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Espionagem
A usina de espionagem da Kroll
Relatório da Polícia Federal mostra
que,
desde os anos 90, a Kroll espiona políticos
e empresários brasileiros nem sempre
utilizando expedientes legais

Marcelo Carneiro
e Thaís Oyama
A maior empresa de investigação
do mundo, com sede nos Estados Unidos, vive, no Brasil, seu inferno
particular. Desde julho do ano passado, a Kroll é suspeita
de usar meios ilegais de espionagem. O caso veio a público
quando a Folha de S.Paulo revelou que a empresa, para fornecer
informações a um de seus clientes, a Brasil Telecom,
chegou a ponto de investigar integrantes do governo Lula como o
ex-presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, e o ministro
Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação. A viagem
da Kroll ao submundo das operações ilegais incluiu,
segundo investigações da Polícia Federal (PF),
o uso de escutas telefônicas e o acesso a dados protegidos
por sigilo fiscal. Até então, porém, suspeitava-se
que a empresa havia atropelado os limites estabelecidos pela Constituição
para atender apenas aos interesses da Brasil Telecom até
o mês passado comandada por Daniel Dantas, do banco Opportunity.
O material reunido pela PF no curso da investigação,
batizada de Operação Chacal, revela, no entanto, que
pelo menos desde a década de 90 a Kroll se dedica a monitorar
a vida de dezenas de pessoas, entre elas políticos e empresários
e nem sempre por meio de expedientes legais.
VEJA teve acesso ao conteúdo
de um relatório parcial enviado à Justiça pela
PF no último dia 14 de abril. O documento, reunido em um
DVD, tem quase 600 arquivos, alguns deles contendo mais de 1.500
páginas. Trata-se de um levantamento colossal sobre os métodos
usados pela Kroll. Há cópias de relatórios
produzidos pelos espiões da empresa, e-mails trocados entre
os seus agentes e diálogos captados pela polícia em
interceptação telefônica realizada com autorização
judicial. Por meio da análise desse material, descobre-se
que já estiveram na mira dos agentes da Kroll, entre outros,
o ex-governador Mário Covas, a senadora pelo PFL Roseana
Sarney e o banqueiro Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, cuja
liquidação foi decretada pelo Banco Central há
duas semanas.
Alexandre Campbelli/Folha Imagem
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APREENSÃO
Polícia recolhe papéis da Kroll: métodos
revelados |
Quatro arquivos, com material
apreendido pela PF no 8º e no 9º andares do prédio
da empresa em São Paulo e batizados pela PF com as siglas
MB-09A e MB-09B, são o coração das espionagens
praticadas pela Kroll a partir da década de 90. Eles incluem
uma pasta marrom identificada sob o número 18000-407. Seu
conteúdo traz uma revelação surpreendente.
Em 16 de setembro de 1998, a vinte dias do primeiro turno das eleições
para o governo do estado de São Paulo, a Kroll produziu um
relatório chamado "Caso Covas". O documento, segundo a PF,
foi elaborado a pedido da Kroll Miami e do ex-prefeito Paulo Maluf,
então candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Análise
dos agentes de inteligência da PF conclui que os espiões
da Kroll tentaram levantar informações que comprometessem
o então governador de São Paulo e adversário
de Maluf na campanha por meio de investigações
de pessoas ligadas a ele. Supostas visitas do filho de Covas, Mário
Covas Neto, a cassinos paraguaios, por exemplo, constam de memorandos
dos espiões. Batizada de projeto Au Liban (nome de um restaurante
árabe em São Paulo), a investigação
da Kroll inclui também um levantamento de informações
sobre o ex-prefeito de Osasco Francisco Rossi outro adversário
de Maluf à época. Em um dos relatórios apreendidos
pela PF, um funcionário da Kroll narra uma conversa que travou
com um ex-motorista de Rossi. Segundo relato do espião, o
motorista teria demonstrado a intenção de "vingar-se
de seu ex-patrão" e tinha a memória "melhorada na
medida em que o estímulo à mesma incluía a
possibilidade de ganhos monetários". Ouvido por VEJA, Maluf
nega que tenha contratado a Kroll para espionar adversários.
"Nego, absolutamente."
Em outra pasta, bem mais alentada,
o alvo das investigações da Kroll é o banqueiro
Edemar Cid Ferreira. As análises da Polícia Federal
não apontam a identidade do contratante, mas os textos indicam
que se trata de um escritório americano de advocacia especializado
em falências e propriedade intelectual. A julgar pelo material
produzido, Edemar sofreu uma rigorosa investigação
por parte da Kroll a partir de 2001. Só a lista de documentos
coletados sobre ele tem quase dez páginas. Entre os papéis,
de acordo com o relatório produzido pela PF, está
um extrato do cartão de crédito do banqueiro, indicando,
como uma de suas dependentes, a hoje senadora Roseana Sarney. A
descoberta da PF reforça uma informação que
já é de conhecimento público há mais
de uma década: a de que as relações entre o
banqueiro e a família Sarney são mais do que boas.
