Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Especial
Os mistérios de um
belíssimo sucesso

Com sua trama cheia de enigmas e
um elenco de primeira, a novela
Belíssima
é um dos maiores fenômenos
do horário nos últimos tempos. E isso
bem antes de chegar à metade

Ricardo Valladares


Osacar Cabral

A atriz Fernanda Montenegro, como Bia: "Ela é vilã, mas com classe"


NESTA REPORTAGEM

Quadro: Os cinco mistérios de Belíssima


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Nesta quinta-feira, um atentado provocará o sumiço misterioso de Bia Falcão, a vilã interpretada por Fernanda Montenegro na novela Belíssima. A cena terá ação – até uma dublê foi escalada para substituir a atriz na filmagem do desastre, que será causado por uma bomba colocada no carro de Bia. E terá, principalmente, suspense – o capítulo será alinhavado de modo que muitos personagens serão suspeitos de cometer o atentado. Anunciada desde o início da atual trama das 8 da Rede Globo, a seqüência – que deixará no ar a dúvida se a maquiavélica Bia morreu ou não – tem tudo para reforçar ainda mais o ibope de um folhetim que vem se revelando um fenômeno. Um fenômeno um tanto precoce, diga-se. O noveleiro Silvio de Abreu venceu até agora, com louvor, obstáculos que poderiam minar a repercussão de uma novela que mal chegou a um quarto de seus capítulos. Belíssima foi lançada em novembro, uma época desfavorável para estréias, por ser próxima das festas de fim de ano e das férias – quando, historicamente, o número de televisores ligados cai até 20%. Enfrentou ainda a cratera aberta na audiência pelo fiasco da novela das 7, Bang Bang – que, num efeito dominó, derrubou os índices do horário nobre da emissora e poderia comprometer seu desempenho. Apesar disso tudo, Belíssima teve uma decolagem irresistível. Com dois meses de exibição, já ostenta a média de 45 pontos – superior à da antecessora América e semelhante à de Senhora do Destino, o último grande sucesso no horário, nessa mesma etapa da trama (ambas, vale lembrar, não tiveram de driblar tantos percalços). A novela dá seqüência à boa fase da Globo nessa faixa: antes dela, a emissora emplacou quatro produções bem-sucedidas. Com 70% dos televisores sintonizados em suas intrigas – e um horizonte de quase seis meses à frente –, não será surpresa se Belíssima superar a todas.

Fotos Arquivo Pessoal
Abreu em A Muralha (1968): ele foi ator e fez pornochanchadas antes de virar noveleiro


Não é difícil entender as razões do sucesso do folhetim. O paulistano Silvio de Abreu, cujos dotes já foram mais que comprovados em novelas como Guerra dos Sexos e A Próxima Vítima, está no melhor de sua forma. Ele investe em ingredientes que domina: a trama criminal, o humor e a representação de uma São Paulo feita por imigrantes e empreendedores. O mistério é a alavanca da história. Ou melhor: uma teia de mistérios (veja quadro). O folhetim registrou seu primeiro assassinato logo no início: uma garçonete que vários personagens tinham razões de sobra para querer eliminar foi morta a tiros. Não muito depois, veio a segunda vítima: o neto da vilã Bia, baleado na Grécia. A personagem de Fernanda Montenegro é, ao lado de seu genro mau-caráter, André (Marcello Antony), a catalisadora dos enigmas de Belíssima. Já se pode afirmar que ela conquistou um lugar entre as megeras mais marcantes das 8. "Bia é vilã, mas tem classe: não sairia por aí furando olho de passarinho", diz Fernanda.

