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Música Os
novos magos das trilhas A música
do cinema já foi terreno só de maestros. Hoje, ex-roqueiros
como Danny Elfman brilham nessa seara
Sérgio Martin
Nos
anos 80, quando o americano Danny Elfman curtia a fama como vocalista de um grupo
de rock com nome ridículo o Oingo Boingo , um fã lhe
fez uma proposta: se ele toparia musicar, por um preço camarada, seu primeiro
longa-metragem. Aquele novato logo se tornaria alguém o cineasta
Tim Burton. E Elfman descobriria aí sua grande vocação musical.
Se o Oingo Boingo se evaporou depois de emplacar um ou outro hit esquecível,
sua carreira como compositor de trilhas sonoras não parou mais de dar frutos.
Com um currículo de 120 trabalhos para cinema e TV, Elfman está
entre os trilheiros mais requisitados de Hollywood. É verdade que ele ainda
não obteve a consagração mais óbvia um Oscar.
Mas contabiliza três indicações: em 1998, por Homens de
Preto, de Barry Sonnenfeld, e Gênio Indomável, de Gus
Van Sant; e, em 2004, por Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas,
de Tim Burton. Duas colaborações recentes com Burton seu
primeiro e maior parceiro confirmam que ninguém em sua geração
é tão criativo e talentoso. A Fantástica Fábrica
de Chocolate tem uma trilha pop excepcional, como se nota nas coreografias
dos anõezinhos Oompa Loompas. E ele se supera na animação
A Noiva-Cadáver, em que investe na música orquestral e na
sonoridade das big bands. Com trabalhos dessa categoria, será difícil
ignorá-lo nas indicações deste ano. "Não tenho fixação
pelo Oscar. Prefiro mergulhar nos personagens para os quais estou compondo", disse
Elfman a VEJA. Na era de ouro de Hollywood,
as trilhas sonoras ficavam a cargo de compositores com formação
clássica, muitos deles maestros europeus que encontravam seu lugar ao sol
no cinema. Até hoje, a figura do músico erudito que se divide entre
as trilhas e a regência tem seu espaço (veja
quadro). É o caso do americano John Williams, o preferido
do cineasta Steven Spielberg. Um perfil pop como o de Elfman, contudo, é
mais condizente com as exigências das produções atuais. Da
mesma forma que ele, outros ex-roqueiros se deram bem nessa seara como
Trevor Rabin, ex-integrante da banda progressiva Yes e autor dos temas de filmes
como Armageddon. Elfman nunca estudou música (não sabe nem
ler partituras) e usa o computador como instrumento de trabalho. "Se eu tivesse
de reger uma orquestra, faria um papelão", diz. Os arranjos orquestrais
de suas trilhas, aliás, não são dele. Depois que Elfman esboça
os temas, o acabamento fica a cargo do parceiro Steve Bartek, guitarrista e único
membro do extinto Oingo Boingo que tinha algum conhecimento de música.
Hoje, Hollywood produz menos da metade
dos filmes de cinqüenta anos atrás, mas, paradoxalmente, há
muito mais trilheiros em atividade contam-se aos milhares. Só uns
poucos, é claro, se tornam grifes. Em 2004, Elfman recebeu 2 milhões
de dólares para fazer Homem-Aranha 2. O americano James Horner,
outro peso-pesado, faturou quase 13 milhões de dólares pela trilha
de Titanic. Na base da pirâmide, contudo, há uma massa de
"operários-padrão" que podem ganhar menos de 60.000 dólares
para musicar fitas de segunda linha. O caminho para subir na vida é contar
com um bom agente, estreitar relações com algum diretor ou ter a
sorte de trabalhar com profissionais consagrados. Ninguém sabe ao certo
quanto existe de autoral nas trilhas de um medalhão como o alemão
Hans Zimmer, que compôs para Gladiador, já que ele entrega
cada projeto a um assistente. Nesse mercado também imperam os modismos.
O tema de Gladiador, que alia world music a um vocal feminino etéreo,
é imitado até hoje por trilheiros "genéricos" e, diga-se,
pelo próprio Zimmer. Horner é culpado por outra desgraça:
aquela flautinha enjoada de Titanic. "Ninguém agüenta mais
as trilhas étnicas", diz Elfman, que sempre manteve distância dessas
ondas. Ele conserva um traço dos tempos românticos: o método
de trabalho com algo de, digamos, artesanal. Acompanha de perto as produções
e até influi na concepção dos roteiros. Para a trilha de
Planeta dos Macacos (2001), estudou a fundo a obra de autores russos como
Prokofiev e Stravinsky. O ex-roqueiro
também é um trilheiro à moda antiga em outro aspecto: sua
sintonia fina com um cineasta, coisa rara hoje. A dupla com Burton, obviamente,
está a anos-luz de parcerias que marcaram o cinema, como a do italiano
Nino Rota (1911-1979) com Federico Fellini, ou a do americano Bernard Herrmann
(1911-1975) com Alfred Hitchcock. Mas Elfman bem que se esforça. Ele tem
Herrmann como seu maior ídolo. "A primeira trilha que me impressionou foi
uma que ele fez para um filme B, Jasão e os Argonautas", conta.
Ao contrário de Herrmann, que rompeu com Hitchcock quando este fez reparos
a suas composições, Elfman é um sujeito tranqüilo (em
tempo: ele tem 52 anos e é casado com a atriz Bridget Fonda). O músico
só saiu do sério uma vez: nas gravações de Homem-Aranha
2, desentendeu-se com o diretor Sam Raimi, que tinha chiliques a cada proposta
para a trilha. "Parece que um monstro tomou conta do corpo dele", diz. Cineastas
também podem ser um tormento na vida de um trilheiro. |