O senhor
das flores
Roberto
Kautsky, naturalista do Espírito
Santo, é um dos maiores descobridores
de orquídeas do mundo
José
Edward
Fotos Tadeu Bianconi
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| Kautsky
e a orquídea Cattleya warneri: ele descobriu quatro variações
dessa espécie |
No
próximo mês, o naturalista brasileiro Roberto
Anselmo Kautsky, de 77 anos, vai aparecer na publicação
americana especializada em bromélias Journal of
the Cryptanthus Society como descobridor de uma nova espécie
desse tipo de vegetal, a Criptanthus argylophillus
(nome em latim para uma planta de folhas muito duras e flores
cor de argila). Se isso já é um feito no mundo
da botânica, imagine-se a importância de descobrir
dezenas de novas espécies. Pois Kautsky, com esse exemplar,
chega à 107ª descoberta. Autodidata, ele se tornou
uma referência mundial quando o assunto são as
belas e exóticas orquídeas e bromélias.
Há mais de meio século o pesquisador incursiona
pelas matas do Espírito Santo em busca de novidades.
"Já enviei mais de 1.000
plantas para serem classificadas por cientistas de várias
partes do mundo", diz. Fora as 107 já registradas,
existem pelo menos outras 150 em processo de classificação,
todas achadas pelo naturalista. Suas descobertas estão
registradas em publicações científicas
editadas no Brasil, Estados Unidos, França, Suíça,
Inglaterra, Holanda e Japão.
Foi ele quem apresentou à ciência a maior begônia
do mundo, cuja haste ultrapassa 2 metros de altura. Foi ele
também quem encontrou a menor bromélia, denominada
Neoregelia lilliputiana. Além das plantas, Kautsky
descobriu sapos, como uma minúscula perereca que vive
dentro de bromélias. Especialistas consideram que seu
achado mais importante foi uma orquídea de três
pétalas centrais tecnicamente chamadas labelos.
Todas as outras têm apenas um labelo. "É um caso
raro de mutação genética", escreveram
os pesquisadores Guido Pabst e Fritz Dungs, autores do livro
Orchidaceae Brasilienses, o mais completo estudo já
feito sobre orquídeas brasileiras. Batizada de Cattleya
schilleriana trilabeloide 'Memória Roberto Kautsky',
essa orquídea foi enviada para a Alemanha, para ser
clonada. "Mas os botânicos alemães cometeram
uma barbeiragem, e ela começou a definhar", recorda
Kautsky. Técnicos do orquidário Vacherot &
Lacoufle, de Paris, tentaram salvar a planta. Em vão.
Botânicos renomados ainda celebram o achado e lamentam
o incidente.
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| Três
achados do naturalista que atende pessoalmente os turistas:
orquídeas e bromélias da serra capixaba |
O
pai do pesquisador capixaba, um imigrante austríaco
que desembarcou no Espírito Santo no século
XIX, deixou-lhe como herança o amor pela natureza.
Naquela época a Mata Atlântica ainda cobria todas
as montanhas do Estado. Ainda menino, Kautsky recolhia espécimes
e os replantava no quintal de casa. Muitos deles estão
até hoje no acervo de 100.000
plantas que o pesquisador mantém numa reserva biológica
na cidade de Domingos Martins. Recentemente, ele passou aos
filhos o comando da fábrica de refrigerantes da família
para dedicar-se exclusivamente à grande paixão.
Atende pessoalmente quem visita seu orquidário. Uma
vez por semana, embrenha-se na mata à procura de raridades.
"Ele tem um olho especial para descobrir novidades", afirma
Elton Leme, o especialista que descreveu a última de
várias outras bromélias descobertas por Kautsky.
"Poderia ter sido um dos mais importantes biólogos
do país", acrescenta Antônio Toscano de Brito,
Ph.D. em botânica e especialista em orquídeas
pela Universidade de Reading, na Inglaterra. Kautsky, porém,
vive feliz com pouca experiência acadêmica e muito
conhecimento prático.
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