Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Saúde
Ora, pílulas!

Um estudo afirma que os contraceptivos
orais podem diminuir a libido. Mas
o assunto continua polêmico


Paula Neiva

Um estudo levado a cabo por pesquisadores da Universidade de Boston colocou mais combustível numa discussão antiga, ao concluir que o uso de pílula anticoncepcional interfere negativamente na libido feminina. O trabalho, publicado na edição deste mês do Journal of Sexual Medicine, revista científica editada pela Sociedade Internacional de Medicina Sexual, afirma que o uso de contraceptivos orais pode provocar a redução do desejo sexual feminino – e que existe a possibilidade de esse efeito perdurar mesmo que a mulher deixe de tomar o medicamento. O universo pesquisado contou com 120 voluntárias, na faixa dos 35 anos, com queixas de queda da libido nos seis meses anteriores. Metade delas usava pílula. A outra metade era de mulheres que ou tinham abandonado o tratamento poucos meses antes ou nunca haviam tomado esse tipo de remédio. Os especialistas analisaram amostras de sangue das pacientes e constataram que os níveis de uma determinada proteína, a SHBG, eram mais elevados entre as usuárias e as ex-usuárias de pílula. Segundo eles, o excesso dessa proteína reduz a quantidade de testosterona circulante no organismo feminino, o que interferiria diretamente no desejo sexual.

Antes que alguma leitora se disponha a desculpar o maridão e a responsabilizar inteiramente a pílula, é preciso deixar claro que o estudo se encontra sob bombardeio intenso. "A metodologia é falha em vários pontos", diz César Fernandes, professor de ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC, de São Paulo. A principal falha, de acordo com os críticos, foi que os pesquisadores se restringiram apenas a pacientes com disfunção sexual – o que equivale a 30% das mulheres em idade reprodutiva. Outro problema foi o fato de seus autores não levarem em conta fatores emocionais, como o relacionamento com o parceiro. "Esse tipo de problema pode até baixar a libido, mas não interfere nos níveis da proteína SHBG", rebate o ginecologista Irwin Goldstein, coordenador do estudo. Há outros estudos, porém, que mostram que nem sempre mulheres com taxas elevadas de SHBG exibem uma libido abaixo dos níveis considerados normais.

A pílula anticoncepcional chegou ao mercado no início da década de 60 – e foi uma das grandes responsáveis pela emancipação feminina. Com eficácia que beira 100%, ela permitiu à mulher fazer sexo por prazer, sem os riscos de uma gravidez indesejada. Ainda hoje, está entre os métodos contraceptivos mais utilizados pelas brasileiras. Calcula-se que 8 milhões de mulheres usem pílula no país. "A sexualidade feminina é extremamente complexa", diz Nilson Melo, presidente da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia. "Mesmo depois de tantos estudos, ainda não há indícios científicos suficientes para dizer se o uso da pílula aumenta ou diminui o desejo sexual." É uma polêmica que está longe do fim. Por essas e outras, repita-se, é melhor ir devagar na hora de desculpar o maridão. Afinal de contas, não basta ser companheiro, é preciso estimular.

Fonte: César Eduardo Fernandes, professor de ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC

 
 
 
 
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