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Entrevista: João
Ubaldo Ribeiro "Somos um país corrupto"
O escritor diz que o governo Lula é incompetente, que ricos e pobres
brasileiros são igualmente desonestos e que a idéia de cotas
significa um esforço para dividir o Brasil em raças  João
Gabriel de Lima

| "O
brasileiro é tão subserviente que, quando alguém chama Lula
de ignorante o que é uma verdade , diz-se que o presidente
está sendo desrespeitado" | | O
escritor João Ubaldo Ribeiro fustiga o presidente Lula com a mesma intensidade
com que Luis Fernando Verissimo atormentava Fernando Henrique Cardoso. Nestes
dois anos e meio de administração petista, Ubaldo se tornou um dos
críticos mais ácidos do governo. "Não gosto dessa posição,
não gosto de aparecer, mas fazer o quê? É inevitável
se indignar com certas coisas", diz o autor. Seu motivo mais recente de irritação
foi a cartilha com termos politicamente corretos elaborada pela Secretaria dos
Direitos Humanos. Ubaldo escreveu um e-mail a dezenas de amigos, e isso desencadeou
toda a polêmica a respeito do tema. Aos 64 anos, o escritor baiano é
um dos maiores best-sellers brasileiros, com 3 milhões de exemplares vendidos
ao longo da carreira. Em casa, quando não está escrevendo, Ubaldo
se dedica a uma nova paixão: o computador. Ele é capaz de ficar
um dia inteiro baixando programas e viajando na internet. Compartilha o hobby
com o amigo e também autor Rubem Fonseca: "Ele é um expert e dizia
que eu nunca seria como ele. Hoje me chama de mestre". Em seu apartamento no bairro
do Leblon, no Rio de Janeiro, João Ubaldo Ribeiro recebeu VEJA para a seguinte
entrevista. Veja O senhor é
um dos maiores críticos do governo. O que há de errado com a administração
petista? Ubaldo O governo é de uma extraordinária
incompetência. Não conseguiu formular nenhum projeto, nenhuma visão
nacional. O presidente, na minha opinião, tem de ser respeitado, pela sua
condição de incorporar e encarnar o cargo supremo do Executivo brasileiro.
E eu jamais faltei com esse respeito. No entanto, o brasileiro é tão
subserviente que, quando alguém critica Lula chamando-o, por exemplo, de
ignorante o que não é uma difamação, é
uma verdade , diz-se que o presidente está sendo desrespeitado. Veja
A ignorância a que o senhor se refere não seria compensada
por outras qualidades? Ubaldo Lula é autor de uma
obra monumental, o Partido dos Trabalhadores. É algo sem precedentes na
história brasileira, e talvez na história latino-americana. Governar
um país, no entanto, não é a dele. Lula não sabe administrar.
Ele não senta para ler, para despachar, para trabalhar. Ele tem um ministério
que dificilmente conseguirá reunir num mesmo dia porque é impossível,
num time de quarenta integrantes, que pelo menos um não esteja gripado
ou com algum impedimento. Veja O
senhor votou em Lula? Ubaldo Sim, na última eleição.
Em 1994 e 1998, votei em Fernando Henrique. Eu não considerava Lula preparado.
Hoje vejo que tinha razão. Na época da eleição de
2002, deixei-me convencer de que os quadros do PT seriam suficientes para manter
a coisa sob controle e que o presidente não se deixaria seduzir de forma
tão flagrante pelos atrativos do poder. Observando o comportamento de Lula,
nota-se que o prazer dele não é administrar. São os discursos,
são as aparições que eu classifiquei, e não me arrependo
do adjetivo, de circenses. Vem sendo assim desde o primeiro dia. Ele foi a uma
das cidades mais pobres, se não a mais pobre e faminta do Brasil, lá
no Piauí. Muitas daquelas pessoas não sabiam exatamente o que significava
um presidente da República, que para elas seria algo assim como um dono
do mundo. Lá, ele disse ao povo que todos iriam comer no dia seguinte.
E eu duvido que estejam comendo hoje. Veja
Por causa desse tom crítico ao governo, o senhor é acusado de
estar a serviço do PSDB. Como reage a isso? Ubaldo
Eu sou uma pessoa totalmente destituída de rabo preso. Nunca roubei ninguém,
não tenho antecedentes criminais, nunca fui dedo-duro, é difícil
desencavar em meu passado algo mais grave do que ter enganado uma namorada, e
assim mesmo muito eventualmente. Quando eu falo mal do governo, recebo cartas
iradas dizendo: "Mas o que o PSDB faria neste caso?". Como se tudo o que eu escrevi
contra o PSDB não valesse nada. No Brasil, sempre se acredita que a imprensa
vive no bolso de alguém. Eu convivi com Roberto Marinho episodicamente
por causa de nossa condição de integrantes da Academia Brasileira
de Letras. Por ter comparecido a três ou quatro jantares na casa do dono
da Globo, fui acusado de conspirar com ele. Você imagina que Roberto Marinho
iria chamar um colunista de jornal para que ambos, juntos, manobrassem os cordões
que gerem esta República? As pessoas têm essa convicção
porque estão acostumadas ao ambiente de corrupção que reina
no Brasil. Veja Não é
um exagero dizer que a corrupção reina no Brasil? Ubaldo
Nós vivemos num ambiente de lassitude moral que se estende a
todas as camadas da sociedade. Esse negócio de dizer que as elites são
corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos
um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento
pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode
até fazer uma experiência. A população da Zona Sul
do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade.
Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar
em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho,
eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que
acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto
assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar
fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.
Outro exemplo. Eu ouço de várias empregadas domésticas que
é comuníssimo aqui no Rio de Janeiro que responsáveis pela
merenda escolar retirem substancial quantidade de víveres e alimentos das
crianças para levar para casa, distribuir entre parentes e até montar
quitandas. Isso é um evidente absurdo. Veja
O senhor falou em lassitude moral. Isso não ocorreria porque
o país não tem instituições fortes, ao contrário
de nações européias e dos Estados Unidos? Ubaldo
Nós somos de um país cuja colonização se
deu em moldes muito diferentes dos da colonização dos Estados Unidos,
nação à qual somos freqüentemente comparados. Os colonizadores
ingleses, ao vir para a América, estavam dando as costas para a Europa.
Eles vieram para nunca mais voltar. Sua intenção, ao chegar ao Novo
Mundo, era conceber uma nação ou várias pequenas nações
nas treze colônias. No Brasil isso não ocorreu. Não porque
os portugueses sejam ordinários pela própria natureza, como freqüentemente
se diz. A questão é que Portugal nos pegou num momento em que sua
prosperidade dependia do fato de o país ser um grande entreposto da Europa,
um grande fornecedor de mercadorias. Fizeram, assim, uma colonização
predatória. Portugal enriqueceu à custa do açúcar
brasileiro, e Lisboa foi reconstruída pelo marquês de Pombal com
dinheiro brasileiro. Convinha manter aqui um controle rígido, diferentemente
dos americanos, que de costas para a Europa criaram suas próprias leis.
Os portugueses, no entanto, não tinham estrutura para isso. Com essa presença
forte do governo necessariamente despoliciado pela metrópole, o domínio
dos portugueses ocorreu de uma maneira desordenada, desregulada, importando caoticamente
a burocracia lusitana, com a corrupção que essa burocracia gera.
Construiu-se toda uma visão de mundo centrada na ação estatal.
A origem de muitos dos nossos problemas pode ser essa. Veja
De acordo com Gilberto Freyre, no entanto, os portugueses contribuíram
positivamente ao criar uma nação miscigenada. Ubaldo
É verdade, eles deram algumas contribuições positivas, e
essa é uma delas. Com a qual, por falar nisso, o governo quer acabar, implantando
o sistema de cotas nas universidades. Eu vejo essa idéia com profunda desconfiança
e muito desagrado. Em minha opinião, ela representa um esforço para
dividir este país, pela primeira vez, em linhas raciais. Tenho amigos diretores
e donos de colégios que estão sendo obrigados a classificar os alunos
por raça. Que retrocesso é esse? Já me chamaram e me chamam
de vez em quando de negro. Eu me recuso a ser chamado de negro. Não porque
tenha vergonha. Eu sou filho de uma família portuguesa pelo lado da mãe,
neto de um português pelo lado do pai. A mulher do meu avô paterno
era uma mulata acaboclada. O que significa que eu tenho sangue negro. Mas eu me
recuso a usar o critério americano que diz que é negro todo mundo
que tem uma gota de sangue negro. Ou seja, se o sujeito é filho de um zulu
com uma sueca, por que a metade zulu tem de prevalecer? E aí vem o governo
com essa bobagem de que não se pode usar a palavra "mulato" porque vem
de mula. Vou dizer algo politicamente incorreto: Lula é mulato. Se bem
me lembro, o cabelo dele era crespo, encarapinhado, no tempo em que era líder
metalúrgico. Já hoje, presidente da República, ele tem cabelos
sedosos. Veja O senhor acha que
o sistema de cotas é de difícil implantação? Ubaldo
Eu acho muito complicado classificar as pessoas por raças no
Brasil. Eu não vejo TV, posso estar dizendo alguma bobagem, mas eu me lembro
de que a Xuxa só aceitava loirinhas para paquitas. Suponhamos que baixassem
no Brasil um decreto específico, dizendo: "Xuxa Meneghel é obrigada
a reservar 50% das vagas de paquitas para afro-descendentes". Apareceriam no dia
seguinte 20.000 loiras de olhos azuis mostrando o retrato de um vovô negão.
