Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004

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Em foco: Gustavo Franco
Chamada para despertar

"A fumaça das últimas semanas fez muitos
enxergarem um ângulo já quase esquecido
deste governo:
a fragilidade de seu
compromisso com
a ortodoxia econômica."

O estrondo que amedrontou os mercados financeiros nas últimas semanas começou como nos acidentes na aviação, com um conjunto de perversas e pequenas coincidências. Raramente é um míssil inimigo, ou uma séria deficiência estrutural, a causa do desastre, mas uma sucessão de infelicidades e desleixos que, no caso em tela, atingiu níveis críticos de perigo quando sinais de fumaça indicaram que o presidente do Banco Central poderia ser substituído e com ele a orientação ortodoxa da política econômica.

Foi esse o momento em que, com impressionante rapidez, no mercado tocou o despertador: no mundo globalizado, diferentemente do acaciano, as conseqüências vêm antes, ou seja, o mercado começou a oferecer aos condutores da aeronave um vislumbre do que seria mexer no que parece ser a única área do governo onde há consistência e resultados positivos a exibir. Goste-se ou não, é a área econômica que tem mantido o avião no ar, o resto do governo está, digamos, no aquecimento.

A fumaça fez muitos enxergarem um ângulo já quase esquecido deste governo, a saber, a fragilidade de seu compromisso com a ortodoxia econômica. Com efeito, há os que não cessam de dizer que é apenas tática, e que o verdadeiro PT vai emergir a qualquer momento, como Dom Sebastião para expulsar os mouros. É claro que é dessa região que vem o boato, e, aos olhos do mercado, o episódio mereceria o despacho de mais uma leva de radicais, esquisitos e esotéricos de volta para as universidades, em vez de apenas "prestigiar" a área econômica com agrados sem importância. Cabeças deveriam ter rolado.

Fica a sensação de que estamos a repetir um enredo antigo, segundo o qual a liderança política apenas convoca a ortodoxia, e lhe dá poderes, em situações críticas e tão-somente para livrar-se da fase aguda de alguma doença – como observado diversas vezes nos tempos da hiperinflação – e com vistas a eleições que se aproximam. Passados esses momentos de exceção e recuperado o crédito do país mediante doses regulares de políticas ortodoxas, os salvadores da lavoura começam a ser apresentados como obstáculos ao desenvolvimento, ou como seres patologicamente conservadores. A liderança resolve que a guerra está ganha, e discretamente tolera ou mesmo conduz a fritura de onde emana o boato e, ao fim das contas, patrocina a substituição (ou cooptação) pela bandalheira heterodoxa. E mais, os ortodoxos saem com todas as culpas de as coisas darem errado, seja pela lealdade a seus chefes, pela ingenuidade (afinal, não são, em geral, profissionais da política) ou pela conhecida habilidade dos condestáveis heterodoxos de permanecerem acima do Bem e do Mal, a despeito de seus desfeitos.

Todavia, no mundo globalizado em que o Brasil agora se insere, e com os mercados financeiros funcionando como filtros implacáveis aferindo a consistência das políticas econômicas, esse jogo de aparências se tornou inviável. Não é mais possível namorar ortodoxos para se casar com heterodoxos, o velho "ciclo político" está obsoleto, uma vez que o mercado o compreendeu. Com efeito, mudou a política: não se ganham mais eleições com políticas populistas, tampouco a ortodoxia é necessariamente impopular. Antes pelo contrário: tenha-se claro que, na democracia de massas que o Brasil se tornou, todas as eleições presidenciais diretas foram ganhas pela ortodoxia econômica, inclusive e significativamente a última. Lula não teria ganho se não tivesse abraçado a fé que hoje se pratica no Banco Central e no Ministério da Fazenda e, provavelmente, José Serra teria sido um adversário mais difícil se tivesse idéias econômicas mais convencionais.

É nova sim, e incômoda para muitos políticos veteranos, essa democracia midiática globalizada em que o mercado ocupa papel central, e o governo vive como se estivesse disputando uma eleição em tempo real, todos os dias. Mas não há caminho de volta. E volta e meia, diante de alguma troca de pernas, vem uma chamada para despertar, e a pior coisa a fazer é não pular da cama e reagir.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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