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Internacional O
louco da bomba Sob o comando de um presidente
fanático, o Irã ignora as pressões internacionais e
retoma seu programa nuclear  Ruth
Costas
Hamid
Foromtan/AP
 | AP
 | | Mahmoud
Ahmadinejad, que clama pela bomba nuclear islâmica, e uma usina iraniana
sendo vistoriada em 2004: proliferação nuclear |
Durante a Guerra Fria, a humanidade
tremeu sob a ameaça de aniquilação nuclear. Podem-se dizer
duas coisas animadoras a respeito daqueles tempos sombrios. A primeira é
que ela terminou bem. O comunismo foi derrotado pela própria inadequação
de seus métodos e propósitos, sem que uma só bomba atômica
fosse detonada. A outra é que se sabia o tempo todo que os arsenais estavam
em mãos respeitáveis. Nesse segundo aspecto, infelizmente, o mundo
mudou para pior. Na semana passada, o Irã removeu os selos internacionais
de sua usina de enriquecimento de urânio e anunciou o recomeço de
suas pesquisas nucleares. A decisão pôs fim a dois anos de suspensão
voluntária, acertada em um acordo com países da Europa e a Agência
Internacional de Energia Atômica, órgão das Nações
Unidas, e só pode ser interpretada de uma maneira: os aiatolás querem
ter armas atômicas, mesmo que para isso seja preciso enfrentar sanções
internacionais. A idéia de
colocar tecnologia nuclear nas mãos do presidente Mahmoud Ahmadinejad,
o mesmo que diz que o holocausto é uma mentira dos judeus e clama pela
destruição de Israel, é assustadora. Combinação
de fanático e populista, eleito com o voto dos miseráveis da periferia
das cidades iranianas, Ahmadinejad esforça-se para sepultar o que restou
da tímida abertura ao mundo exterior ensaiada por seu antecessor, Mohammed
Khatami. "Trata-se de um risco real", disse a VEJA o americano Leonard Spector,
diretor do Centro de Pesquisas para a Não-Proliferação do
Instituto Monterey de Estudos Internacionais, nos Estados Unidos. "Se tivesse
tecnologia para obter a bomba nuclear, Ahmadinejad não hesitaria em usá-la
contra Israel ou qualquer outro país que considerasse seu inimigo."
O Irã sustenta que seus esforços são modestos e pacíficos.
Oficialmente, o urânio será enriquecido a apenas 5%, potência
suficiente para acionar usinas geradoras de energia elétrica, mas bem abaixo
dos 90% exigidos para armar uma bomba. O problema é que a tecnologia empregada
em ambos os casos é a mesma. Durante dezoito anos, os aiatolás mantiveram
em segredo suas atividades nucleares, até ser denunciados por dissidentes
em 2002. Nesse período, negociaram com Abdul Qadeer Khan, o pai da bomba
atômica do Paquistão, que também vendeu projetos nucleares
à Coréia do Norte e à Líbia. O Irã ainda colabora
com a Coréia do Norte para desenvolver mísseis de longo alcance,
capazes de levar artefatos nucleares. É um conjunto de atitudes sinistras.
Ainda que Israel pareça o país
em maior perigo, o programa nuclear do Irã desestabiliza toda a região.
A Arábia Saudita, o Egito, a Síria e a Turquia, apenas para citar
os quatro mais óbvios, logo estarão correndo atrás da bomba.
Da mesma forma que George W. Bush quer espalhar a democracia pelo mundo, Ahmadinejad
e sua turma estão comprometidos com a missão de expandir a revolução
islâmica. Do ponto de vista deles, isso significa principalmente libertar
as populações xiitas no restante do mundo islâmico. É
difícil determinar por que os aiatolás decidiram afrontar o mundo
exatamente agora, mas há algumas pistas. Uma delas é a relativa
tranqüilidade. Seu maior inimigo, o Iraque, não apenas foi colocado
de joelhos pelos Estados Unidos, como agora é governado por religiosos
xiitas, gente que busca inspiração nos turbantes negros do Irã.
O Exército americano está na fronteira, é verdade, mas sem
fôlego para uma nova aventura militar.
Outro motivo é econômico: com a quarta maior produção
de petróleo do mundo, os iranianos confiam que os países industrializados
vão relutar em aprovar sanções comerciais contra eles, temendo
uma alta no preço dos combustíveis. Não há muito que
a comunidade internacional possa fazer de efetivo para dobrar os fanáticos
com renda petrolífera anual de 50 bilhões de dólares
exceto, evidentemente, iniciar uma guerra. Os Estados Unidos e os principais países
da Europa querem levar o caso para o Conselho de Segurança da ONU, onde
se poderá votar pela aplicação de sanções econômicas
e diplomáticas. Ahmadinejad não teme o isolamento internacional.
Na verdade, ele o deseja. "A estratégia dele é transformar o confronto
com o Ocidente em uma desculpa para ampliar e consolidar o poder dos políticos
e religiosos linha-dura dentro do Irã", disse a VEJA o cientista político
iraniano Abbas Milani, diretor do programa de estudos iranianos na Universidade
Stanford, nos Estados Unidos. Calcula-se que o Irã esteja a cinco anos
de ter um arsenal nuclear pronto para ser usado. É o tempo que se tem para
evitar que um louco ponha as mãos na bomba. |