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Perfil A
estrela do zen-ativismo Já ouviu
falar da monja Coen? Olhe em volta: na TV, no parque, no jornal, na empresa...
 Bel
Moherdaui
Lailson
Santos
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"Buda divulgava o budismo. Ele não
ficava em casa, sozinho. Se tivesse televisão naquela época, tenho
certeza de que ele estaria sempre aparecendo nela." Monja
Coen, pregadora e ciclista |
Parceria
com a prefeitura de São Paulo, palestras para executivos de instituições
de ponta como Petrobras, Banco do Brasil, Sesc e Banco Real (exemplo de tema:
"Vamos fazer de nossa empresa a melhor de todas"; cachê de 1.500 a 2.000
reais), coluna assinada na revista do jornal Agora e participações
freqüentes em programas de TV. A agenda de Cláudia Dias Batista de
Souza, 58 anos, indica uma palestrante de sucesso no campo das platitudes motivacionais
e um nome em ascensão no plantel de convidados dos programas vespertinos
dedicados a formas variadas de auto-ajuda. O que a distingue da concorrência,
no entanto, salta aos olhos: Cláudia usa manto, raspa os cabelos e adotou
o nome de Shin Guetsu Coen. Ou, mais resumidamente, monja Coen, figura freqüente
em eventos públicos de São Paulo e alhures, onde sua figura exótica
chama atenção, sempre distribuindo sorrisos, pílulas de sabedoria
oriental e a sensação de que, se ela está lá, deve
ser coisa moderna, multicultural. Uma amostra de suas atividades recentes: Café
Filosófico no Parque Trianon, marcha contra a discriminação
racial, marcha com moradores de rua, dois atos ecumênicos e uma série
de inaugurações de clínicas, empresas, escritórios
e restaurantes. "Também faço casamentos, enterros, preces nas casas,
bênçãos no trabalho, do carro, da casa e aconselhamento pessoal",
enumera. Cláudia, esclareça-se,
é monja de verdade, com doze penosos anos de formação no
Japão, o berço do zen-budismo, a mais rigorosa e estilizada vertente
da religião oriental importada pelo Ocidente nos primórdios da contracultura,
entre os anos 50 e 60, e ainda hoje opção de alternativos em geral
e celebridades do mundo dos espetáculos em particular. A ubiqüidade
da monja Coen cujo nome quer dizer "mente, lua, só e completa" em
japonês é de dar inveja ao Dalai Lama, especialmente depois
que fechou a parceria com a Secretaria de Saúde da prefeitura de São
Paulo para divulgar sua prática da "meditação com caminhada"
pelos parques da cidade. "Fazemos musculação dos neurônios",
descreve. Sobre a presença na mídia, como dizem os neofamosos, ela
faz uma comparação que, embora algo imodesta, revela o ímpeto
missionário: "Buda divulgava o budismo. Ele não ficava em casa,
sozinho. Se tivesse televisão naquela época, tenho certeza de que
ele estaria sempre aparecendo nela".
Arquivo
Pessoal
 | | Ainda
Cláudia: cabelos compridos e pernas de fora |
A trajetória de Cláudia tem os ingredientes de ascensão e
queda essenciais nas histórias de conversão. Filha de uma pedagoga
e de um professor, cresceu no Pacaembu, bairro rico de São Paulo, e, aos
14 anos, estava casada de véu, grinalda e mãe chorosa no
altar. A filha única, Fábia, nasceu aos 17, à beira da separação
do primeiro marido, o piloto de corrida Antonio Carlos Scavone. Seguiram-se as
seguintes atividades, não necessariamente em ordem: estudante de direito,
jornalista boêmia, professora de inglês, assistente de iluminador
de shows de rock (que começou a freqüentar com os primos Arnaldo Batista
e Sérgio Dias, dos Mutantes), bancária, bailarina e presidiária
em Estocolmo. Flagrada com LSD quando desembarcava de Londres com um namorado
que pretendia vender a droga para voltar ao Brasil, "em vez de negar tudo no tribunal,
falei que aquele LSD ia ser bom porque ia ajudar a salvar a Suécia do suicídio
e do alcoolismo". Foi condenada a seis meses de prisão. Salvaram-se ambas,
Cláudia e a Suécia.
O budismo pintou no maior centro mundial de divulgação da religião:
a Califórnia. Morando em Los Angeles, estudou a doutrina com afinco até
se transmutar em monja Coen. Cabeleira negra raspada, guarda-roupa reduzido a
quimonos e afins, embarcou para um mosteiro feminino em Nagóia. Ao contrário
dos filmes de kung fu, em que o candidato a monge, depois de umas rápidas
cenas, já sai andando pelas paredes e derrotando exércitos, Cláudia
penou longa e nada heroicamente. "Não conhecia a língua nem os costumes.
Eu me sentia excluída. Os primeiros dois anos foram de muito sofrimento
e dor", conta. Viu que começava a dominar a língua quando percebeu
que as outras, quando a criticavam e sempre a criticavam , se referiam
a "ela", sem nome. A primeira meditação era às 4h15. Quem
dormia levava bastonadas. Os monges também cumpriam a tarefa de recolher
donativos. "Em pleno inverno, na neve, íamos pedir aos agricultores. Uma
mão tocava o sino e a outra ia em frente ao rosto. Elas queimavam de tanto
frio", lembra. De volta ao Brasil,
em 1995, com um marido monge dezoito anos mais novo, assumiu o templo Busshinji,
encravado no coração da comunidade japonesa de São Paulo,
no bairro da Liberdade. Arregaçou as mangas do manto e pôs-se a fazer
o que faz melhor: promover o seu produto, com cursos, meditações
e palestras. "O templo deslanchou. De 3.000 reais por mês, passou a faturar
20.000", contabiliza. Junto com o sucesso vieram as críticas e, por fim,
seu afastamento. "Os monges japoneses chegam aqui e acabam construindo um japãozinho
em miniatura. Quando a monja Coen assumiu a liderança do templo e abriu
mais o budismo para os brasileiros, o pessoal não gostou", diz o historiador
das religiões e missionário budista Ricardo Mário Gonçalves,
que estudou lá. Atualmente, ela atua no templo que fundou no bairro de
Pinheiros, ainda pequeno ("trinta membros ativos e 100 flutuantes, pouquíssimos
japoneses"). Chamada de "Dona Monja"
pela cozinheira, Cláudia tem carro, site na internet e celular com musiquinha.
Mora com a mãe, a filha e a neta adolescente, que acompanha em compras
no shopping, onde sua figura naturalmente desperta grande curiosidade. "Ela chama
de templo pagão, não gosta muito, mas vai com a gente", conta a
psicóloga Fábia, 41 anos, responsável por outra deliciosa
inconfidência: a monja também não resiste a um McDonald's.
"Não sou muito carnívora, mas de vez em quando como um hambúrguer",
admite ela. |