Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Aventura
Duelo de mulheres nas alturas

Duas alpinistas disputam quem atinge
primeiro os catorze picos mais altos


Ruth Costas

Divulgação
Pasaban na subida do K2: pés congelados pelo frio de 40 graus negativos e duas falanges amputadas


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Altos e mortais

Há tantos alpinistas nas encostas das montanhas que, para um deles sobressair, é preciso inventar novos desafios. No momento, duas atletas estão empenhadas numa disputa inédita: qual delas será a primeira mulher a completar a escalada dos catorze picos mais altos do mundo, todos acima de 8.000 metros. A espanhola Edurne Pasaban, de 32 anos, e a austríaca Gerlinde Kaltenbrunner, de 35, têm duas motivações. A primeira é bater o recorde feminino de alpinismo. Cada uma já fez oito dessas escaladas. Antes delas, apenas a polonesa Wanda Rutkiewicz havia conseguido tal marca. A alpinista, no entanto, morreu na tentativa de subir a nona montanha, em 1992. Como Edurne e Gerlinde planejam subir dois picos por ano, é possível que dentro de três anos uma delas – ou ambas – iguale o feito do italiano Reinhold Messner, o primeiro alpinista a atingir os catorze cumes mais altos, na década de 80. A segunda motivação é a realização pessoal. Como é próprio dos alpinistas, o prazer está em alcançar, depois de superar provações físicas extremas, lugares inatingíveis para a esmagadora maioria da humanidade.


Fotos divulgação
gação
EDURNE PASABAN
A espanhola escolhe as rotas mais seguras para os cumes. Costuma escalar com grupos grandes, acompanhada por uma equipe de TV
GERLINDE KALTENBRUNNER
A austríaca é uma purista: escala em grupos pequenos, escolhe caminhos difíceis e não utiliza tubos de oxigênio

Gerlinde e Edurne conhecem bem os riscos que correm. Os catorze picos mais altos fazem parte do Himalaia, na Ásia, e recebem, por boas razões, a pecha de montanhas assassinas. No mais perigoso deles, o Monte Annapurna, a taxa de sobrevivência é de seis em cada dez alpinistas que tentam a escalada. No ano passado, Gerlinde precisou interromper a escalada do Everest, o pico mais alto do mundo, para socorrer um colega acometido por um edema cerebral causado pelo ar rarefeito. A 8.000 metros de altitude, a concentração de oxigênio no ar é 70% menor do que no nível do mar. Em 2004, em uma expedição ao K2, a segunda montanha mais alta, as botas reforçadas não foram suficientes para proteger os pés de Edurne do congelamento num ambiente de 40 graus negativos. O resultado foi a necessidade de amputar uma falange de cada pé.

No alpinismo, homens e mulheres competem em igualdade de condições. "As mulheres têm em geral menos força física, mas não há diferença no que se refere à resistência ao frio e à altitude", diz o brasileiro Eduardo Vinhaes, da comissão médica da União Internacional das Associações de Alpinismo. "Desde que vi fotos do K2 pela primeira vez, quando tinha 16 anos, não consigo mais me libertar da sina de escalar as montanhas mais altas que existem", disse Gerlinde a VEJA. A austríaca é uma purista do esporte: ela prefere subir por rotas pouco exploradas, em grupos pequenos e sem os tubos de oxigênio que auxiliam a respiração nos pontos mais elevados. Já Edurne se fez acompanhar por equipes de televisão e um grande aparato logístico em suas últimas cinco escaladas. Apesar de a disputa estar sendo acompanhada pelos alpinistas e pela imprensa como um duelo particular entre as duas, elas recusam-se a admitir a rivalidade. Juram, mas ninguém acredita, que se trata apenas de coincidência de objetivos.

 
 
 
 
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