Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Auto-retrato
Roque Citadini

Nelson Coelho/Diario SO-Ag. O Globo


Dirigente do Corinthians e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Antônio Roque Citadini tornou-se uma pedra na chuteira de seus companheiros de clube desde que passou a denunciar as supostas irregularidades da Media Sport Investment (MSI) – empresa presidida pelo iraniano Kia Joorabchian, que agora gerencia o futebol do Corinthians. Ele conta ao repórter André Rizek por que decidiu comprar essa briga.

POR QUE O SENHOR É CONTRA A PARCERIA DA MSI COM O CORINTHIANS?
Por dois motivos. O primeiro é que ninguém sabe de onde vem o dinheiro dessa empresa. O segundo é que entregar o futebol do clube por dez anos em troca de 20 milhões de dólares, na minha opinião, é muito pouco.

O SENHOR ACHA QUE A MSI ESTÁ USANDO O CORINTHIANS PARA LAVAR DINHEIRO?
É o que aponta a investigação do Ministério Público. Quando o Kia nos procurou, disse que uma das exigências para assinar o contrato era que os investidores que estavam por trás dele não fossem identificados. E o clube aceitou isso. Agora, como eu já desconfiava, o Ministério Público aponta que o dinheiro da MSI vem, principalmente, do financista russo Boris Berezovsky – um sujeito acusado, entre outras fraudes, de crimes contra o sistema financeiro e participação em organização criminosa. Ele vive na Inglaterra porque está condenado a vinte anos de prisão em seu país e, se pisar lá, será preso. O Kia sempre negou que a MSI tivesse relação com os russos, mas, hoje, já se sabe que ele atuou como testa-de-ferro do Boris em outros negócios.

COMO VEM FUNCIONANDO A ADMINISTRAÇÃO DO CORINTHIANS PELA MSI?
É um tremendo amadorismo. A MSI é uma ficção, uma empresa de fachada, só tem uma caixa postal. Não tem endereço nem receita própria. Cada vez que ela precisa fechar um negócio, como a compra de um jogador, o Kia tem de acionar os tais investidores secretos. Então, não há dinheiro em caixa para nada. O pagamento das dívidas do clube está atrasado e os salários de alguns jogadores também.

POR QUE QUASE TODOS OS JOGADORES QUE A MSI COMPROU VIERAM DO EXTERIOR?
Para ocultar a identidade dos investidores, óbvio. Com exceção do Marcelo Mattos, todos os jogadores foram comprados da Argentina, de Portugal ou de nações do Leste Europeu. Por quê? Porque, até há pouco tempo, tais países permitiam que se comprasse um atleta sem que a transação passasse por seus organismos de controle financeiro. O dinheiro do time comprador saía de uma conta num paraíso fiscal e ia diretamente para uma conta do clube vendedor, também no exterior. Com o Tevez (o argentino Carlos Tevez, ex-Boca Juniores) foi assim. O nome da MSI nem sequer aparece na transação. Depois disso, o governo argentino proibiu esse procedimento.

SE O CONTRATO COM A MSI É TÃO SUSPEITO, POR QUE O CORINTHIANS O ASSINOU?
Porque para o Corinthians não importa de onde vem o dinheiro – o que é muito grave. Ao permitir que os investidores permaneçam na clandestinidade, estamos deixando as portas abertas para que qualquer um faça negócio conosco – contrabandistas, narcotraficantes até.

POR QUE A MSI ESCOLHEU O BRASIL PARA INVESTIR?
Porque achou que fôssemos uma república de bananas. A grande surpresa, para eles, é que temos instituições sólidas, como o Ministério Público e a Receita Federal.

O SENHOR SE CONSIDERA UM OUTSIDER DO FUTEBOL?
Não sou o típico "boleiro". Outro dia citei Rui Barbosa numa entrevista. O repórter não entendeu e colocou no jornal que dei uma declaração "folclórica". Mas foi graças ao meu trabalho no tribunal que pude entender e denunciar o que estão fazendo com o Corinthians.

 
 
 
 
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