Com agenda de candidata,
a ministra Dilma Rousseff deflagra
a corrida presidencial com mais de um ano de antecedência
e alimenta o debate sobre o uso da máquina pública
Expedito Filho
SANTINHOSO
encontro de prefeitos teve até quiosque para quem
quisesse levar
de recordação uma fotomontagem ao lado de
Lula e da ministra Dilma
Como hipótese,
a candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff é
debatida nos meios políticos há mais de um ano.
Como realidade, ela se apresentou definitivamente às
ruas na semana passada, primeiro durante o Encontro Nacional
com Novos Prefeitos, na terça-feira, em Brasília
um evento administrativo que foi organizado à
moda de um comício eleitoral , depois na festa
de aniversário dos 29 anos do PT. Saudada como candidata,
aos gritos de "olê, olê, olá, Dilma,
Dilma",mantra antes dedicado apenas a Lula, a
ministra tirou fotos, abraçou os petistas e disse que
vai montar uma agenda para se aproximar mais da população
e dos partidos aliados do governo. No dia seguinte, Dilma
jantou no Palácio da Alvorada com Lula e quatro pesos-pesados
da economia. Discutiu a crise econômica e falou sobre
a sucessão presidencial. Não pediu apoio explícito,
mas começou a construir as pontes com potenciais financiadores
de campanha. Na quinta-feira, Dilma foi com Lula visitar as
obras de uma ferrovia em Pernambuco. No estado onde o presidente
é quase unanimidade, Dilma ensaiou o que mais fará
nos próximos dois anos: o contato direto com o eleitorado.
Não existe outra definição para isso
a não ser campanha.
"Dilma pegou
gosto pela coisa. No início, aceitou a candidatura
como uma missão da qual não podia fugir. Agora,
está à vontade, empolgada. Botou na cabeça
que quer ser a primeira mulher a chegar à Presidência",
avalia um ministro com gabinete no Palácio do Planalto.
Em outras palavras, a campanha foi deflagrada quase dois anos
antes das eleições e quinze meses antes do que
permite a lei. Dilma tem sido cada vez menos ministra e cada
vez mais candidata. As reuniões com assessores vão
dando lugar aos encontros com futuros membros de sua equipe
de campanha. O principal deles será Fernando Pimentel,
ex-prefeito de Belo Horizonte, que terá uma equipe
de petistas para assessorá-lo, a maioria deles prefeitos
que deixaram o cargo no começo do ano. Haverá
pelo menos um responsável por região do país
encarregado da coordenação e da arrecadação
de verbas. Os nomes já foram escolhidos. Além
da montagem da equipe política, Dilma tem se dedicado
à própria preparação da campanha.
Recentemente, contratou uma empresa de comunicação
que vai treiná-la para contatos com a imprensa. A ministra
também já tem em sua assessoria dois escritórios
de advocacia de Brasília especializados em direito
eleitoral para se precaver de possíveis acusações
de abuso da máquina nas viagens de inaugurações
do PAC, como a que foi protocolada pelo DEM no TCU na semana
passada. O DEM e o PSDB também pretendem acionar a
Justiça Eleitoral.
O problema do governo
em antecipar uma disputa eleitoral em tanto tempo é
que, a partir de agora, tudo será observado com uma
lente de campanha. Lula quer usar sua enorme popularidade
para promover Dilma Rousseff. Ao fazer isso, contamina debates
que perdem força em meio a disputas eleitorais. No
encontro com os prefeitos, por exemplo, o presidente anunciou
a decisão de renegociar as dívidas das prefeituras
com o INSS uma espécie de Refis da Previdência.
A medida, festejada pelos prefeitos na presença de
Dilma Rousseff, foi interpretada como um agrado que o governo
fez de olho em 2010. A mudança permite às prefeituras
uma folga maior no caixa neste momento em que a crise mundial
começa a afetar até mesmo a rotina pacata de
pequenos municípios brasileiros. "Teoricamente,
a medida é boa, mas o governo deveria carimbar esses
recursos para investimentos em obras de infraestrutura. Sem
isso, os prefeitos podem dar ao dinheiro destinações
que apenas aumentem as despesas", diz o economista Raul
Velloso, especialista em contas públicas. O presidente
Lula ficou irritado com a conotação política
que se deu ao chamado "pacote de bondades" para
as prefeituras. Não deveria. É um efeito colateral
perfeitamente justificável diante da campanha eleitoral
que foi colocada na rua pelo próprio governo.