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Cinema Ele
está com raiva Jim Carrey dá
sua versão hilariante e ácida de um escândalo corporativo
em As Loucuras de Dick e Jane  Isabela
Boscov
Enquanto Dick Harper (Jim Carrey)
diz na televisão que a Globodyne é uma empresa sólida e suas
contas, transparentes, um gráfico mostra, ao vivo, as ações
da corporação despencando até o fundo do poço. Promovido
a vice-presidente de comunicações especialmente para fazer papel
de bobo, Dick encontra, na volta ao escritório, as picadoras de papel a
todo o vapor e, em casa, sua mulher, Jane (Téa Leoni), feliz por
ter se demitido do emprego e começado a cavar a piscina. O casal está,
é claro, condenado à pindaíba mais indigna, e metade da graça
de As Loucuras de Dick e Jane (Fun with Dick and Jane, Estados Unidos,
2005), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, está
na maneira insidiosa como a pobreza vai se instalando, da decisão incômoda
de parar as obras da piscina ao corte de luz e, numa cena antológica, o
banho no sprinkler do vizinho (nem gramado mais os Harper têm). Refilmagem
de uma comédia estrelada por George Segal e Jane Fonda em 1977, essa nova
versão tem o mesmo senso de oportunidade do original: em lugar da recessão
e da quebradeira do início dos anos 70, tem-se aqui os escândalos
ocasionados pela "contabilidade criativa" de grandes corporações
como a Enron e a WorldCom (que, nos créditos finais, ganham agradecimentos
irônicos). A outra metade da graça está na raiva com que o
filme, produzido por Carrey, aborda o que é, afinal, uma tragédia:
a ruína da confiança nas fundações da economia e,
na sua esteira, milhares de desempregados privados até dos seus direitos
mínimos de rescisão contratual. Dick
e Jane não tem nenhum traço de santimônia. Ao contrário:
o filme parte quase de cara para uma situação surreal, em que, derrotados
em todas as tentativas de se reerguer, os Harper progridem de ladrões de
loja de conveniência para assaltantes de banco como vários
outros ex-funcionários da Globodyne, que se descobre serem os protagonistas
de uma bizarra onda de crimes. Escrito pelo Judd Apatow de O Virgem de 40 Anos
com inspiração admirável, Dick e Jane é rápido,
enxuto, incisivo e não raro hilariante. Marca, além disso, um momento
singular na carreira de Carrey. Pela primeira vez, ele consegue aqui calibrar
sua tão desejada fusão de humor com interpretação
fundada no drama. E, pela primeira vez também, abre de boa vontade espaço
para o restante do elenco, secundado por Téa Leoni, uma comédienne
de primeira linha, e por Alec Baldwin, em mais uma ótima variação
do tubarão corporativo. Uma comédia estrelada por um nome do calibre
de Carrey e passada no mundo real é uma ave rara no cinema americano
espera-se que não seja a última de sua espécie. |