O desaparecimento de Bia deverá colocar a novela de vez num rumo detetivesco. Esse tipo de expediente sempre demonstrou ser eficaz para atrair os espectadores. A primeira a se valer dele com êxito foi Janete Clair, em Véu de Noiva, de 1969. Ela descobriu por acaso as mil utilidades de um bom assassinato: como um ator teve de desligar-se do folhetim, a solução foi armar a morte de seu personagem. Em 1977, a novela O Astro mobilizou a audiência com a famigerada pergunta: "Quem matou Salomão Hayala?". Com o tempo isso se tornaria um bordão recorrente. Nos anos 80, o noveleiro Gilberto Braga lançou mão dele com sucesso em Vale Tudo, em que o mistério era quem teria matado a vilã Odete Roitman. O autor voltou a sacar dessa arma mais recentemente, em Celebridade – dessa vez, não foi além do clichê, para dar alento a uma trama morna.

Nos tempos em que usava peruca: "Durante anos, morria de medo de que alguém percebesse e tentasse arrancá-la. Como eu era ridículo"

O maior especialista nessa área é mesmo Silvio de Abreu, pela engenhosidade de suas tramas. A Próxima Vítima, de 1995, foi um marco nesse sentido. "Ninguém antes do Silvio teve a sacada de estruturar um folhetim totalmente sobre um enredo criminal", diz o doutor em telenovelas Mauro Alencar. Abreu bolou uma série de assassinatos sem conexão aparente – o que havia em comum é que todas as vítimas recebiam uma mensagem de horóscopo chinês antes de morrer. A seu modo, ele injetou algo de suspense psicológico na história – sua inspiração eram os filmes do cineasta Alfred Hitchcock (guardada a distância quase intransponível, é claro, que os separa de um folhetim da Globo). Por exemplo: um Opala preto – que os espectadores percebiam, mas os personagens nem sempre – ficava à espreita das vítimas. "Quando era criança, fui atropelado por um carro da mesma cor e isso me marcou", diz Abreu. Em Belíssima, o noveleiro encontrou outro modo de dar seu toque original. Não se trata simplesmente de uma trama de assassinato: o mistério é saber quem está por trás de uma espécie de grande plano diabólico que move a história. Ele promete que, até o fim da novela, unirá os fios que ligam todos os enigmas.

Nos anos 60 e 70, bem antes de virar um noveleiro de sucesso, ele foi ator, roteirista e diretor de pornochanchadas. Pode ser visto ao lado de Vera Fischer na fita que lançou a atriz: A Super Fêmea (1973), um clássico do cinema B nacional. Na época, por causa de uma calvície precoce, Abreu usava peruca. "Durante anos, morri de medo de que alguém percebesse e tentasse arrancá-la. Como eu era ridículo", diz. Ele também dirigiu filmes como Mulher Objeto e A Árvore dos Sexos. Seu trabalho despertou o interesse da extinta TV Tupi, que o chamou para fazer novelas. É dos tempos da boca-do-lixo – como é conhecida a zona de reputação duvidosa de São Paulo em que se gravavam essas produções – que vem o humor malandro de Belíssima. A novela não teve, ao menos até agora, nenhum romance fulgurante. Em compensação, há tensão sexual de sobra. A relação entre a coroa endinheirada Ornela (Vera Holtz) e o garoto de programa Mateus (Cauã Reymond) é pura pornochanchada. Na semana passada, aliás, o mesmo Mateus teve uma tórrida seqüência de amassos com a prima Giovana (Paola Oliveira), que se estendeu por mais de um bloco da novela. Os desencontros da fogosa Safira (Cláudia Raia) com o mecânico Pascoal (Reynaldo Gianecchini) também têm rendido momentos de malícia. Como fez em outros folhetins, Abreu não hesitou em "ressuscitar" um personagem de uma trama antiga para reforçar as tiradas cômicas: o descerebrado Jamanta.