Além de cópias de reservas feitas em hotéis
nos Estados Unidos, a pasta relativa a Edemar contém ainda
dados sobre suas transações financeiras, algumas delas
protegidas por sigilo bancário como depósitos
realizados em uma conta corrente do banqueiro em Miami. Outros políticos,
como o então ministro da Justiça, Iris Rezende, e
a deputada federal Jandira Feghali, também foram, segundo
a PF, alvo dos espiões da Kroll.
A empresa, porém, não
se limitou a bisbilhotar a vida de ministros, deputados e senadores.
A Kroll também investigou empresas e, neste caso, a Polícia
Federal pôde constatar os mecanismos que regem a ética
da firma de espionagem. Em junho de 2000, a Petrobras requisitou
os serviços da Kroll para realizar uma varredura nos seus
telefones. Dois meses depois, a pedido da Kroll dos Estados Unidos,
a seção brasileira da empresa iniciou uma investigação
contra a própria Petrobras. O fato de esse trabalho ter se
estendido até o ano passado não impediu que, nesse
período, a Kroll aceitasse firmar outros contratos com a
estatal brasileira. A situação, como notam os policiais
que produziram o relatório da PF, "equivale a dizer que a
empresa petrolífera nacional figurava no período mencionado,
para a Kroll, como cliente e investigada, simultaneamente". Por
meio de sua assessoria, a BR Distribuidora, subsidiária da
Petrobras, confirmou a contratação da Kroll e justificou-a
"por se tratar de uma investigação de transações
financeiras".
Marcio Fernandes/AE
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PAULO MALUF
O então candidato ao governo de São Paulo
em 1998 teria mandado espionar adversários |
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Há tempos a Polícia
Federal monitora as ações ilegais da Kroll. No relatório,
os agentes relembram que a empresa era alvo de investigações
desde a Operação Anaconda, deflagrada há pouco
mais de um ano e que resultou na prisão de juízes
e policiais federais. A Anaconda teve início em 2002, a partir
da denúncia de que um delegado aposentado da Polícia
Federal, Jorge Luiz Bezerra, teria oferecido 5.000 reais mensais
a dois agentes federais em troca do repasse de informações
privilegiadas à Kroll. Dois anos depois, no decorrer das
investigações sobre a quebra da empresa italiana Parmalat
no Brasil, a PF descobriu uma nova tentativa de aliciamento de seus
agentes que, supostamente, teria partido também da
Kroll. Conforme mensagens encontradas pela polícia no servidor
de correio eletrônico da empresa, funcionários arquitetaram
uma operação de aproximação com o delegado
José Nogueira Elpídio, que comandava o inquérito
Parmalat na Polícia Federal. O caso interessava à
Kroll porque a Parmalat tinha relações financeiras
com a Telecom Italia, adversária da sua cliente, a Brasil
Telecom. É nesse momento que entra em cena o português
Tiago Verdial, um personagem que se tornou conhecido em agosto do
ano passado, ao ter sua prisão decretada pela Justiça.
Tiago prestava serviços à Kroll e, de acordo com o
relatório da Polícia Federal, chegou a oferecer dinheiro
a uma das testemunhas do caso Parmalat.
Um policial que participou da
Operação Chacal tem a convicção de que
a Kroll agiu, "em 90% dos casos", fora da lei. No relatório
entregue à Justiça, a PF afirma que a empresa de investigação
"tem como prática profissional a corrupção
de servidores públicos, a fim de obter dados protegidos por
lei". Foi agindo dessa maneira que a empresa montou uma rede informal
de espiões em órgãos como a Polícia
Civil de São Paulo, a Secretaria da Receita Federal e a Caixa
Econômica Federal. Depoimentos colhidos pela PF demonstram
que funcionários desses órgãos usavam suas
senhas para entrar em bases de dados de acesso restrito e, algumas
vezes mediante pagamento, repassavam as informações
para a Kroll. Tanto o acesso a bases de dados sob sigilo quanto
o pagamento em dinheiro a servidores públicos são
crimes previstos na legislação brasileira. Para o
jurista Ives Gandra, empresas como a Kroll não deveriam nem
sequer atuar no Brasil, quanto mais agir desafiando a lei. "Investigar
é exclusivamente poder de polícia", diz Gandra. O
advogado Jorge Nemr diz que a falta de uma regulamentação
que defina claramente as atribuições das empresas
de investigação propicia casos como o da Kroll: "Isso
coloca as empresas à margem da lei". No fim do mês
passado, o Ministério Público Federal apresentou denúncia
contra a Kroll e seus diretores, por causa das violações
supostamente praticadas no episódio de espionagem da Telecom
Italia. Para que uma ação penal contra a empresa tenha
início, a Justiça precisa dizer se aceita ou não
a denúncia. A julgar pelo material recolhido pela Polícia
Federal, não será por falta de indícios que
ela deixará de fazê-lo.
