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Entrevista:
Antonio
Palocci
"Não
vamos transigir"
O ministro da Fazenda diz que o presidente
do Banco Central e o secretário do Tesouro
ficam, e que a política econômica não muda

Eduardo
Oinegue
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Antonio Milena

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"Se
deputados ou senadores dos partidos da base começam
a criticar o governo, isso é concorrência
desleal"
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Apesar
de trabalhar mais de doze horas por dia, o ministro Antonio Palocci
tem conseguido dedicar algum tempo a si próprio e à
família. "Se não fizermos isso, a energia acaba",
afirma. Um de seus programas favoritos é ir ao cinema ou
a um restaurante, ocasiões em que acaba testando os efeitos
da política econômica sobre a opinião pública.
"Em geral, os que se aproximam elogiam o trabalho ou dão
uma palavra de estímulo", diz. A leitura tem sido outro passatempo.
Nos últimos dois meses, leu três livros: Seis Propostas
para o Próximo Milênio: Lições Americanas,
do italiano Italo Calvino, O Céu que Nos Protege,
do americano Paul Bowles, ícone da geração
dos beatniks, e Um Médico Rural: Pequenas Narrativas,
que reúne contos do checo Franz Kafka. Na semana passada,
depois de uma reunião com técnicos do Fundo Monetário
Internacional, Palocci recebeu VEJA para uma entrevista em que,
além desses aspectos da vida pessoal, falou sobre pressões
políticas, críticas de aliados, o papel de Henrique
Meirelles no Banco Central e o caminho rumo ao crescimento.
Veja
O tempo anda encoberto em Brasília, não?
Palocci Fevereiro sempre foi um mês de muitas chuvas
e trovoadas.
Veja
Mas a chuva tem caído com mais força sobre
os integrantes da equipe da Fazenda.
Palocci Na Fazenda, a chuva é sempre bem-vinda.
Aumenta a produtividade. Já as trovoadas não trazem
benefício, mas fazem parte do cenário. Recebo as críticas
como parte inevitável, desejável até, do processo
político. Ainda que tivesse a opção de evitar
as manifestações de desagrado, eu não faria
isso. Tenho dito aos governantes com quem converso que, se não
houver oposição a um determinado governo, é
preciso observar se há governo. As críticas muitas
vezes oferecem a oportunidade de rever posições antes
que eventuais erros se concretizem. Portanto, como regra geral,
a crítica é positiva, não me incomoda. Isso
não significa que os críticos estejam sempre certos.
Muitas das reservas feitas ao governo partem dos que defendiam que
o Brasil mantivesse 1 real igual a 1 dólar. Eles estavam
errados. Outros falavam, no ano passado, que se o real se valorizasse
seria o caos para as contas externas. O real se valorizou e tivemos
o melhor saldo positivo em muito tempo. Portanto, estavam errados
também. Outros críticos trouxeram contribuições
importantes e preocupações válidas. Nesses
casos, sempre procuramos incorporá-las.
Veja
Como o senhor avalia as críticas feitas à
condução dos negócios da Fazenda?
Palocci As críticas se fundamentam em fatos verdadeiros
para tirar conclusões muitas vezes equivocadas. Veja só:
comentam que a Fazenda controla o Orçamento, comentam que
o Banco Central não baixou os juros em janeiro, comentam
que a equipe econômica administra o dinheiro público
de olho no caixa, falam que priorizamos o equilíbrio fiscal,
orientado para uma luta sem trincheira pelo superávit. São
fatos inquestionáveis. Mas e que conclusão os críticos
tiram disso? Que o governo do presidente Lula comete os mesmos erros
do governo Fernando Henrique, que se curva aos banqueiros, que não
tem preocupação social. Ora, o Brasil está
desajustado há quase meio século, e cabe ao governo
Lula a tarefa de reconstruir a nação sobre bases sólidas.
Imagine você comprando uma casa velha, repleta de problemas,
como infiltração, telhado quebrado, vazamento, fios
estragados e outros defeitos estruturais. Para recuperar o imóvel,
você quebra paredes, arranca o telhado, tira o piso. Aí,
um sujeito vai visitar a obra nessa fase e sai dizendo que você
está destruindo tudo. Não faz sentido. Esse será
o primeiro ano de uma nova etapa histórica de crescimento
sustentado para o Brasil.
Veja
Muitos economistas defendem que o Banco Central errou
a mão na decisão de janeiro, que deveria ter baixado
os juros.
Palocci O tempo vai mostrar que a gestão
dos juros é e deve ser técnica, não fruto de
um exercício de sadismo. Os dados disponíveis recomendavam
cuidado. Se cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém,
para bancos centrais a dieta é obrigatória. Não
há ganhos de médio e longo prazo para um país
que despreze os fundamentos econômicos.
Veja
O que há de verdade nos boatos dos últimos
dias envolvendo a saída do presidente do Banco Central?
