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Cinema Guerra
conjugal No excepcional A Lula e
a Baleia, uma batalha entre pais, na qual os filhos também
se alistam  Isabela
Boscov
No jogo de tênis que abre A
Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, Estados Unidos, 2005), Bernard
Berkman e seu filho mais velho, Walt, estão de um lado da quadra, enquanto
sua mulher, Joan, e o caçula, Frank, estão do lado oposto
e a guerra de boladas traiçoeiras entre as duplas é um pequeno ensaio
da batalha campal que está para começar com a acrimoniosa separação
do casal. Na Nova York de 1986, Bernard (Jeff Daniels) é um escritor cujas
glórias estão definitivamente no passado. Ele sabe disso, e sabe
que todos sabem. Mas tenta obscurecer os fatos com uma artilharia pesada, e um
bocado patética, de esnobismo. Diz para Walt (Jesse Eisenberg) que Franz
Kafka "é um de meus precursores", e que ele não deve perder tempo
lendo Um Conto de Duas Cidades porque se trata de "um Dickens menor". No
tênis como no divórcio, Walt, de 16 anos, está do lado do
pai. Papagueia as bobagens deste e já está também se iniciando
na desonestidade intelectual. Humilha a namorada porque acha que pode conseguir
alguém "melhor" e, num concurso de talentos da escola, canta Hey You,
do Pink Floyd, como se fosse composição sua. Joan (Laura Linney),
ao contrário, está numa curva ascendente: emplacou um artigo na
revista The New Yorker e assinou um contrato para publicar um livro
mas não se curou de seu ressentimento para com o marido, e planta provas
de suas traições pela casa. Frank (Owen Kline), de 12 anos, imita
a mãe masturbando-se na escola e espalhando seu sêmen nas prateleiras
da biblioteca ou nas portas dos armários. Quarto longa-metragem de Noah
Baumbach, A Lula e a Baleia, que estréia nesta sexta-feira no país,
é uma revisita apenas parcialmente ficcionalizada ao tempestuoso divórcio
dos pais do diretor. Graças à distância da memória
e da maturidade, porém, esse inferno familiar é visto aqui como
uma comédia trágica e dolorosa, mas nem por isso menos cômica.
Filho do ensaísta Jonathan
Baumbach e da crítica de cinema Georgia Brown, o diretor recria com precisão
o ambiente de narcisismo e hipercompetividade intelectual em que cresceu. Mas
é ainda mais acurado na maneira como retrata sentimentos que estão
acima (ou talvez abaixo) de qualquer linha de classe ou instrução:
a divisão de lealdades e a confusão em que os dois meninos são
atirados pela ruína conjugal. O título, de início enigmático,
é uma alusão ao terror infantil de Walt com a encenação
da luta entre um cachalote e uma lula gigante no Museu de História Natural
de Nova York que ele, inconscientemente, revive na destruição
mútua de seus pais. Noah Baumbach transporta a platéia para essa
experiência com uma vividez e uma segurança notáveis, e extrai
nunca menos do que o melhor de seus quatro atores principais. Os dois mais jovens,
porém, são os que mais assombram. Se sobreviveram a um filme corrosivo
como este, é provável que, como seu diretor, tenham saído
dele fortalecidos e sobrevivam também à engrenagem particularmente
cruel que o cinema reserva aos talentos precoces. |