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Livros Uma
farsa de peruca O escritor JT LeRoy
não é andrógino: ele é mesmo uma mulher
Divulgação
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Knoop: o escritor, na verdade, é um personagem que ela interpreta |
No ano passado, o escritor americano JT LeRoy visitou
o Brasil durante um festival literário e causou estranheza: sempre de peruca
loira e de óculos escuros, usando roupas que escondiam seu corpo, falando
com voz suave e movendo-se com delicadeza, ele era a imagem da androginia. Seus
livros explicavam em parte os motivos dessa esquisitice: seriam versões
ficcionais da infância do autor, ex-prostituto que se vendia para caminhoneiros
no estado da Virginia, ex-viciado em heroína e portador do vírus
HIV. Agora revela-se, porém, que essa figura nunca passou de um bem urdido
golpe publicitário. Segundo o jornal The New York Times revelou
na semana passada, LeRoy não tem nada de andrógino. Ele é
realmente uma mulher, que se chama Savannah Knoop. Ao que tudo indica, ele também
não é escritor. Seus melodramas mal-ajambrados seriam de autoria
de uma certa Laura Albert que afirmava ser protetora do autor inexistente.
Os escritos atribuídos a LeRoy,
hoje supostamente com 25 anos, apareceram na cena literária "alternativa"
em 1997, com um conto publicado numa antologia. Seguiram-se o romance Sarah
(publicado no Brasil pela Geração Editorial) e a coletânea
de contos Maldito Coração (a ser lançada neste mês
pela mesma editora), que deu mote a um filme dirigido pela italiana Asia Argento.
Os livros conquistaram um sucesso razoável, admirados por gente "descolada"
em Hollywood como a atriz Winona Ryder, a cantora Madonna e o diretor Gus
Van Sant. Apesar disso, LeRoy manteve-se recluso nos primeiros anos de fama. Foi
só a partir de 2001 que uma figura misteriosa começou a se apresentar
em público como sendo ele.
Os pontos nebulosos da biografia de LeRoy já haviam sido expostos duas
vezes recentemente, em reportagens no jornal inglês The Guardian e
na revista americana New York. O golpe de misericórdia veio com
o The New York Times, que identificou Savannah como a figura de peruca
e óculos escuros. O mesmo artigo explora a hipótese de que o personagem
LeRoy foi obra do casal Geoffrey Knoop (meio-irmão de Savannah) e Laura
Albert. Artistas sem expressão, os dois já haviam tentado a sorte
numa obscura banda de rock. JT LeRoy teria surgido como uma nova estratégia
para chegar ao sucesso. Dessa vez, funcionou muito embora os criadores
tivessem de ficar ocultos por trás de sua criatura.
O escritor-fantasma recorre a uma empresa para coletar direitos autorais e nunca
apresenta nenhuma forma de identidade. No Brasil não foi diferente: no
registro do hotel em que ficou hospedado em Parati, ele/ela "esqueceu" de preencher
o número do passaporte. A intérprete Lidia Luther, que acompanhou
o suposto LeRoy na passagem pelo Brasil e teve a oportunidade de vê-lo(a)
sem peruca confirma que o escritor e a figura apresentada no The New
York Times como Savannah são a mesma pessoa. Quem quiser tirar a prova
de perto talvez tenha uma oportunidade. O falso autor prometeu retornar ao Brasil
em março, para a Bienal do Livro de São Paulo. |