Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Carta ao leitor
Câncer sem tabu

 

A primeira capa de VEJA sobre câncer, em 1973, e a abertura da reportagem atual

Quando VEJA publicou sua primeira reportagem de capa sobre o câncer, em abril de 1973, a doença ainda era tabu. Os médicos evitavam dar o diagnóstico diretamente ao paciente, preferindo fazê-lo aos familiares. A comunicação era feita de forma solene e em tom freqüentemente emocional. Aos amigos e vizinhos, dizia-se que o doente sofria de um mal grave, e quando se usava a palavra câncer ela era pronunciada em volume quase inaudível. De difícil diagnóstico e tratamento – o tema específico da capa de VEJA em 1973 –, o câncer era o que a tuberculose fora para as gerações anteriores, ao mesmo tempo uma moléstia física quase sempre fatal e um constrangimento social e familiar. Os dois tipos mais comuns de câncer, o de mama e o de próstata, matavam três de cada dez pessoas diagnosticadas com o mal. Hoje, as chances de sobrevivência dobraram e falar sobre o câncer não tem mais o peso do passado.

Uma reportagem especial da presente edição de VEJA trata justamente da transformação científica e cultural que tornou a discussão sobre o câncer – e sobre diversos outros temas antes quase proibidos – muito mais pública e desvestida de estigmas. É quase impensável imaginar que há trinta ou quarenta anos os homens discutissem em família e nas rodas sociais que remédio estavam usando para tratar da disfunção erétil. Era um tempo em que o desquite – pois o divórcio só viria mais tarde, em 1977 –, a homossexualidade e o casamento inter-racial eram considerados aberrações que praticamente baniam pessoas do convívio social.

De lá para cá, a sociedade brasileira passou por um radical processo de descompressão, em que preconceitos e tabus foram pulverizados. Para os pacientes de câncer, essa libertação tira-lhes um peso extra dos ombros. A reportagem de VEJA, feita pelo repórter Ricardo Valladares, recolheu depoimentos de pessoas famosas como o ator Raul Cortez, a apresentadora Ana Maria Braga e o secretário de Comunicação do governo federal, Luiz Gushiken, que travam ou travaram lutas contra a doença – e nunca se sentiram discriminados como doentes em suas atividades públicas. A repórter Giuliana Bergamo investigou as novas técnicas desenvolvidas por psicólogos e hospitais para amparar os doentes e aconselhar seus familiares, uma peça vital em qualquer tratamento bem-sucedido. Como a reportagem mostra, o primeiro passo para a resolução de qualquer problema é uma discussão aberta e franca sobre ele.

 
 
 
 
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