDB, no âmbito de uma investigação sobre o projeto Sivam, sistema de vigilância por radar da Amazônia


Zeca Guimarães/Folha Imagem
JANDIRA FEGHALI
A PF encontrou no escritório da Kroll uma pasta com o nome da deputada federal e dados sobre uma investigação a respeito das relações da parlamentar com uma empresa de aviação

 

Os limites da investigação

O que uma empresa privada de investigação está ou não autorizada a fazer, segundo a legislação brasileira. De acordo com relatório da Polícia Federal, a Kroll incorreu em todas as irregularidades da lista

PODE

Buscar informações sobre pessoas físicas ou jurídicas em cartórios, diários oficiais, tribunais e juntas comerciais

Seguir, fotografar ou filmar alguém em lugar público

Colher informações sobre alguém com base em notícias publicadas em jornais e revistas

Pedir informações a pessoas próximas, como vizinhos ou colegas de trabalho


NÃO PODE


Instalar escutas telefônicas

Acessar a movimentação bancária e outros documentos do investigado, como declaração de imposto de renda

Interceptar correspondência, impressa ou eletrônica

Pagar servidor público para obter informações

Usar câmeras escondidas em propriedade privada

 

Reportagens sob suspeita

Fernando Lemos/Strana
DANIEL DANTAS
Tiro na concorrência e ajuda da imprensa


O relatório da Polícia Federal, obtido por VEJA, descreve como a Kroll teria feito uso da imprensa para conseguir a publicação de reportagens de seu interesse e de pelo menos um de seus clientes – a Brasil Telecom, de Daniel Dantas. Por meio de escuta autorizada judicialmente, a PF flagrou o espião português Tiago Verdial, que prestava serviços para a Kroll, vangloriando-se de ter conseguido publicar, na revista IstoÉ Dinheiro, da Editora Três, uma matéria favorável à empresa de investigação. Em diálogo travado com a mãe, Anne Marie, Verdial diz ter sido "responsável" pela produção de uma matéria de capa na mesma revista sobre a falência da companhia italiana Parmalat. Intitulada "O Diário Secreto da Parmalat", a reportagem, publicada em maio do ano passado, descreve as ligações da empresa de laticínios com a Telecom Italia, adversária de Dantas no setor de telefonia. "Matéria todinha feita pela gente. Saiu na capa da IstoÉ Dinheiro", diz Verdial.

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O RELATÓRIO
Polícia Federal diz que IstoÉ Dinheiro era usada por Dantas


O relatório da Polícia Federal lista ainda outras três reportagens publicadas pela IstoÉ Dinheiro, sempre com um tom favorável a Dantas e à Kroll, de acordo com a PF. Diz um dos trechos do documento: "Da mesma maneira, coincidência ou não, logo após a prisão de Tiago Verdial, IstoÉ Dinheiro, em reportagem noticiada na capa, divulgou outra matéria e uma entrevista realizada com Jules Kroll, criador da agência Kroll, o qual dá sua versão sobre os fatos, apontando contradições no então chamado caso Kroll", descreve o relatório. A Polícia Federal também chama atenção para o fato de que "o autor de todas as citadas matérias, dentre outras com o mesmo direcionamento, é Leonardo Attuch, jornalista de IstoÉ Dinheiro". E completa: "Há indícios de que Leonardo Attuch favoreceria a quadrilha investigada no procedimento criminal, elaborando matérias que vão ao encontro dos interesses da organização criminosa". Attuch afirma que nenhuma de suas reportagens foi contestada por quaisquer das partes envolvidas e que um pedido de quebra de sigilo telefônico, feito pela PF à Justiça, foi negado sob a justificativa de que não existiam indícios de crime contra ele.

 

 
 
 
 
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