Tempero
na canja
A
malfalada comida de hospital ganha
mais sabor com cardápios inspirados
em restaurantes
Bel
Moherdaui
Marcelo Zocchio
 |
| Truta
com carambola de Paulo Rentz: sofisticação
no Oswaldo Cruz |
Meio insossa ela sempre é. Mas vários dos hospitais
situados na categoria alto luxo estão se esforçando
para servir a seus pacientes comidas no mínimo com
cara e nome de iguarias apetitosas. Para tanto, contratam
cozinheiros com experiência em cozinhas de restaurantes
e hotéis, estimulam suas nutricionistas a fazer cursos
de gastronomia e capricham na escolha dos ingredientes e na
apresentação dos pratos. Resultado: nos carrinhos
que circulam pelos corredores durante os intragavelmente prematuros
horários das refeições hospitalares,
podem-se encontrar uma bela truta ao molho de carambola ou
um entrecôte Rossini, com aspargos na manteiga, batatas
noisette e patê de fígado (hospitais Oswaldo
Cruz e Samaritano, em São Paulo). Não gostou?
Tente os delicados rolinhos de frango aux herbes du jardin
ou o salmão com suflê de aspargos (Copa D'Or
e Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro). "O
paciente já está no hospital, desconfortável.
Se propiciamos prazer através da refeição,
ajudamos muito a estada", justifica, com lógica insofismável,
Renata Martins, nutricionista-chefe da Clínica São
Vicente, onde os fogões são pilotados pelo mineiro
Jurandir Otacílio da Silva, cozinheiro profissional
que tem por função montar um cardápio
apetitoso dentro das fronteiras impostas pela equipe de nutrição.
Selmy Yassuda
 |
| Rolinhos
de frango do chef Jorge Moreira, do Copa D'Or: treino
em hotéis |
No requintado Copa D'Or, inaugurado há um ano no Rio,
o chef Jorge Paulo Moreira usa o traquejo na cozinha internacional
que adquiriu trabalhando em hotéis como Meridien, Sheraton
e Caesar Park para pôr água na boca dos pacientes,
que todo dia têm uma opção de cardápio.
Dele podem constar pratos como filé de congro à
belle meunière e filé de frango ao molho de
vinho. No paulista Oswaldo Cruz, o paranaense Paulo Guilherme
Rentz é craque nos produtos do mar: além da
truta, prepara camarão empanado e um elogiado bacalhau
ao forno. No Hospital do Coração, também
em São Paulo, são duas opções
de pratos por dia. Detalhe cardiológico: o ravióli,
a polenta e até o prosaico queijo com goiabada são
cortados em forma de coração. Outro hospital
paulista, o Sírio Libanês, além de ter
no menu um audacioso camarão na moranga, oferece aos
pacientes um forno especialmente para esquentar comida que
prefiram encomendar de restaurantes ou trazer de casa. E,
informação relevante e rarissimamente divulgada:
todos garantem que, dentro do possível, atendem inclusive
a pedidos à la carte.
Como hospital é hospital, cardápios liberais
só são acessíveis a pacientes com mínimas
restrições de dieta. Aos demais, servem-se a
canja e o frango com chuchu habituais. Além disso,
vários itens são riscados ou controlados nas
receitas. Sal, é sempre pouco, e não adianta
reclamar. Temperos fortes, idem. Pimenta irrita a mucosa gastrintestinal
e normalmente não é usada. A carne suína
e a de pato, de digestão mais difícil, não
figuram nos cardápios. Legumes que fermentam, como
brócolis, couve-flor e repolho, só no almoço.
Jabuticaba, jamais a frutinha prende o intestino. Assim,
aperfeiçoando o cardápio, os hospitais não
só amenizam a internação dos pacientes
como também esperam contornar um problema constante:
o contrabando de alimentos proibidos, que a família
traz de casa ou do restaurante a pretexto de alimentar o acompanhante.
"Até pacientes de intervenções delicadas,
como transplante, nós já flagramos comendo pizza",
conta a supervisora clínica Maria Izabel de Vasconcelos,
do Hospital Oswaldo Cruz.
|