Palocci Nada. Nem o Henrique Meirelles pensou em
deixar o governo nem o presidente Lula considerou a possibilidade
de trocá-lo. Os dirigentes do Banco Central do Brasil já
perceberam que ainda devemos avançar muito para poder trabalhar
num ambiente disciplinado como o que se vê nos Estados Unidos
ou na Europa. Quando o Alan Greenspan fala ou anuncia uma decisão,
o mercado não perde tempo verificando se a medida foi acertada
ou não. Apenas se posiciona diante da nova realidade. Aqui,
é diferente. E só o tempo vai mudar isso.
Veja
Quando o senhor fala em críticos parece referir-se
a oposicionistas. Mas, até onde se sabe, os mais ácidos
são justamente os integrantes da base governista, e até
integrantes do primeiro escalão.
Palocci As pessoas amadurecem, melhoram com o tempo.
Veja o meu caso. A experiência me permitiu rever conceitos
e adotar posições novas. Espero que tenha mudado para
melhor. Mas não há no governo oposição
à política econômica. O que há é
debate sobre eventuais medidas, o que é salutar e democrático.
Veja
Mas, ministro, uma das chamadas "eventuais medidas" que
vêm sendo criticadas é justamente a independência
do Banco Central, alvo de comentários do ministro José
Dirceu, da Casa Civil.
Palocci Essa questão da independência do
Banco Central está resolvida no governo Lula e não
nos pressiona. Quando convidou o Henrique Meirelles para presidir
o BC, Lula deu-lhe liberdade para montar a equipe e administrar
a política monetária segundo as metas de inflação
definidas pelo governo. Ou seja, já há autonomia operacional
na prática. O ponto é que, quando essa autonomia se
oficializa na forma de independência prevista em lei, aumenta
a transparência, e também aumenta o controle da sociedade
sobre as decisões do banco. Seus dirigentes se obrigam diante
da opinião pública, por meio do Congresso Nacional,
a buscar uma meta e a responder pelos erros e acertos perante a
opinião pública. Trata-se de uma conquista institucional
de longo prazo, não do governo, mas do país. Eu já
combinei com o presidente. A Fazenda vai fazer um debate sobre isso,
e, quando o presidente entender que é chegada a hora, o tema
será levado a votação, sem açodamento.
Foi nesse sentido que o ministro José Dirceu fez seu comentário.
Veja
O senhor diz alguma coisa para tranqüilizar os auxiliares
cuja cabeça vem sendo requerida no Congresso?
Palocci Eu aproveito a oportunidade para melhorar
a auto-estima deles e também provocá-los um pouquinho,
já que não sou de ferro. Pegue o caso do Joaquim Levy,
nosso secretário do Tesouro Nacional, um sujeito extraordinário,
de ótima formação e que se tornou alvo de críticas
do momento. Eu o chamei ao gabinete e comentei: "Tá forte,
hein, Levy? Agora que você não cai mesmo". Precisamos
entender essas ressalvas feitas por políticos e alguns colegas
de governo ao homem que controla o cofre. Quando era prefeito de
Ribeirão Preto, nomeei o secretário da Fazenda, a
quem cabia esse papel de controlar as finanças, e disse o
seguinte a ele: "Se em seis meses o secretariado inteiro e os vereadores
não estiverem te criticando, eu te demito". A tarefa de guardar
o Tesouro não torna seus responsáveis os mais amados
da Esplanada.
Veja
Passados bem mais de seis meses de governo, o senhor se
sente como gostaria que seu secretário de Ribeirão
Preto se sentisse?
Palocci Eu? Eu não. Aqui quem cuida do cofre é
o Tesouro Nacional. Isso é coisa do Levy.
Veja
Na semana passada, o líder do PT na Câmara,
Arlindo Chinaglia, criticava abertamente a decisão do governo
de cortar o Orçamento. Como o governo vai lidar com atitudes
dessa natureza?
Palocci Tenho grande apreço pelo Chinaglia. Eu
costumo brincar que, se deputados ou senadores dos partidos da base
começam a criticar o governo, isso é concorrência
desleal. Precisam deixar um espaço para a oposição.
Mas a forma correta de lidar com as críticas é conversando
muito, sempre de forma paciente. Nós vencemos a eleição
para fazer exatamente o que estamos fazendo. E o presidente Lula
determinou que continuemos nesse caminho. Não vamos transigir.
O Brasil precisa mudar a agenda. Isso não é tarefa
do governo, apenas, mas de todos os homens de bem deste país.
Governo e oposição ganham com crescimento.
Veja
Que garantias o senhor pode dar ao país de que
não há um plano B em curso, pautado na heterodoxia?
Palocci O presidente apostou sua biografia nesta gestão.
Homem responsável e inteligente que é, não
mergulharia numa aventura, ainda que fosse aconselhado em tal direção.
Há duas coisas de que o presidente Lula não abrirá
mão: equilíbrio na área econômica e prioridade
para o social.
Veja
O senhor tomou conhecimento de conversas nesse sentido?
Palocci Não há em gestação
nenhum experimento, nenhuma tentativa, nenhum projeto de estruturar
um plano B ou C. Já escutei muita gente defendendo uma saída
heterodoxa, até o presidente já escutou idéias
nesse sentido. É preciso entender que as polêmicas
sobre mágicas econômicas vão durar até
que o Brasil consiga construir uma tradição de disciplina
fiscal e monetária. Tradição de verdade, coisa
para uma ou duas gerações, não dois ou três
anos de equilíbrio. Precisamos fazer as coisas corretamente,
sem planos mirabolantes, sem ansiedade. O que ajuda é que
o Brasil já fez todos os planos, de A a Z, que se discutem.
