Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Cinema
Guerra conjugal

No excepcional A Lula e a Baleia, uma
batalha entre pais, na qual os filhos
também se alistam


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do filme

No jogo de tênis que abre A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, Estados Unidos, 2005), Bernard Berkman e seu filho mais velho, Walt, estão de um lado da quadra, enquanto sua mulher, Joan, e o caçula, Frank, estão do lado oposto – e a guerra de boladas traiçoeiras entre as duplas é um pequeno ensaio da batalha campal que está para começar com a acrimoniosa separação do casal. Na Nova York de 1986, Bernard (Jeff Daniels) é um escritor cujas glórias estão definitivamente no passado. Ele sabe disso, e sabe que todos sabem. Mas tenta obscurecer os fatos com uma artilharia pesada, e um bocado patética, de esnobismo. Diz para Walt (Jesse Eisenberg) que Franz Kafka "é um de meus precursores", e que ele não deve perder tempo lendo Um Conto de Duas Cidades porque se trata de "um Dickens menor". No tênis como no divórcio, Walt, de 16 anos, está do lado do pai. Papagueia as bobagens deste e já está também se iniciando na desonestidade intelectual. Humilha a namorada porque acha que pode conseguir alguém "melhor" e, num concurso de talentos da escola, canta Hey You, do Pink Floyd, como se fosse composição sua. Joan (Laura Linney), ao contrário, está numa curva ascendente: emplacou um artigo na revista The New Yorker e assinou um contrato para publicar um livro – mas não se curou de seu ressentimento para com o marido, e planta provas de suas traições pela casa. Frank (Owen Kline), de 12 anos, imita a mãe masturbando-se na escola e espalhando seu sêmen nas prateleiras da biblioteca ou nas portas dos armários. Quarto longa-metragem de Noah Baumbach, A Lula e a Baleia, que estréia nesta sexta-feira no país, é uma revisita apenas parcialmente ficcionalizada ao tempestuoso divórcio dos pais do diretor. Graças à distância da memória e da maturidade, porém, esse inferno familiar é visto aqui como uma comédia – trágica e dolorosa, mas nem por isso menos cômica.

Filho do ensaísta Jonathan Baumbach e da crítica de cinema Georgia Brown, o diretor recria com precisão o ambiente de narcisismo e hipercompetividade intelectual em que cresceu. Mas é ainda mais acurado na maneira como retrata sentimentos que estão acima (ou talvez abaixo) de qualquer linha de classe ou instrução: a divisão de lealdades e a confusão em que os dois meninos são atirados pela ruína conjugal. O título, de início enigmático, é uma alusão ao terror infantil de Walt com a encenação da luta entre um cachalote e uma lula gigante no Museu de História Natural de Nova York – que ele, inconscientemente, revive na destruição mútua de seus pais. Noah Baumbach transporta a platéia para essa experiência com uma vividez e uma segurança notáveis, e extrai nunca menos do que o melhor de seus quatro atores principais. Os dois mais jovens, porém, são os que mais assombram. Se sobreviveram a um filme corrosivo como este, é provável que, como seu diretor, tenham saído dele fortalecidos e sobrevivam também à engrenagem particularmente cruel que o cinema reserva aos talentos precoces.

 
 
 
 
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