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Livros
O que é um livro difícil?
O site Amazon pretende responder à questão mas passa
longe do essencial  Jerônimo
Teixeira
Para cerca de metade
dos livros de seu catálogo, a Amazon a maior livraria da internet
oferece uma ferramenta cuja consulta vale uma visita ao site: o Search
Inside the Book permite pesquisar o conteúdo das obras e ainda oferece
informações como o número de palavras de um livro e seus
termos mais utilizados. A mais curiosa dessas informações extras
é uma espécie de "dificultômetro" um quadro com três
índices que medem a dificuldade de leitura. O Fog indica os anos de educação
formal supostamente necessários para compreender um texto. O Flesch é
uma escala de 1 a 100 quanto mais alta a nota de uma obra, mais fácil
sua leitura. O Flesch-Kinkaid, finalmente, é uma adaptação
do Flesch e também se refere à escolaridade exigida por um livro.
Ao lado desses índices, a Amazon apresenta uma comparação
entre o livro pesquisado e as demais obras de sua base de dados. E é nesse
ponto que surgem algumas surpresas. Segundo as estatísticas, Ulisses,
do irlandês James Joyce, é um livro simples: 78% dos títulos
disponíveis na Amazon seriam mais difíceis do que ele. Inversamente,
apenas 22% dos livros teriam leitura mais árdua do que Ensaio sobre
a Cegueira, do português José Saramago. Ocorre que Ulisses
é unanimemente considerado pela crítica uma pedreira. Enquanto
isso, Ensaio sobre a Cegueira, embora seja literatura séria, está
longe de ser um monstro de ilegibilidade: na época de seu lançamento,
em 1995, ele chegou a freqüentar as listas de mais vendidos brasileiras.
O que explica resultados como esses
é o fato de que o uso criativo da linguagem, as referências culturais,
as metáforas, as elipses ou seja, tudo o que constitui a complexidade
de uma obra literária passam em branco pelos índices da Amazon.
Com algumas diferenças de método, as medições levam
em conta apenas duas variáveis: o número de palavras de cada frase
e a complexidade dessas palavras. O pressuposto é que uma frase maior exige
mais torneios de sintaxe, e portanto é mais complicada. A complexidade
das palavras também é aferida pelo tamanho. Vocábulos com
três ou mais sílabas são "complexos" uma idéia
que quase só tem pertinência no inglês, cujo vocabulário
básico comporta muitos monossílabos (as obras de brasileiros avaliadas
na Amazon são, evidentemente, versões em inglês). Os índices,
na verdade, não se destinavam às avaliações literárias
eles foram idealizados, em meados do século passado, como instrumentos
auxiliares na educação. Rudolf Flesch, por exemplo, criador da escala
que leva seu nome, era um educador austríaco radicado nos Estados Unidos
que insistia na necessidade de uma linguagem escrita mais simples sobretudo
quando o objetivo era a comunicação direta, como numa bula de remédio,
num contrato legal ou mesmo numa notícia de jornal. É por causa
da obsessão com o tamanho da frase que o índice Flesch confere uma
dificuldade gigantesca a obras como a de José Saramago. As frases do Nobel
português têm 53 palavras em média contra doze em Ulisses.
As estatísticas apresentadas
pela Amazon devem ser vistas, antes de tudo, como uma curiosidade. Mas o fato
de o site haver resolvido aplicar índices como o Fog e o Flesch aos livros
de seu catálogo é significativo: faz lembrar que a dificuldade (seja
ela medida como for) é, de fato, uma das questões que mais preocupam
quem está pensando em começar a leitura de um livro. A "culpa" dessa
situação é em grande parte dos colegas de geração
de James Joyce os modernistas. As diferentes vanguardas do início
do século XX valorizaram a obscuridade como uma forma de repúdio
ao gosto estético das massas e da burguesia. Elas também sugeriram
que só romances e poemas intricados seriam capazes de refletir "o caos"
dos tempos modernos. No manifesto do dadaísmo o poeta romeno Tristan Tzara
sumariza a idéia: sem meias palavras, ele afirma que uma obra compreensível
não é arte. As vanguardas passaram, mas o culto da dificuldade ficou,
com seus adeptos e inimigos. A verdade é que não se trata do critério
mais útil para julgar o valor de um livro. Há obras de leitura difícil
que são pura empulhação, e outras que são obras-primas
como Ulisses. Da mesma forma, há livros fáceis ruins
e bons. Voltemos ao site da Amazon. Segundo suas estatísticas, O Alquimista,
de Paulo Coelho, é pura simplicidade: 90% dos livros são mais difíceis
de entender que ele. Entre os raros volumes mais acessíveis estaria o de
contos completos do americano Ernest Hemingway. Os dois livros têm linguagem
despojada e são, com efeito, fáceis de ler. Mas o segundo é
infinitamente melhor. |