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Saúde
Ora, pílulas!
Um estudo afirma que os contraceptivos
orais podem diminuir a libido. Mas
o assunto continua polêmico

Paula Neiva
Um estudo levado a cabo por pesquisadores
da Universidade de Boston colocou mais combustível numa discussão
antiga, ao concluir que o uso de pílula anticoncepcional
interfere negativamente na libido feminina. O trabalho, publicado
na edição deste mês do Journal of Sexual
Medicine, revista científica editada pela Sociedade Internacional
de Medicina Sexual, afirma que o uso de contraceptivos orais pode
provocar a redução do desejo sexual feminino
e que existe a possibilidade de esse efeito perdurar mesmo que a
mulher deixe de tomar o medicamento. O universo pesquisado contou
com 120 voluntárias, na faixa dos 35 anos, com queixas de
queda da libido nos seis meses anteriores. Metade delas usava pílula.
A outra metade era de mulheres que ou tinham abandonado o tratamento
poucos meses antes ou nunca haviam tomado esse tipo de remédio.
Os especialistas analisaram amostras de sangue das pacientes e constataram
que os níveis de uma determinada proteína, a SHBG,
eram mais elevados entre as usuárias e as ex-usuárias
de pílula. Segundo eles, o excesso dessa proteína
reduz a quantidade de testosterona circulante no organismo feminino,
o que interferiria diretamente no desejo sexual.
Antes que alguma leitora se disponha
a desculpar o maridão e a responsabilizar inteiramente a
pílula, é preciso deixar claro que o estudo se encontra
sob bombardeio intenso. "A metodologia é falha em vários
pontos", diz César Fernandes, professor de ginecologia da
Faculdade de Medicina do ABC, de São Paulo. A principal falha,
de acordo com os críticos, foi que os pesquisadores se restringiram
apenas a pacientes com disfunção sexual o que
equivale a 30% das mulheres em idade reprodutiva. Outro problema
foi o fato de seus autores não levarem em conta fatores emocionais,
como o relacionamento com o parceiro. "Esse tipo de problema pode
até baixar a libido, mas não interfere nos níveis
da proteína SHBG", rebate o ginecologista Irwin Goldstein,
coordenador do estudo. Há outros estudos, porém, que
mostram que nem sempre mulheres com taxas elevadas de SHBG exibem
uma libido abaixo dos níveis considerados normais.
A pílula anticoncepcional
chegou ao mercado no início da década de 60
e foi uma das grandes responsáveis pela emancipação
feminina. Com eficácia que beira 100%, ela permitiu à
mulher fazer sexo por prazer, sem os riscos de uma gravidez indesejada.
Ainda hoje, está entre os métodos contraceptivos mais
utilizados pelas brasileiras. Calcula-se que 8 milhões de
mulheres usem pílula no país. "A sexualidade feminina
é extremamente complexa", diz Nilson Melo, presidente da
Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia
e Obstetrícia. "Mesmo depois de tantos estudos, ainda não
há indícios científicos suficientes para dizer
se o uso da pílula aumenta ou diminui o desejo sexual." É
uma polêmica que está longe do fim. Por essas e outras,
repita-se, é melhor ir devagar na hora de desculpar o maridão.
Afinal de contas, não basta ser companheiro, é preciso
estimular.
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| Fonte: César Eduardo Fernandes,
professor de ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC |
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