Lailson Santos
O autor, nos dias de hoje: ninguém contesta que ele é o rei das tramas criminais nas telenovelas

A receita desandaria se Abreu não tivesse à mão um elenco bem escalado. Para os papéis que requeriam estofo dramático, o noveleiro e a diretora da atração, Denise Saraceni, tiveram o bom senso (que nem todos os noveleiros exibiram nos últimos tempos, frise-se) de escalar atores de gabarito como Glória Pires, Cláudia Abreu, Lima Duarte, Tony Ramos, Pedro Paulo Rangel e a própria Fernanda Montenegro. Tio Gigi, interpretado por Rangel, é um observador ferino do que se passa à sua volta e um apaixonado pela história das divas e das vedetes. "Ele é o alter ego do Silvio", diz Denise Saraceni. A personagem de Glória talvez seja a mais complicada. Júlia é uma figura apagada e obrigou a atriz a ser contida – logo ela, que costuma ter uma presença forte. Tudo indica que o autor vai presenteá-la com uma reviravolta. "Ainda não sei como Júlia será depois da mudança", diz Glória. A produção da novela também teve a sabedoria de colocar novatos e bonitões sem expressão em posições que não comprometem. Tudo o que Cauã Reymond tem de fazer para cumprir com as obrigações de seu personagem é exibir os peitorais em cena. Já a modelo Letícia Birkheuer, que faz Érica, a filha de Júlia, vem contracenando com veteranos logo em sua estréia na TV. Mas, no posto em que foi colocada, não precisa fazer mais do que piscar seus belos olhos e está tudo o.k. "É tudo novo para mim. Mas estou sendo bem tratada", diz ela.

Outro fator que não deve ser desprezado no sucesso de Belíssima é o texto ágil. Abreu trilha um caminho arriscado: vai desenredando as tramas velozmente, sem se preocupar se isso vai tirar a graça de alguns personagens ou prejudicar o suspense. Não teve pudor em varrer do mapa logo nas primeiras semanas o único casal romântico tipicamente folhetinesco da novela, formado por Vitória (Cláudia Abreu) e Pedro (Henri Castelli), com o assassinato desse último. Embora já estivesse prevista, a saída de Bia também é um lance arriscado. Que autor abriria mão, tão cedo, de uma vilã que ajudou a fermentar o ibope? "Silvio não tem medo de queimar as fichas", diz João Emanuel Carneiro, noveleiro da nova geração que foi pupilo de Abreu.

Fotos Osacar Cabral

Os bastidores da novela: Lima Duarte sai do estúdio de tênis e bermudão (acima à esq.), Cauã Reymond e Vera Holtz num intervalo de gravação (acima, à dir.), Glória Pires filma a seqüência do acidente da personagem Bia (abaixo à esq.) e ensaio de uma cena na mansão dos herdeiros da grife Belíssima (abaixo à dir.)
Divulgação

Nem sempre, no entanto, o autor confiou tanto em seu taco. Durante as filmagens de Guerra dos Sexos, ele teve um bloqueio criativo quando um dos protagonistas, Paulo Autran, operou o coração. Sem saber o que fazer, ele saía de carro pelas ruas de São Paulo, cidade em que sempre morou nos seus 63 anos, para espairecer. Um dia, ao passar pela vizinhança pobre onde nasceu, na Zona Leste da capital, teve um clique: "Eu pensei: é bom parar de frescura e ter logo uma boa idéia, se não quiser viver como as pessoas que nunca conseguiram sair daqui". De volta para casa, Abreu inventou um seqüestro para explicar a ausência do personagem de Autran – e tudo se resolveu.

Dentro da Globo, sabe-se que o clima nos bastidores das gravações é um bom termômetro do desempenho de uma novela. Assim como está na boca do povo, Belíssima também empolga os atores. Nos intervalos das filmagens, eles estão fazendo até um bolão, no qual se aposta quem seria o filho (ou filha) perdido de Bia Falcão e quem teria planejado o atentado contra a vilã. Ninguém perde seu tempo, é claro, perguntando essas coisas a Silvio de Abreu. O noveleiro tem uma resposta na ponta da língua para quem tenta extrair dele a chave para os mistérios de Belíssima: "Jamanta não sabe, Jamanta não viu".

 
 
 
 
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