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Auto-retrato
Roque Citadini
Nelson Coelho/Diario SO-Ag. O Globo
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Dirigente do Corinthians e conselheiro do Tribunal de Contas do
Estado de São Paulo, Antônio Roque Citadini tornou-se
uma pedra na chuteira de seus companheiros de clube desde que passou
a denunciar as supostas irregularidades da Media Sport Investment
(MSI) empresa presidida pelo iraniano Kia Joorabchian, que
agora gerencia o futebol do Corinthians. Ele conta ao repórter
André Rizek por que decidiu comprar essa briga.
POR QUE O SENHOR É CONTRA A PARCERIA
DA MSI COM O CORINTHIANS?
Por dois motivos. O primeiro é que ninguém sabe
de onde vem o dinheiro dessa empresa. O segundo é que entregar
o futebol do clube por dez anos em troca de 20 milhões de
dólares, na minha opinião, é muito pouco.
O SENHOR ACHA QUE A MSI ESTÁ USANDO
O CORINTHIANS PARA LAVAR DINHEIRO?
É o que aponta a investigação do Ministério
Público. Quando o Kia nos procurou, disse que uma das exigências
para assinar o contrato era que os investidores que estavam por
trás dele não fossem identificados. E o clube aceitou
isso. Agora, como eu já desconfiava, o Ministério
Público aponta que o dinheiro da MSI vem, principalmente,
do financista russo Boris Berezovsky um sujeito acusado,
entre outras fraudes, de crimes contra o sistema financeiro e participação
em organização criminosa. Ele vive na Inglaterra porque
está condenado a vinte anos de prisão em seu país
e, se pisar lá, será preso. O Kia sempre negou que
a MSI tivesse relação com os russos, mas, hoje, já
se sabe que ele atuou como testa-de-ferro do Boris em outros negócios.
COMO VEM FUNCIONANDO A ADMINISTRAÇÃO
DO CORINTHIANS PELA MSI?
É um tremendo amadorismo.
A MSI é uma ficção, uma empresa de fachada,
só tem uma caixa postal. Não tem endereço nem
receita própria. Cada vez que ela precisa fechar um negócio,
como a compra de um jogador, o Kia tem de acionar os tais investidores
secretos. Então, não há dinheiro em caixa para
nada. O pagamento das dívidas do clube está atrasado
e os salários de alguns jogadores também.
POR QUE QUASE TODOS OS JOGADORES QUE A
MSI COMPROU VIERAM DO EXTERIOR?
Para ocultar a identidade dos investidores, óbvio. Com
exceção do Marcelo Mattos, todos os jogadores foram
comprados da Argentina, de Portugal ou de nações do
Leste Europeu. Por quê? Porque, até há pouco
tempo, tais países permitiam que se comprasse um atleta sem
que a transação passasse por seus organismos de controle
financeiro. O dinheiro do time comprador saía de uma conta
num paraíso fiscal e ia diretamente para uma conta do clube
vendedor, também no exterior. Com o Tevez (o argentino
Carlos Tevez, ex-Boca Juniores) foi assim. O nome da MSI nem
sequer aparece na transação. Depois disso, o governo
argentino proibiu esse procedimento.
SE O CONTRATO COM A MSI É TÃO
SUSPEITO, POR QUE O CORINTHIANS O ASSINOU?
Porque para o Corinthians não importa de onde vem o
dinheiro o que é muito grave. Ao permitir que os investidores
permaneçam na clandestinidade, estamos deixando as portas
abertas para que qualquer um faça negócio conosco
contrabandistas, narcotraficantes até.
POR QUE A MSI ESCOLHEU O BRASIL PARA INVESTIR?
Porque achou que fôssemos uma república de bananas.
A grande surpresa, para eles, é que temos instituições
sólidas, como o Ministério Público e a Receita
Federal.
O SENHOR SE CONSIDERA UM OUTSIDER DO FUTEBOL?
Não sou o típico "boleiro". Outro dia citei Rui
Barbosa numa entrevista. O repórter não entendeu e
colocou no jornal que dei uma declaração "folclórica".
Mas foi graças ao meu trabalho no tribunal que pude entender
e denunciar o que estão fazendo com o Corinthians.
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