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18 de fevereiro de 2009
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Ela ainda dá o que falar

Aos 50, Barbie virou padrão de beleza (quem não
conhece uma?) e ainda por cima tem passado trancado
no armário: seu criador não era flor que se cheirasse


Bel Moherdaui

Foto Sipapress e Divulgação
TRÊS VEZES LOIRA Pamela Anderson, a perfeita tradução,
entre a boneca de gala feita para o aniversário e a original, de 1959

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Loira, seios proeminentes, pernas esguias mas bem torneadas, cintura impossivelmente fina. Pensou numa atriz tipo Jennifer Aniston? Ou Scarlett Johansson? Ou sua mais perfeita, pois plastificada, versão humana, Pamela Anderson? Pois é, meio século depois de vir ao mundo, já adulta, absurdamente magra e peituda, a boneca Barbie venceu. Acusada de tudo – de incentivar a anorexia, de impor um padrão estético irreal (bem, é uma boneca, certo?) e de sexualizar as brincadeiras infantis –, ela completa 50 anos em março com tudo em cima: corpinho e rostinho de 20 cuidadosamente esculpidos ao longo dos anos com algumas plásticas no plástico e um tipo físico infinitamente replicado. Em meio às comemorações de aniversário da primeira boneca com corpo de mulher – exposição, desfile de moda, modelos especiais –, um livro destoa pelas revelações nada cor-de-rosa (a cor preferida da boneca, como se sabe). Em Toy Monster: The Big, Bad World of Mattel (Monstro de Brinquedo: o Grande e Feio Mundo da Mattel), com lançamento previsto para o dia 23 nos Estados Unidos, o autor Jerry Oppenheimer bisbilhota passagens pouco conhecidas da história do fabricante da boneca, entre elas o perfil do homem que desenhou as formas da Barbie: Jack Ryan, um engenheiro, segundo ele, de vida amorosa movimentada e imaginação proibida para menores.

"Ryan foi personagem central dessa história. Enquanto os livros e artigos creditam a Ruth Handler, a dona da Mattel, a criação da Barbie, eu dou 99% do crédito a ele, que era um indivíduo dos mais excêntricos", disse Oppenheimer a VEJA. "Ryan era o típico mulherengo dos anos 70", descreve. Fanático por sexo, foi casado cinco vezes, sempre com mulheres com alguma semelhança com a boneca, entre elas a atriz Zsa Zsa Gabor. Em sua mansão em Bel Air, em Los Angeles, promovia festas de embalo. Bebia, viciou-se em cocaína e procurava incansavelmente seu ideal feminino. "Era obcecado por pernas longas, cintura fina e seios fartos e exigia tudo isso nas mulheres com quem se relacionava. Uma de suas namoradas submeteu-se a plásticas que, além de aumentar os seios, reconstruíram seu rosto", conta o autor, que entrevistou várias amantes de Ryan. Disléxico, bipolar e brilhante, o engenheiro formado pela Universidade Yale trabalhou projetando mísseis antes de ser contratado pela Mattel – entenderam a relação com aqueles seios aerodinâmicos? Saiu de lá brigado com a família Handler e entrou com um processo por direitos autorais. Deprimido, suicidou-se em 1991, aos 65 anos.

Não vieram só de Ryan os genes responsáveis pelo lado sensual da boneca. Barbie – apelido de Barbara, nome da filha de Ruth e também da primeira mulher de Ryan – foi inspirada em uma boneca alemã chamada Lilli, originalmente personagem de um quadrinho do jornal Bild-Zeitung. Ambiciosa, insinuante e, bem, liberada, Lilli não escondia seu interesse por senhores ricos. Em 1955, virou boneca para homens, vendida em bares e tabacarias em dois tamanhos, 19 e 30 centímetros, de batom e esmalte vermelhos e cabelo preso em rabo-de-cavalo. Foi uma delas que Ruth Handler viu em uma loja na Suíça, comprou e levou para ser imitada na fábrica de brinquedos da família na Califórnia – a semelhança da alemãzinha com a primeira Barbie, de maiô listado, é patente. Ryan foi encarregado do projeto e, pelo jeito, nunca mais se desligou de sua operística e plástica paixão. Barbie nasceu em 1959; conviveu com Lilli até 1964, quando a Mattel comprou os direitos da boneca alemã e encerrou sua produção.

Outras indiscrições levantadas por Oppenheimer envolvem a própria Ruth Handler, que estava à frente da Mattel quando a empresa foi acusada de irregularidades em seu balanço e que acabou condenada (fiança e serviços comunitários) por crime do colarinho-branco, e o filho dela, Ken (sim, o boneco que durante anos, muito castamente, namorou Barbie), casado e pai de três filhos, que era homossexual não assumido e morreu de aids em 1994. Nada disso tira o brilho da boneca criticada por feministas, mães, sociólogos, antropólogos e até especialistas em distúrbios alimentares, mas amada por sucessivas gerações de meninas – continua sendo a mais vendida no mundo. Anualmente, divididas em coleções de primavera e de outono, cerca de 200 novas versões da boneca são lançadas em quantidades que podem chegar a 300 000 unidades, incluindo dois modelos para colecionadores com roupas assinadas por estilistas de renome (destas, são feitas entre 1 000 e 20 000 unidades). Há mais de uma década, chegam às lojas simultaneamente bonecas de preço mais baixo (perto de 30 reais) e modelos mais elaborados (cerca de 150 reais).

Neste meio século, Barbie sofreu cinco grandes plásticas no rosto, além de ligeiras alterações no corpo. Se na década de 80 ficou mais atlética, em 2000 ganhou alguns milímetros de quadril e perdeu outros de busto – uma pequena mas significativa concessão aos que acusam a coitadinha de disseminar um padrão irreal de beleza. Essa repaginação constante é feita por uma equipe de quase 100 pessoas selecionadas entre novos talentos no ramo da moda, dos cabelos e da maquiagem. "Há cinquenta anos Barbie celebra a moda, a cultura e as aspirações femininas. Queremos que daqui a uns vinte, trinta anos as mulheres olhem para as bonecas de hoje e pensem: ‘Essa boneca é tão 2009. Não acredito que eu usava esse corte de cabelo, esse vestido, essa maquiagem!’", descreve, entusiasmado, Richard Dickson, vice-presidente mundial da marca. Se assim for, Barbie continuará celebrando o que é, neste momento, sua vingança maior: falaram, desancaram, tripudiaram – mesmo assim, tantas querem, e muitas conseguem, ser Barbie. E até uns certos rapazes adeptos de musculaturas vistosas. Pelo menos no Brasil, onde são chamados de Barbies os gays fortes e bonitões, numa inesperada mas justa homenagem àquela que se tornou o protótipo universal da beleza fabricada.



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