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Em
foco: Gustavo Franco
Chamada para despertar
"A
fumaça das últimas semanas
fez muitos
enxergarem um ângulo já quase esquecido
deste governo: a fragilidade de seu
compromisso com a ortodoxia econômica."
O estrondo
que amedrontou os mercados financeiros nas últimas semanas
começou como nos acidentes na aviação, com
um conjunto de perversas e pequenas coincidências. Raramente
é um míssil inimigo, ou uma séria deficiência
estrutural, a causa do desastre, mas uma sucessão de infelicidades
e desleixos que, no caso em tela, atingiu níveis críticos
de perigo quando sinais de fumaça indicaram que o presidente
do Banco Central poderia ser substituído e com ele a orientação
ortodoxa da política econômica.
Foi
esse o momento em que, com impressionante rapidez, no mercado tocou
o despertador: no mundo globalizado, diferentemente do acaciano,
as conseqüências vêm antes, ou seja, o mercado
começou a oferecer aos condutores da aeronave um vislumbre
do que seria mexer no que parece ser a única área
do governo onde há consistência e resultados positivos
a exibir. Goste-se ou não, é a área econômica
que tem mantido o avião no ar, o resto do governo está,
digamos, no aquecimento.
A
fumaça fez muitos enxergarem um ângulo já quase
esquecido deste governo, a saber, a fragilidade de seu compromisso
com a ortodoxia econômica. Com efeito, há os que não
cessam de dizer que é apenas tática, e que o verdadeiro
PT vai emergir a qualquer momento, como Dom Sebastião para
expulsar os mouros. É claro que é dessa região
que vem o boato, e, aos olhos do mercado, o episódio mereceria
o despacho de mais uma leva de radicais, esquisitos e esotéricos
de volta para as universidades, em vez de apenas "prestigiar" a
área econômica com agrados sem importância. Cabeças
deveriam ter rolado.
Fica
a sensação de que estamos a repetir um enredo antigo,
segundo o qual a liderança política apenas convoca
a ortodoxia, e lhe dá poderes, em situações
críticas e tão-somente para livrar-se da fase aguda
de alguma doença como observado diversas vezes nos
tempos da hiperinflação e com vistas a eleições
que se aproximam. Passados esses momentos de exceção
e recuperado o crédito do país mediante doses regulares
de políticas ortodoxas, os salvadores da lavoura começam
a ser apresentados como obstáculos ao desenvolvimento, ou
como seres patologicamente conservadores. A liderança resolve
que a guerra está ganha, e discretamente tolera ou mesmo
conduz a fritura de onde emana o boato e, ao fim das contas, patrocina
a substituição (ou cooptação) pela bandalheira
heterodoxa. E mais, os ortodoxos saem com todas as culpas de as
coisas darem errado, seja pela lealdade a seus chefes, pela ingenuidade
(afinal, não são, em geral, profissionais da política)
ou pela conhecida habilidade dos condestáveis heterodoxos
de permanecerem acima do Bem e do Mal, a despeito de seus desfeitos.
Todavia,
no mundo globalizado em que o Brasil agora se insere, e com os mercados
financeiros funcionando como filtros implacáveis aferindo
a consistência das políticas econômicas, esse
jogo de aparências se tornou inviável. Não é
mais possível namorar ortodoxos para se casar com heterodoxos,
o velho "ciclo político" está obsoleto, uma vez que
o mercado o compreendeu. Com efeito, mudou a política: não
se ganham mais eleições com políticas populistas,
tampouco a ortodoxia é necessariamente impopular. Antes pelo
contrário: tenha-se claro que, na democracia de massas que
o Brasil se tornou, todas as eleições presidenciais
diretas foram ganhas pela ortodoxia econômica, inclusive e
significativamente a última. Lula não teria ganho
se não tivesse abraçado a fé que hoje se pratica
no Banco Central e no Ministério da Fazenda e, provavelmente,
José Serra teria sido um adversário mais difícil
se tivesse idéias econômicas mais convencionais.
É
nova sim, e incômoda para muitos políticos veteranos,
essa democracia midiática globalizada em que o mercado ocupa
papel central, e o governo vive como se estivesse disputando uma
eleição em tempo real, todos os dias. Mas não
há caminho de volta. E volta e meia, diante de alguma troca
de pernas, vem uma chamada para despertar, e a pior coisa a fazer
é não pular da cama e reagir.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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