Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Livros
O que é um livro difícil?

O site Amazon pretende responder
à questão – mas passa longe do essencial


Jerônimo Teixeira


NESTA REPORTAGEM
Quadro
O teste do "dificultômetro"

Para cerca de metade dos livros de seu catálogo, a Amazon – a maior livraria da internet – oferece uma ferramenta cuja consulta vale uma visita ao site: o Search Inside the Book permite pesquisar o conteúdo das obras e ainda oferece informações como o número de palavras de um livro e seus termos mais utilizados. A mais curiosa dessas informações extras é uma espécie de "dificultômetro" – um quadro com três índices que medem a dificuldade de leitura. O Fog indica os anos de educação formal supostamente necessários para compreender um texto. O Flesch é uma escala de 1 a 100 – quanto mais alta a nota de uma obra, mais fácil sua leitura. O Flesch-Kinkaid, finalmente, é uma adaptação do Flesch e também se refere à escolaridade exigida por um livro. Ao lado desses índices, a Amazon apresenta uma comparação entre o livro pesquisado e as demais obras de sua base de dados. E é nesse ponto que surgem algumas surpresas. Segundo as estatísticas, Ulisses, do irlandês James Joyce, é um livro simples: 78% dos títulos disponíveis na Amazon seriam mais difíceis do que ele. Inversamente, apenas 22% dos livros teriam leitura mais árdua do que Ensaio sobre a Cegueira, do português José Saramago. Ocorre que Ulisses é unanimemente considerado pela crítica uma pedreira. Enquanto isso, Ensaio sobre a Cegueira, embora seja literatura séria, está longe de ser um monstro de ilegibilidade: na época de seu lançamento, em 1995, ele chegou a freqüentar as listas de mais vendidos brasileiras.

O que explica resultados como esses é o fato de que o uso criativo da linguagem, as referências culturais, as metáforas, as elipses – ou seja, tudo o que constitui a complexidade de uma obra literária – passam em branco pelos índices da Amazon. Com algumas diferenças de método, as medições levam em conta apenas duas variáveis: o número de palavras de cada frase e a complexidade dessas palavras. O pressuposto é que uma frase maior exige mais torneios de sintaxe, e portanto é mais complicada. A complexidade das palavras também é aferida pelo tamanho. Vocábulos com três ou mais sílabas são "complexos" – uma idéia que quase só tem pertinência no inglês, cujo vocabulário básico comporta muitos monossílabos (as obras de brasileiros avaliadas na Amazon são, evidentemente, versões em inglês). Os índices, na verdade, não se destinavam às avaliações literárias – eles foram idealizados, em meados do século passado, como instrumentos auxiliares na educação. Rudolf Flesch, por exemplo, criador da escala que leva seu nome, era um educador austríaco radicado nos Estados Unidos que insistia na necessidade de uma linguagem escrita mais simples – sobretudo quando o objetivo era a comunicação direta, como numa bula de remédio, num contrato legal ou mesmo numa notícia de jornal. É por causa da obsessão com o tamanho da frase que o índice Flesch confere uma dificuldade gigantesca a obras como a de José Saramago. As frases do Nobel português têm 53 palavras em média – contra doze em Ulisses.

As estatísticas apresentadas pela Amazon devem ser vistas, antes de tudo, como uma curiosidade. Mas o fato de o site haver resolvido aplicar índices como o Fog e o Flesch aos livros de seu catálogo é significativo: faz lembrar que a dificuldade (seja ela medida como for) é, de fato, uma das questões que mais preocupam quem está pensando em começar a leitura de um livro. A "culpa" dessa situação é em grande parte dos colegas de geração de James Joyce – os modernistas. As diferentes vanguardas do início do século XX valorizaram a obscuridade como uma forma de repúdio ao gosto estético das massas e da burguesia. Elas também sugeriram que só romances e poemas intricados seriam capazes de refletir "o caos" dos tempos modernos. No manifesto do dadaísmo o poeta romeno Tristan Tzara sumariza a idéia: sem meias palavras, ele afirma que uma obra compreensível não é arte. As vanguardas passaram, mas o culto da dificuldade ficou, com seus adeptos e inimigos. A verdade é que não se trata do critério mais útil para julgar o valor de um livro. Há obras de leitura difícil que são pura empulhação, e outras que são obras-primas – como Ulisses. Da mesma forma, há livros fáceis ruins e bons. Voltemos ao site da Amazon. Segundo suas estatísticas, O Alquimista, de Paulo Coelho, é pura simplicidade: 90% dos livros são mais difíceis de entender que ele. Entre os raros volumes mais acessíveis estaria o de contos completos do americano Ernest Hemingway. Os dois livros têm linguagem despojada e são, com efeito, fáceis de ler. Mas o segundo é infinitamente melhor.

 
 
 
 
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