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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Viva
Teresa
Contra
Bush, ergue-se
um movimento
libertador armado de charme, riqueza,
idéias fortes, til e cedilha
"Pronuncia-se
Tuh-ray-za." Assim a revista Time ensinou a seus leitores
como dizer o nome da mulher do senador John Kerry, o provável
adversário de George W. Bush nas eleições presidenciais
americanas deste ano. Sigamos as instruções da revista.
O "tuh" da primeira sílaba, na boca de um americano, soa
mais ou menos como "tã". O "ray" da segunda equivale a "rrrrei",
pronunciado com aquele "r" inglês que rola na língua
antes de dar lugar à vogal que o acompanha. "Za" é
"za" mesmo. Temos então que o nome da referida senhora deve
ser pronunciado Tãrrrreiza. Vá lá: aceite-se,
tendo em vista as limitações da língua e do
palato de um americano. Mas nós outros sabemos que não
é bem assim. O nome dela é Teresa. E Teresa é
Teresa, três singelas sílabas que devem ser entoadas
sem medo, sem "ãs" ou "eis" a entravar-lhes o fluxo, leves,
alegres e soltas como bandeiras ao vento.
A
Teresa em questão é uma grande figura. Talvez mais
ainda que o marido, é a grande personagem da atual temporada
eleitoral uma personagem cuja história, entre outros
lances marcantes, tem Moçambique e molho de ketchup em seu
caminho. Teresa nasceu Maria Teresa Thierstein Simões Ferreira,
em Lourenço Marques, cidade que seria rebatizada Maputo quando
o país de que é capital, Moçambique, se tornou
independente. Observe-se de passagem, para atentar agora em aspectos
de grafia, que na imprensa americana Simões é Simoes
e Lourenço é Lourenco, além de Moçambique
ser Mozambique. Cedilha e til não fazem parte do repertório
local, o que impede a apreciação de Teresa em toda
a sua justa e complexa dimensão. Só quem tem til no
nome e nasceu num lugar com cedilha sabe o que isso significa.
Teresa
nasceu numa rica família portuguesa, e cresceu em meio aos
impulsos contraditórios de uma confortável vida entre
os colonos brancos, de um lado, e a penúria da população
circundante, de outro. Estudou na África do Sul e na Suíça.
Na Escola de Intérpretes de Genebra, foi colega de Kofi Annan,
hoje secretário-geral das Nações Unidas. Mas
esse não foi seu encontro mais importante. Maior foi o encontro
com o ketchup, ou melhor, com John Heinz, dono do ketchup, dos picles
e da maionese que levam seu nome. Teresa, que fala cinco línguas
e queria ser intérprete da ONU, acabou no mundo das conservas,
que no caso da marca Heinz também não deixam de ser
multinacionais, e apresentadas em variados idiomas: casou-se com
seu proprietário. Ei-la milionária. E, logo, ei-la
também mulher de senador. John Heinz, eleito pelo Estado
da Pensilvânia, exerceu o mandato até morrer num desastre
de avião, em 1991.
Atenção
para o lance seguinte. Não bastassem o nome Teresa, Moçambique,
a cedilha e o til, agora é o Rio de Janeiro que entra nesta
história. Na Eco 92, a conferência ecológica
realizada na capital fluminense em 1992, Teresa se aproxima do segundo
senador, e segundo John, da sua vida. Senador John Kerry. Militante
ecológica, ela veio à conferência como representante
de ONGs americanas. Kerry veio como político interessado
em questões ambientais. Três anos depois, casaram-se.
Não
se imagine Teresa no papel de mulherzinha de político, como
Laura Bush se esforça para alardear que não é,
mas é. Segundo alguns próximos, ela foge de tal modelo
ainda mais do que Hillary Clinton. Sua independência calça-se,
em primeiro lugar, numa fortuna de 500 milhões de dólares,
herança do primeiro marido, em segundo em sua ativa gestão
à frente de uma das maiores organizações filantrópicas
dos Estados Unidos, os fundos Heinz destinados a causas sociais,
calculados em 2 bilhões de dólares, e em terceiro
lugar em sua personalidade forte. Teresa tem opiniões. É
católica e a favor do aborto. Defende com paixão causas
ecológicas, educacionais e assistenciais. E, aos 65 anos,
além de bonita e divertida, conserva-se atenta aos truques
femininos. Aplica Botox, conforme admite sem vacilar. E numa entrevista,
quando lhe perguntaram o que faria se o marido a traísse,
respondeu que não o mataria. Não. "Eu o mutilaria."
Já se vê que John Kerry pensará duas vezes,
caso uma Monica Lewinsky venha a cruzar-lhe o caminho. Sobre o governo
Bush, ela o qualifica como "o mais cínico, o mais venal e
o mais maquiavélico" que lhe foi dado conhecer, em seus 32
anos de Washington.
Teresa,
ou melhor, John Kerry, é mais do que um candidato. É
o chefe de um movimento de libertação. O agente da
luz em quem estão depositadas as esperanças de destronar
o cavaleiro das trevas que se entocou na Casa Branca. Tanto melhor
que, a seu lado, tenha Teresa. Para nós, em caso de vitória,
isso significará uma primeira-dama que fala português.
É a língua do "ão" forçando a porta
da Casa Branca. O til e a cedilha pedindo passagem. De quebra, é
o Rio de Janeiro a figurar, na memória do casal presidencial,
como berço de sua história de amor. Alguma coisa isso
deve valer. Sem falar que os povos de língua portuguesa seremos
os detentores da verdade sagrada, indivisível e indiscutível
de que Teresa é Teresa, não Tuhrayza.
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