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Carta ao leitor Câncer
sem tabu  | | A
primeira capa de VEJA sobre câncer, em 1973, e a abertura da reportagem
atual |
Quando VEJA publicou sua primeira
reportagem de capa sobre o câncer, em abril de 1973, a doença ainda
era tabu. Os médicos evitavam dar o diagnóstico diretamente ao paciente,
preferindo fazê-lo aos familiares. A comunicação era feita
de forma solene e em tom freqüentemente emocional. Aos amigos e vizinhos,
dizia-se que o doente sofria de um mal grave, e quando se usava a palavra câncer
ela era pronunciada em volume quase inaudível. De difícil diagnóstico
e tratamento o tema específico da capa de VEJA em 1973 , o
câncer era o que a tuberculose fora para as gerações anteriores,
ao mesmo tempo uma moléstia física quase sempre fatal e um constrangimento
social e familiar. Os dois tipos mais comuns de câncer, o de mama e o de
próstata, matavam três de cada dez pessoas diagnosticadas com o mal.
Hoje, as chances de sobrevivência dobraram e falar sobre o câncer
não tem mais o peso do passado. Uma reportagem
especial da presente edição de VEJA trata justamente da transformação
científica e cultural que tornou a discussão sobre o câncer
e sobre diversos outros temas antes quase proibidos muito mais pública
e desvestida de estigmas. É quase impensável imaginar que há
trinta ou quarenta anos os homens discutissem em família e nas rodas sociais
que remédio estavam usando para tratar da disfunção erétil.
Era um tempo em que o desquite pois o divórcio só viria mais
tarde, em 1977 , a homossexualidade e o casamento inter-racial eram considerados
aberrações que praticamente baniam pessoas do convívio social.
De lá para cá, a sociedade brasileira
passou por um radical processo de descompressão, em que preconceitos e
tabus foram pulverizados. Para os pacientes de câncer, essa libertação
tira-lhes um peso extra dos ombros. A reportagem de VEJA, feita pelo repórter
Ricardo Valladares, recolheu depoimentos de pessoas famosas como o ator Raul Cortez,
a apresentadora Ana Maria Braga e o secretário de Comunicação
do governo federal, Luiz Gushiken, que travam ou travaram lutas contra a doença
e nunca se sentiram discriminados como doentes em suas atividades públicas.
A repórter Giuliana Bergamo investigou as novas técnicas desenvolvidas
por psicólogos e hospitais para amparar os doentes e aconselhar seus familiares,
uma peça vital em qualquer tratamento bem-sucedido. Como a reportagem mostra,
o primeiro passo para a resolução de qualquer problema é
uma discussão aberta e franca sobre ele. |