Carla Perez, minha conterrânea, é uma loira artificial. Ela é
mulata, filha de mulato, sem deixar de ser loira. Essa idéia das cotas
embute, no fundo, uma visão equivocada: aquela que enxerga a questão
da escravidão como um problema de origem racial. Veja
E não é? Ubaldo Não existe
nada mais falso do que isso. Ao longo da história, os escravos sempre foram
os vencidos, e não necessariamente os negros. Na maior parte das civilizações,
os escravos eram brancos. Os hebreus foram escravos dos egípcios, por exemplo.
Não foram os portugueses que escravizaram os africanos. Eles trouxeram
nos navios negreiros pessoas que já haviam sido escravizadas em sua nação
de origem. Eram negros escravizando negros. As nações da África
do início do ciclo das grandes navegações nunca tinham ouvido
falar na existência dos brancos. Acreditavam que a humanidade era negra.
Achavam-se, assim, tão diferentes dos vizinhos que falavam outra língua,
cultuavam outros deuses e comiam outra comida quanto um inglês se acha diferente
de um francês, de um alemão ou de um napolitano. A suposta irmandade
entre os negros passou a existir quando eles foram unificados na categoria de
escravos. Veja O senhor sempre
se autodefiniu como um autor que escreve por dinheiro. Alguém com essa
postura sofre algum tipo de discriminação no Brasil? Ubaldo
Sem dúvida. Em parte por causa da inveja dos que não
conseguem vender livros. Durante a maior parte da história a regra foi
a encomenda. Quase toda a arte renascentista foi produzida assim, da Capela Sistina
às fontes de Roma. Esse negócio de se sentar e se comunicar magicamente
com as musas é conversa de rico que fica falando em arte. O artista de
verdade quer ser pago. Veja Por
que se lê tão pouco no Brasil? Ubaldo É
um lugar-comum dizer que isso ocorre porque o livro é caro. Sem dúvida
essa é uma das razões. Há, no entanto, uma cultura de que
o livro é uma coisa chata, difícil. Eu sou adotado em escolas, e
devo ser odiado por um número imenso de estudantes brasileiros. Os jovens
lêem os livros preocupados em responder a perguntas incompreensíveis
em provas. Um grande número de professores transmite aos alunos o ódio
que eles mesmos têm dos clássicos. O próprio presidente vende
a imagem da leitura como uma coisa difícil, comparável a andar em
esteira. Uma das coisas graves que eu acho que Lula faz é se gabar, se
vangloriar da própria ignorância, da própria falta de formação.
Veja O senhor recentemente teve
graves problemas de saúde por causa do alcoolismo. Poderia contar o que
aconteceu? Ubaldo Foi uma luta de oito anos, complicadíssima.
Tudo começou com uma depressão, em 1994, quando voltei da Copa do
Mundo dos Estados Unidos. Uma depressão sem motivo, mas eu caí de
cama, só não quis me suicidar. Tomei todos os remédios possíveis.
Eu, que já bebia bastante, tentei curar a depressão com álcool,
que é a pior burrice que alguém pode fazer. Porque a depressão
vai embora durante três horas, quatro horas, depois volta pior. Você
entra numa espiral descendente da qual é difícil sair. Fiquei oito
anos nesse inferno, inchado, tremendo. O auge, há quatro ou cinco anos,
foi quando tive uma pancreatite que quase me levou à morte. Passei quinze
dias na unidade semi-intensiva do hospital. Tive a sorte de ser um dos poucos
casos de pancreatite que não deram dor nenhuma. Dizem que as dores associadas
a essa doença estão entre as piores que se podem suportar. Hoje,
felizmente, estou há três anos sem beber. Veja
Como o senhor superou o problema? Ubaldo Pela
via da religião. Eu não me submeto ao ministério de nenhuma
crença, embora acredite em Deus, reze todas as noites e me considere cristão.
Há algum tempo, por uma série incrível de coincidências
que não vou relatar aqui, tornei-me devoto de Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro. Eu dizia que quase morri de pancreatite. Depois que saí do hospital,
voltei a meus velhos hábitos de beber. Acordava cedíssimo, por volta
das 5 da manhã, ia comprar jornal e passava pelos bares que fecham tarde
para comprar uísque. Às 10 da manhã já estava bêbado,
e assim passava o dia inteiro. Logo tive o anúncio de que a pancreatite
estava voltando: engulhos em seco. Eu acordava e ia direto para o vaso sanitário,
para uma sessão de náuseas. Isso piorava a cada dia, e uma segunda
pancreatite para mim seria a morte. Até que uma noite, na hora de dormir,
eu rezei a Nossa Senhora: "Se amanhã eu amanhecer sem náuseas, eu
paro de beber". Acordei e, pela primeira vez em muito tempo, não tive engulhos.
Desde então, e isso foi há três anos, não bebi mais
nada. Todos os fins de semana vou com meus amigos ao boteco e só tomo guaraná
diet. O mais incrível é que não sinto a mínima vontade
de beber. Eu poderia dizer que tenho uma imensa força de vontade, mas não
seria verdade. Eu não faço esforço nenhum. |