Com reportagem de
Juliana Linhares,
André Rizek e Erin Mizuta
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Os espionados
Claudio Rossi
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Antonio Milena
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Caio Guatelli/AE
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EDEMAR CID FERREIRA
Aparentemente a pedido de um escritório
de advocacia americano, a Kroll teve acesso a informações
pessoais do então presidente do Banco Santos
em 2001, incluindo alguns dados protegidos por sigilo
bancário |
ROSEANA SARNEY
No mesmo período, a empresa levantou
informações sobre a senadora depois
de obter extrato de cartão de crédito
de Edemar Cid Ferreira que trazia a então
governadora do Maranhão como sua dependente
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MÁRIO COVAS
Candidato à reeleição
ao governo do estado de São Paulo em 1998,
teve sua vida vasculhada pela empresa às
vésperas das eleições, a pedido,
segundo a Polícia Federal, do adversário
Paulo Maluf |
Sebastião Moreira/AE
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Antonio Milena
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Jefferson Rudy/Folha Imagem
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FRANCISCO ROSSI
Também foi investigado por encomenda
de Maluf, de acordo com o relatório da PF.
Era candidato ao governo pelo PDT em 1998. A Kroll
deveria descobrir suas supostas "atividades
ilícitas" |
MÁRIO COVAS NETO
A mesma investigação atingiu ainda
o filho de Mário Covas, Mário Covas
Neto, o Zuzinha. Em memorando interno, espiões
da Kroll comentam visitas de Zuzinha a cassinos
paraguaios |
IRIS REZENDE
Em 1997, a Kroll recolheu dados pessoais
do então ministro da Justiça pelo
PMDB, no âmbito de uma investigação
sobre o projeto Sivam, sistema de vigilância
por radar da Amazônia |
Zeca Guimarães/Folha
Imagem
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JANDIRA
FEGHALI
A PF encontrou
no escritório da Kroll uma pasta com o nome
da deputada federal e dados sobre uma investigação
a respeito das relações da parlamentar
com uma empresa de aviação |
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Os limites da investigação
O que uma empresa privada de
investigação está ou não
autorizada a fazer, segundo a legislação
brasileira. De acordo com relatório da Polícia
Federal, a Kroll incorreu em todas as irregularidades
da lista
PODE
Buscar informações
sobre pessoas físicas ou jurídicas em
cartórios, diários oficiais, tribunais
e juntas comerciais
Seguir, fotografar ou filmar alguém
em lugar público
Colher informações
sobre alguém com base em notícias publicadas
em jornais e revistas
Pedir informações
a pessoas próximas, como vizinhos ou colegas
de trabalho
NÃO PODE
Instalar escutas telefônicas
Acessar a movimentação
bancária e outros documentos do investigado,
como declaração de imposto de renda
Interceptar correspondência,
impressa ou eletrônica
Pagar servidor público
para obter informações
Usar câmeras
escondidas em propriedade privada
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Reportagens sob suspeita
Fernando Lemos/Strana
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DANIEL
DANTAS
Tiro na concorrência e ajuda da imprensa
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O relatório da Polícia Federal, obtido
por VEJA, descreve como a Kroll teria feito uso da imprensa
para conseguir a publicação de reportagens
de seu interesse e de pelo menos um de seus clientes
a Brasil Telecom, de Daniel Dantas. Por meio
de escuta autorizada judicialmente, a PF flagrou o espião
português Tiago Verdial, que prestava serviços
para a Kroll, vangloriando-se de ter conseguido publicar,
na revista IstoÉ Dinheiro, da Editora
Três, uma matéria favorável à
empresa de investigação. Em diálogo
travado com a mãe, Anne Marie, Verdial diz ter
sido "responsável" pela produção
de uma matéria de capa na mesma revista sobre
a falência da companhia italiana Parmalat. Intitulada
"O Diário Secreto da Parmalat", a reportagem,
publicada em maio do ano passado, descreve as ligações
da empresa de laticínios com a Telecom Italia,
adversária de Dantas no setor de telefonia. "Matéria
todinha feita pela gente. Saiu na capa da IstoÉ
Dinheiro", diz Verdial.
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O
RELATÓRIO
Polícia Federal diz que IstoÉ
Dinheiro era usada por Dantas |
O relatório da Polícia Federal lista ainda
outras três reportagens publicadas pela IstoÉ
Dinheiro, sempre com um tom favorável a Dantas
e à Kroll, de acordo com a PF. Diz um dos trechos
do documento: "Da mesma maneira, coincidência
ou não, logo após a prisão de Tiago
Verdial, IstoÉ Dinheiro, em reportagem
noticiada na capa, divulgou outra matéria e uma
entrevista realizada com Jules Kroll, criador da agência
Kroll, o qual dá sua versão sobre os fatos,
apontando contradições no então
chamado caso Kroll", descreve o relatório. A
Polícia Federal também chama atenção
para o fato de que "o autor de todas as citadas matérias,
dentre outras com o mesmo direcionamento, é Leonardo
Attuch, jornalista de IstoÉ Dinheiro".
E completa: "Há indícios de que Leonardo
Attuch favoreceria a quadrilha investigada no procedimento
criminal, elaborando matérias que vão
ao encontro dos interesses da organização
criminosa". Attuch afirma que nenhuma de suas reportagens
foi contestada por quaisquer das partes envolvidas e
que um pedido de quebra de sigilo telefônico,
feito pela PF à Justiça, foi negado sob
a justificativa de que não existiam indícios
de crime contra ele.
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