Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Cinema
Vestida para falhar?

Sarah Jessica Parker procura
no guarda-roupa um sentido para
a vida pós-Sex and the City


Isabela Boscovi
Evan Agostini/Getty Images
Sarah num vestido de Oscar de la Renta, um de seus favoritos: fazer moda tem hora
DA INTERNET
Trailer do filme


Bonita propriamente ela não é. E, embora tenha começado cedo, e bem (aos 12 anos foi a personagem-título do musical Annie, na Broadway), sua carreira no cinema, que deslanchou de forma modesta com L.A. Story, em 1991, não chegou a causar grande impressão. Tanto que, no fim da década de 90, Sarah Jessica Parker se viu condenada ao que era então o penúltimo recurso dos astros que não chegaram a desabrochar: uma série de televisão. Mas que série. Uma das primeiras produções ultra-audaciosas que logo se tornariam a marca da rede HBO, Sex and the City se estabeleceu, desde a primeira das suas seis temporadas, como um fenômeno cultural. E, como a principal das quatro amigas que dividiam suas peripécias sexuais e desventuras amorosas, Sarah se viu ela própria propelida à condição de ícone – por um lado, como a porta-voz dos contingentes urbanos de mulheres independentes, complicadas e exigentes, e, por outro, como a mais influente fashionista (ou militante da moda, como em "sandinista") de sua geração. Doida por sapatos, a atriz, na pele da colunista Carrie Bradshaw, transformou os escarpins de Manolo Blahnik em objeto de desejo mundo afora. E, em parceria com a figurinista Patricia Field, incentivou suas admiradoras a fazer experimentos impensáveis na era pré-Carrie. Esse status único tornou Sarah uma produtora poderosa e lhe rendeu excelentes negócios – como o lançamento do perfume Lovely e o contrato estimado em 38 milhões de dólares para uma campanha com a Gap. (A New York Magazine recentemente apontou Sarah, que é casada com o ator Matthew Broderick, como a mulher mais rica de Manhattan, mas ela jura de Manolos juntos que não é verdade.) Com o fim de Sex and the City, porém, a atriz vai ter de reencontrar suas verdadeiras dimensões no cenário pop. Tudo em Família (The Family Stone, Estados Unidos, 2005), desde sexta-feira em cartaz no país, sugere que a tarefa não será fácil.

No filme, Sarah, embalada em terninhos severos, interpreta o negativo de Carrie Bradshaw: uma carreirista tensa e reprimida que, no primeiro encontro com os parentes liberais e liberados do noivo, ganha um número equivalente de inimigos. É uma briga desigual – porque o roteiro, que ia bem, logo descamba para aquela amarração de pontas típica das tragicomédias familiares americanas, e porque Sarah, apesar de seus esforços bem-intencionados, sai em nítida desvantagem do embate com a matriarca Diane Keaton. Não é que a carreira da atriz de 40 anos esteja em perigo. Sarah já tem pelo menos três outros filmes rodados ou em produção, um deles com o dramaturgo David Mamet, e nada indica que tenha perdido o tino para ícone fashion. O que ela precisa perder, e rápido, é o hábito adquirido em Sex and the City de definir uma personagem por intermédio do figurino. A roupa pode até fazer a mulher. Mas não a atriz.

 
 
 
 
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