Já fizemos tabela, tablita, moratória e até
uma exótica banda diagonal endógena, que nem os economistas
sabiam se era de comer ou de beber. E todos sabem o resultado do
experimentalismo na área econômica.
Veja
O Estado brasileiro toma quase 40% do produto interno
bruto na forma de impostos e suga 77% do crédito bancário
disponível. Onde a sociedade arrumará dinheiro para
empreender e promover o desenvolvimento?
Palocci A carga tributária no Brasil é
desproporcional à renda per capita, e seu tamanho foi no
passado recente uma trava ao crescimento. É desejável
interromper esse processo e, ao longo dos anos, revertê-lo.
Precisamos mexer na qualidade dos impostos, na qualidade dos gastos
públicos. Temos discutido, por exemplo, a adoção
do superávit contracíclico.
Veja
E isso é de comer ou de beber?
Palocci O.k., um a zero. Mas é o seguinte: historicamente,
o governo exige mais da sociedade quando entra em crise. Aumenta
a carga, corta as despesas. Aí aumenta a crise. Quando o
Brasil está bem, o governo se sente à vontade para
gastar mais. Poderíamos trabalhar segundo uma lógica
diferente. Se o país vai muito bem, talvez fosse o caso de
produzir um superávit maior, economizando dinheiro para enfrentar
a crise em situação mais confortável.
Veja
Na semana passada, divulgou-se uma lista dos países
que mais gastam dinheiro com juros, e o Brasil, com desembolso anual
de quase 150 bilhões de reais, aparece em quarto lugar. Perde
apenas de Jamaica, Turquia e Líbano. Como haverá crescimento
nessas condições?
Palocci Não há dúvida de que se
pode promover crescimento realizando um ajuste de longo prazo. E
mais: sem um ordenamento fiscal não há possibilidade
de crescimento no Brasil. Com inflação alta não
existe exemplo no mundo de país que tenha crescido. A estratégia
que adotamos é dura, mas os exemplos do Brasil e do mundo
mostram que é o único caminho possível. Nossa
vida é igual à do trabalhador. Nós gastamos
o que podemos, não mais do que isso. E, se temos dívida,
pagamos para ter um bom nome na praça permanentemente.
Veja
O presidente Lula classificou o Brasil de "bem azeitada
máquina de desigualdade social". Que outra fórmula
além do crescimento econômico poderá reverter
essa máquina?
Palocci O país precisa crescer distribuindo. Se
você contar apenas com crescimento econômico, sem ação
ativa do Estado, é necessário um tempo muito grande
até que se registre uma efetiva mudança na distribuição
de renda. Há até uma conta técnica provando
isso. Se o Estado criar políticas capazes de fazer mudar
de mãos 10% da riqueza, conseguirá efeito econômico
equivalente a crescer 3% do PIB durante 25 anos. A questão
social não é apenas uma questão ética.
É também uma questão econômica.
Veja
Os governistas se irritam quando se compara a política
econômica de Lula à praticada na gestão de Fernando
Henrique. Qual é essencialmente a diferença entre
o que o senhor faz e o que Pedro Malan fazia?
Palocci Assumimos na campanha eleitoral o compromisso
de manter o câmbio livre, o superávit primário
e a política de metas de inflação. Esses três
instrumentos que nós mantivemos da última fase do
governo anterior não foram instrumentos utilizados em toda
a gestão de Fernando Henrique. O primeiro governo teve juros
altíssimos, déficit primário e câmbio
fixo. O segundo governo FHC adotou instrumentos mais modernos. Nós
estamos usando os mesmos instrumentos. Acontece que não são
instrumentos do governo Fernando Henrique. Apenas alguns poucos
países não usam as metas de inflação,
e estão aderindo agora. Não se pode inventar nessa
área. Mas estamos inovando. A preocupação em
fazer ajuste tributário sem aumento da carga tributária
é importante. Nos últimos dez anos, o país
conheceu cinco pacotes fiscais, que aumentaram em média a
carga tributária em 1% do PIB ao ano. O governo passado,
e o mundo todo em certa medida, confiou que o simples equilíbrio
macroeconômico traria o crescimento. Nós não
achamos que isso basta. Por isso estamos adotando uma sucessão
de medidas microeconômicas, como aumento do crédito,
que vão impulsionar o crescimento. Trata-se de uma mudança
forte em relação à política anterior.
Neste ano estamos fortalecendo uma pauta de desenvolvimento, como
política industrial, apoio à micro e pequena empresa.
Veja
Uma última pergunta: é verdade que, pelo
fato de a Fazenda ter contingenciado o Orçamento, o presidente
o apelidou de "Antonio Corta-Verbas"?
Palocci Não sabia disso. Ele já me chamou
de mão-de-vaca, lá em Ribeirão Preto. Esse
novo apelido eu desconheço. Estou ouvindo agora pela primeira
vez.
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