Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Comportamento
Um tom mais claro

Clarear a pele virou obsessão na Índia,
um reflexo da antiga divisão em castas


José Eduardo Barella

O enredo da telenovela de maior sucesso na Índia reflete um dilema atual no país: a atriz principal interpreta uma jovem de beleza impecável mas atormentada pelo temor de não conseguir namorado devido ao tom escuro de sua pele. Apesar de a cútis achocolatada predominar entre o 1 bilhão de habitantes do país, o drama está longe de ser artificial. Símbolo milenar de status social na Ásia, a pele clara virou uma obsessão indiana. Nos últimos cinco anos, as clínicas de estética que oferecem serviços de clareamento de pele tornaram-se comuns como os salões de beleza. Nesse período, a venda de cosméticos carregados de substâncias que provocam despigmentação aumentou 65%. Não se trata de um modismo feminino. Três em cada dez produtos clareadores são vendidos para homens. Nos anúncios de agências matrimoniais, comuns na Índia, a descrição "pele clara" aparece com destaque.

Vários fatores contribuíram para a febre do branqueamento. O primeiro é histórico. As castas do hinduísmo foram forjadas por tribos indo-européias que migraram para o norte do subcontinente há 3.500 anos e expulsaram para o sul os habitantes originais, de pele mais escura. Ainda que hoje seja difícil diferenciar as 3.000 castas e 25.000 subcastas apenas pela aparência física, os dalits, ou párias, a classe mais baixa, estão entre os indianos de pele mais escura. Por fim, como em qualquer parte do mundo, as mulheres da Índia espelham-se nas top models internacionais. "O padrão de beleza da indústria cultural americana influenciou as indianas", disse a VEJA a antropóloga americana Sarah Lamb, da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, especialista em cultura hinduísta. O tom de pele mais invejado na Índia é a palidez da atriz Aishwarya Rai, a maior estrela de Bollywood, o equivalente local de Hollywood.

Até bem pouco tempo atrás nada podia ser feito em relação à cor com a qual se nascia. Não é mais assim devido à combinação dos recursos oferecidos pela farmacologia e de mudanças na sociedade indiana. Na última década, a abertura da economia criou uma sólida classe média de 150 milhões de pessoas, com dinheiro para gastar em cuidados estéticos. As possibilidades de clareamento são ainda limitadas. Os produtos usados são feitos à base de hidroquinona, ácido retinóico ou kójico, que inibem a produção de melanina, pigmento que dá coloração à epiderme. O clareamento exige retoques diários, o uso de protetor solar e some em meia dúzia de dias. Se utilizadas em excesso, essas substâncias podem destruir os melanócitos, as células que produzem a melanina. Aí o branqueamento se torna permanente, com aparência similar à causada pelo vitiligo. Foi esse tipo de tratamento que deu aquele tom indefinido e doentio à pele do cantor Michael Jackson. Imagine o pesadelo: o segundo país mais populoso do mundo repleto de sósias do cantor.

 
 
 
 
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