Brasil
A ÉTICA DO ARMÁRIO
O corregedor perde
o posto, mantém o mandato e mostra que,
no Congresso, algumas coisas só devem ser feitas às
escondidas

Diego Escosteguy
Fotos
Andre Dusek/AE
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| DESLIZE O
deputado Edmar Moreira só se deu mal porque quis
assumir um posto de destaque |
Na Câmara,
todo mundo conhece o deputado Edmar Moreira, do Democratas
de Minas Gerais. Em Brasília desde 1991, ele cumpre
seu quarto mandato. Há dez anos sabe-se que o deputado
é dono de um castelo avaliado em 25 milhões
de reais e, em 2006, descobriu-se que ele tocou o apito do
trem da absolvição dos mensaleiros no Conselho
de Ética. Até o dia 2 deste mês, seus
colegas aprovavam a tal ponto esse currículo que o
elegeram corregedor da Câmara. Logo após assumir
o posto, ele demonstrou por que era admirado: "Acusações
contra deputados devem ser tratadas na Justiça, que
é o foro competente para isso". Moreira, frise-se,
limitou-se a expressar em público o que a maioria dos
deputados pensa em privado. A sinceridade e a impudência
das suas palavras chocaram até mesmo quem está
acostumado a esperar pouco da Câmara. Houve manifestações
de indignação que acabaram forçando uma
encenação controlada: os democratas ameaçaram
pedir o mandato de Edmar e o presidente da Câmara, Michel
Temer, prometeu fortalecer a corregedoria. Subitamente, ninguém
sabia mais quem era o deputado Edmar Moreira. Na semana passada,
diante da pressão da opinião pública,
ele renunciou ao cargo de corregedor e pediu a desfiliação
do Democratas e vai seguir a vida como nobre deputado,
com seu castelo e seus processos.
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NOVO CORREGEDOR
O deputado ACM Neto
promete ser rigoroso com desvios.
Será mesmo? |
O caso reforça
mais uma vez que o Parlamento é capaz de tolerar todo
tipo de ilegalidade e abuso, desde que feitos discretamente,
na moita afinal, se o público souber, o castelo
poderá cair. E, obedecendo à lei da camaradagem,
se cair, cairá somente pela metade: o infrator perderá
a sinecura, mas manterá o mandato. Correm esse risco
os parlamentares que, a exemplo de Edmar Moreira, topam assumir
cargos na direção do Congresso e, assim, permanecer
sob o escrutínio da imprensa. Foi assim com senadores
como Renan Calheiros e Jader Barbalho, ambos do PMDB, inconvenientes
para presidir o Senado, mas nem tanto para continuar representando
os eleitores. O que explica a força desse corporativismo
sem limites, que consegue superar o clamor da opinião
pública e manter os parlamentares constantemente alheios
aos valores éticos mais elementares, como a integridade
e a probidade? "Moreira foi eleito pelo favor, por ter
ajudado na absolvição dos mensaleiros, e teve
o mandato também salvo pela prática do favor.
O favor é o único meio de mediação
de poder na classe política", diz a filósofa
Maria Sylvia de Carvalho Franco, da Unicamp. Alguns parlamentares
debocham da plateia porque sabem que se manterão no
poder, porque sabem que a plateia deixa.