Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Música
Os novos magos
das trilhas

A música do cinema já foi
terreno só de maestros. Hoje,
ex-roqueiros como Danny Elfman
brilham nessa seara


Sérgio Martin

Nos anos 80, quando o americano Danny Elfman curtia a fama como vocalista de um grupo de rock com nome ridículo – o Oingo Boingo –, um fã lhe fez uma proposta: se ele toparia musicar, por um preço camarada, seu primeiro longa-metragem. Aquele novato logo se tornaria alguém – o cineasta Tim Burton. E Elfman descobriria aí sua grande vocação musical. Se o Oingo Boingo se evaporou depois de emplacar um ou outro hit esquecível, sua carreira como compositor de trilhas sonoras não parou mais de dar frutos. Com um currículo de 120 trabalhos para cinema e TV, Elfman está entre os trilheiros mais requisitados de Hollywood. É verdade que ele ainda não obteve a consagração mais óbvia – um Oscar. Mas contabiliza três indicações: em 1998, por Homens de Preto, de Barry Sonnenfeld, e Gênio Indomável, de Gus Van Sant; e, em 2004, por Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de Tim Burton. Duas colaborações recentes com Burton – seu primeiro e maior parceiro – confirmam que ninguém em sua geração é tão criativo e talentoso. A Fantástica Fábrica de Chocolate tem uma trilha pop excepcional, como se nota nas coreografias dos anõezinhos Oompa Loompas. E ele se supera na animação A Noiva-Cadáver, em que investe na música orquestral e na sonoridade das big bands. Com trabalhos dessa categoria, será difícil ignorá-lo nas indicações deste ano. "Não tenho fixação pelo Oscar. Prefiro mergulhar nos personagens para os quais estou compondo", disse Elfman a VEJA.

Na era de ouro de Hollywood, as trilhas sonoras ficavam a cargo de compositores com formação clássica, muitos deles maestros europeus que encontravam seu lugar ao sol no cinema. Até hoje, a figura do músico erudito que se divide entre as trilhas e a regência tem seu espaço (veja quadro). É o caso do americano John Williams, o preferido do cineasta Steven Spielberg. Um perfil pop como o de Elfman, contudo, é mais condizente com as exigências das produções atuais. Da mesma forma que ele, outros ex-roqueiros se deram bem nessa seara – como Trevor Rabin, ex-integrante da banda progressiva Yes e autor dos temas de filmes como Armageddon. Elfman nunca estudou música (não sabe nem ler partituras) e usa o computador como instrumento de trabalho. "Se eu tivesse de reger uma orquestra, faria um papelão", diz. Os arranjos orquestrais de suas trilhas, aliás, não são dele. Depois que Elfman esboça os temas, o acabamento fica a cargo do parceiro Steve Bartek, guitarrista e único membro do extinto Oingo Boingo que tinha algum conhecimento de música.

Hoje, Hollywood produz menos da metade dos filmes de cinqüenta anos atrás, mas, paradoxalmente, há muito mais trilheiros em atividade – contam-se aos milhares. Só uns poucos, é claro, se tornam grifes. Em 2004, Elfman recebeu 2 milhões de dólares para fazer Homem-Aranha 2. O americano James Horner, outro peso-pesado, faturou quase 13 milhões de dólares pela trilha de Titanic. Na base da pirâmide, contudo, há uma massa de "operários-padrão" que podem ganhar menos de 60.000 dólares para musicar fitas de segunda linha. O caminho para subir na vida é contar com um bom agente, estreitar relações com algum diretor ou ter a sorte de trabalhar com profissionais consagrados. Ninguém sabe ao certo quanto existe de autoral nas trilhas de um medalhão como o alemão Hans Zimmer, que compôs para Gladiador, já que ele entrega cada projeto a um assistente. Nesse mercado também imperam os modismos. O tema de Gladiador, que alia world music a um vocal feminino etéreo, é imitado até hoje por trilheiros "genéricos" – e, diga-se, pelo próprio Zimmer. Horner é culpado por outra desgraça: aquela flautinha enjoada de Titanic. "Ninguém agüenta mais as trilhas étnicas", diz Elfman, que sempre manteve distância dessas ondas. Ele conserva um traço dos tempos românticos: o método de trabalho com algo de, digamos, artesanal. Acompanha de perto as produções e até influi na concepção dos roteiros. Para a trilha de Planeta dos Macacos (2001), estudou a fundo a obra de autores russos como Prokofiev e Stravinsky.

O ex-roqueiro também é um trilheiro à moda antiga em outro aspecto: sua sintonia fina com um cineasta, coisa rara hoje. A dupla com Burton, obviamente, está a anos-luz de parcerias que marcaram o cinema, como a do italiano Nino Rota (1911-1979) com Federico Fellini, ou a do americano Bernard Herrmann (1911-1975) com Alfred Hitchcock. Mas Elfman bem que se esforça. Ele tem Herrmann como seu maior ídolo. "A primeira trilha que me impressionou foi uma que ele fez para um filme B, Jasão e os Argonautas", conta. Ao contrário de Herrmann, que rompeu com Hitchcock quando este fez reparos a suas composições, Elfman é um sujeito tranqüilo (em tempo: ele tem 52 anos e é casado com a atriz Bridget Fonda). O músico só saiu do sério uma vez: nas gravações de Homem-Aranha 2, desentendeu-se com o diretor Sam Raimi, que tinha chiliques a cada proposta para a trilha. "Parece que um monstro tomou conta do corpo dele", diz. Cineastas também podem ser um tormento na vida de um trilheiro.

 


 
 
 
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