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Comportamento
Um tom mais claro
Clarear a pele virou obsessão na Índia,
um reflexo da antiga divisão em castas

José Eduardo Barella
O enredo da telenovela de maior
sucesso na Índia reflete um dilema atual no país:
a atriz principal interpreta uma jovem de beleza impecável
mas atormentada pelo temor de não conseguir namorado devido
ao tom escuro de sua pele. Apesar de a cútis achocolatada
predominar entre o 1 bilhão de habitantes do país,
o drama está longe de ser artificial. Símbolo milenar
de status social na Ásia, a pele clara virou uma obsessão
indiana. Nos últimos cinco anos, as clínicas de estética
que oferecem serviços de clareamento de pele tornaram-se
comuns como os salões de beleza. Nesse período, a
venda de cosméticos carregados de substâncias que provocam
despigmentação aumentou 65%. Não se trata de
um modismo feminino. Três em cada dez produtos clareadores
são vendidos para homens. Nos anúncios de agências
matrimoniais, comuns na Índia, a descrição
"pele clara" aparece com destaque.
Vários fatores contribuíram
para a febre do branqueamento. O primeiro é histórico.
As castas do hinduísmo foram forjadas por tribos indo-européias
que migraram para o norte do subcontinente há 3.500 anos
e expulsaram para o sul os habitantes originais, de pele mais escura.
Ainda que hoje seja difícil diferenciar as 3.000 castas e
25.000 subcastas apenas pela aparência física, os dalits,
ou párias, a classe mais baixa, estão entre os indianos
de pele mais escura. Por fim, como em qualquer parte do mundo, as
mulheres da Índia espelham-se nas top models internacionais.
"O padrão de beleza da indústria cultural americana
influenciou as indianas", disse a VEJA a antropóloga americana
Sarah Lamb, da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, especialista
em cultura hinduísta. O tom de pele mais invejado na Índia
é a palidez da atriz Aishwarya Rai, a maior estrela de Bollywood,
o equivalente local de Hollywood.
Até bem pouco tempo atrás
nada podia ser feito em relação à cor com a
qual se nascia. Não é mais assim devido à combinação
dos recursos oferecidos pela farmacologia e de mudanças na
sociedade indiana. Na última década, a abertura da
economia criou uma sólida classe média de 150 milhões
de pessoas, com dinheiro para gastar em cuidados estéticos.
As possibilidades de clareamento são ainda limitadas. Os
produtos usados são feitos à base de hidroquinona,
ácido retinóico ou kójico, que inibem a produção
de melanina, pigmento que dá coloração à
epiderme. O clareamento exige retoques diários, o uso de
protetor solar e some em meia dúzia de dias. Se utilizadas
em excesso, essas substâncias podem destruir os melanócitos,
as células que produzem a melanina. Aí o branqueamento
se torna permanente, com aparência similar à causada
pelo vitiligo. Foi esse tipo de tratamento que deu aquele tom indefinido
e doentio à pele do cantor Michael Jackson. Imagine o pesadelo:
o segundo país mais populoso do mundo repleto de sósias
do cantor.
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