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O maior latifundiário do Brasil

Preso em Manaus, ele tem registro de
propriedade de 1,5% do território nacional

Christian Schwartz, de Manaus

 
Euzinaldo Queiroz
Falb Farias: "dono" de uma área equivalente à soma de Portugal e Suíça, anda de carro usado e mora de aluguel

O terceiro maior proprietário de terras do país, o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, anda de iate e nada em dinheiro. O segundo, uma entidade fantasma chamada Carlos Medeiros, propicia excelentes rendimentos a Flávio Augusto Titan Viegas, do Pará, dono de procurações para negociar as terras registradas em nome do ectoplasma. O maior latifundiário do Brasil é o homem que se vê nesta página, exibindo dois de seus títulos de propriedade. Ele se chama Falb Saraiva de Farias e nasceu há 68 anos no município de Sena Madureira, interior do Acre. Iniciou a vida de proprietário rural há trinta anos e hoje possui registrados em seu nome e no de suas empresas exatamente 12.713.819 hectares – uma área equivalente à soma dos territórios de Portugal e Suíça. Suas propriedades dividem-se em catorze fazendas e seringais, localizados em cinco municípios do Estado do Amazonas. A mais próxima de um grande centro está a um dia de barco de Manaus. Somadas, essas terras equivalem a 1,5% de todo o território brasileiro.

Não há notícia de nenhuma outra pessoa no mundo dona de uma área de tais dimensões. Pode-se afirmar, portanto, que Falb Farias é hoje o maior latifundiário do planeta. Mas não é fácil ter uma idéia de quanto vale tudo isso. De acordo com um documento em poder da comissão parlamentar de inquérito da Câmara dos Deputados que apura os casos de grilagem de terra na Amazônia, Farias chegou a avaliar uma parte de seu patrimônio em 3,5 bilhões de reais. A preço de mercado, seus quase 13 milhões de hectares valem menos, cerca de 300 milhões de reais. Visto de perto, no entanto, Farias não combina com esses valores. Suas mãos calejadas não parecem ter contado grandes somas nos últimos tempos. Suas roupas são puídas e gastas. Seus modos não revelam nenhuma sofisticação. Se fosse encontrado na rua, e não na sala de visitas da carceragem da sede da Polícia Federal em Manaus, Farias seria facilmente apontado como um trabalhador braçal. Jamais como um milionário.


Alberto Cesar Araujo
O delegado Turíbio: "Ele não é um laranja"


Farias foi preso há um mês, depois de prestar depoimento à CPI da grilagem. Deputados e Polícia Federal o acusam de ter montado seu imenso patrimônio na base do crime: grilagem, falsificação de documentos, estelionato e sonegação. Criado em seringais, Farias começou a trabalhar aos 11 anos. Estudou só até a 7ª série, foi balconista e se estabeleceu como comerciante num "regatão", um barco que abastece comunidades distantes na selva. Um dia, nos anos 70, o barco incendiou-se e ele virou corretor de terras. Dois de seus clientes eram o ex-cartorário Adalberto Cordeiro e Silva e o fazendeiro paulista Pedro Dotto. Hoje os três estão juntos na lista dos maiores latifundiários (veja quadro). A fortuna veio quando passou a negociar as terras de uma viúva que herdou 25 000 hectares, segundo a CPI da grilagem. Munido de escrituras da década de 20, que não estabeleciam os limites precisos das áreas, e com a conivência dos cartórios, ele esticava as glebas muito além do que os papéis determinavam.

"Foi aí que ele começou a enricar", recorda a ex-mulher, Elizanira, que se separou de Farias em 1974. Era um enriquecimento na propriedade de terras que pouco se refletia no conforto. Elizanira e o marido passaram a andar de carro, reformaram a pequena casa e compraram outra. Farias é hoje dono, nas escrituras, de 95% da área do município de Canutama. A maior parte dessas propriedades se sobrepõe a áreas da União. Com o tempo, ele se sofisticou, começou a usar empresas para registrar as fazendas e, quando era o caso, também os parentes. A irmã de Farias, Francisca Cristina, chegou a perder casa e telefone porque assinou procurações sem saber do que se tratava. "O pior é que rico mesmo, de sobrar dinheiro, ele nunca foi", conta Francisca. Ninguém encontrou dólares de Farias em contas no exterior. Seu carro atual é um Gol 1.6 ano 98. A casa em que morava até ser preso tem um quarto só e estava sendo alugada por 450 reais. "Ele pechinchou, deixei por 400", diz a proprietária do imóvel. Consta que tem outra casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, emprestada a um cunhado.

É tanta a discrepância entre o patrimônio e o padrão de vida de Farias que o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, suspeita que ele pode ser apenas um testa-de-ferro de traficantes ou laranja de espertalhões. "Por enquanto não encontramos nada que comprove essa tese", pondera o delegado da PF Hanilton Turíbio, responsável pelo caso. Tudo indica, até agora, que Farias aliou uma extraordinária competência para juntar terra à mais absoluta inaptidão para tirar proveito dela. E ele, o que diz? O maior latifundiário do Brasil simula ingenuidade. "Nem sei o que é grilagem", afirma. "Como pode ser da União uma propriedade da qual eu tenho documentos? Para alguma coisa têm de servir os 27 quilos de papel que comprei ao longo da vida." A CPI e a Polícia Federal esperam que sirvam para mantê-lo na cadeia.

 

 

 

   
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