|
|
Cinema Vestida
para falhar? Sarah Jessica Parker
procura no guarda-roupa um sentido para a vida pós-Sex and the
City  Isabela
Boscovi
| Evan
Agostini/Getty Images |  | | Sarah
num vestido de Oscar de la Renta, um de seus favoritos: fazer moda tem hora | |
Bonita propriamente
ela não é. E, embora tenha começado cedo, e bem (aos 12 anos
foi a personagem-título do musical Annie, na Broadway), sua carreira
no cinema, que deslanchou de forma modesta com L.A. Story, em 1991, não
chegou a causar grande impressão. Tanto que, no fim da década de
90, Sarah Jessica Parker se viu condenada ao que era então o penúltimo
recurso dos astros que não chegaram a desabrochar: uma série de
televisão. Mas que série. Uma das primeiras produções
ultra-audaciosas que logo se tornariam a marca da rede HBO, Sex and the City
se estabeleceu, desde a primeira das suas seis temporadas, como um fenômeno
cultural. E, como a principal das quatro amigas que dividiam suas peripécias
sexuais e desventuras amorosas, Sarah se viu ela própria propelida à
condição de ícone por um lado, como a porta-voz dos
contingentes urbanos de mulheres independentes, complicadas e exigentes, e, por
outro, como a mais influente fashionista (ou militante da moda, como em "sandinista")
de sua geração. Doida por sapatos, a atriz, na pele da colunista
Carrie Bradshaw, transformou os escarpins de Manolo Blahnik em objeto de desejo
mundo afora. E, em parceria com a figurinista Patricia Field, incentivou suas
admiradoras a fazer experimentos impensáveis na era pré-Carrie.
Esse status único tornou Sarah uma produtora poderosa e lhe rendeu excelentes
negócios como o lançamento do perfume Lovely e o contrato
estimado em 38 milhões de dólares para uma campanha com a Gap. (A
New York Magazine recentemente apontou Sarah, que é casada com o
ator Matthew Broderick, como a mulher mais rica de Manhattan, mas ela jura de
Manolos juntos que não é verdade.) Com o fim de Sex and the City,
porém, a atriz vai ter de reencontrar suas verdadeiras dimensões
no cenário pop. Tudo em Família (The Family Stone,
Estados Unidos, 2005), desde sexta-feira em cartaz no país, sugere que
a tarefa não será fácil.
No filme, Sarah, embalada em terninhos severos, interpreta o negativo de Carrie
Bradshaw: uma carreirista tensa e reprimida que, no primeiro encontro com os parentes
liberais e liberados do noivo, ganha um número equivalente de inimigos.
É uma briga desigual porque o roteiro, que ia bem, logo descamba
para aquela amarração de pontas típica das tragicomédias
familiares americanas, e porque Sarah, apesar de seus esforços bem-intencionados,
sai em nítida desvantagem do embate com a matriarca Diane Keaton. Não
é que a carreira da atriz de 40 anos esteja em perigo. Sarah já
tem pelo menos três outros filmes rodados ou em produção,
um deles com o dramaturgo David Mamet, e nada indica que tenha perdido o tino
para ícone fashion. O que ela precisa perder, e rápido, é
o hábito adquirido em Sex and the City de definir uma personagem
por intermédio do figurino. A roupa pode até fazer a mulher. Mas
não a atriz. |