|
Economia Ações
acertadas para enfrentar os efeitos da crise
A severidade do noticiário econômico da semana passada soou como um lembrete de que, por mais preparado que esteja para atravessar a crise econômica mundial, o Brasil não está imune à tempestade. O produto interno bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país, registrou queda de 3,6% no último trimestre do ano passado em relação ao trimestre anterior. Foi o pior desempenho desde o quarto trimestre de 1990, quando o Brasil estava mergulhado na recessão provocada pelo Plano Collor. Ninguém esperava que o país continuasse crescendo no ritmo de 6% ao ano, que prevaleceu até setembro. A expectati-va era que os números apontassem uma desaceleração forte, mas não um tombo daquelas proporções. Todos os componentes do PIB recuaram menos o que mede o consumo do governo, que subiu 0,5%. Os dois números mais preocupantes, por refletirem a insegurança generalizada, são o do consumo das famílias, que caiu 2% depois de cinco anos de crescimento, e o do investimento, que despencou 9,8%. O impacto desses números fez com que o corte de 1,5 ponto porcentual nos juros o maior em cinco anos decidido na quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária, o Copom, fosse encarado por boa parte dos analistas como uma medida insuficiente e, principalmente, tomada com atraso.
"A crise está mostrando que as ações de governo podem ser positivas para evitar que a situação se deteriore, mas têm efeito limitado", diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. Exemplo claro dessa limitação está na liberação para os bancos de 100 bilhões de reais em recursos que ficavam retidos como depósitos compulsórios. A decisão foi acertada, mas não resultou em aumento substancial da oferta de crédito, porque o medo da inadimplência tornou os bancos muito mais seletivos e, principalmente, mantém muito alto o spread (diferença entre o custo de captação do dinheiro e os juros cobrados ao tomador do empréstimo), afugentando as empresas. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) confirma as dificuldades. Divulgada na semana passada, a consulta feita a 431 empresas em todos os estados mostra que 55% percebem um aumento do impacto da crise sobre seus negócios neste primeiro trimestre, sendo que 80% adotaram alguma medida em relação a seus empregados, como demissões ou concessão de férias coletivas. Para 39% dos entrevistados, as ações do governo não estão surtindo efeito. Nem surtirão, enquanto não forem acompanhadas de mudanças estruturais. Mesmo uma queda mais acelerada da Selic, apontada como a panaceia para os males da economia brasileira, não resultará automaticamente na retomada da atividade econômica. Para José Júlio Senna, da MCM Consultores, o momento exige o que ele chama de "um choque de liberação das forças produtivas", ou seja, uma ação coordenada para remover entraves mais que conhecidos. A saber, redução da carga tributária, melhoria do ambiente de negócios e aumento do investimento em infraestrutura. Um pacote que exigiria redução substancial dos gastos correntes do governo, para dar espaço ao corte de impostos e recuperar a capaci-dade de investimento público. Infelizmente, isso é algo que não faz parte da tradição brasileira e fica ainda mais difícil com a campanha para as eleições de 2010 a pleno vapor no país.
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|