Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Internacional
O louco da bomba

Sob o comando de um presidente fanático,
o Irã ignora as pressões internacionais
e retoma seu programa nuclear


Ruth Costas


Hamid Foromtan/AP
AP
Mahmoud Ahmadinejad, que clama pela bomba nuclear islâmica, e uma usina iraniana sendo vistoriada em 2004: proliferação nuclear

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Durante a Guerra Fria, a humanidade tremeu sob a ameaça de aniquilação nuclear. Podem-se dizer duas coisas animadoras a respeito daqueles tempos sombrios. A primeira é que ela terminou bem. O comunismo foi derrotado pela própria inadequação de seus métodos e propósitos, sem que uma só bomba atômica fosse detonada. A outra é que se sabia o tempo todo que os arsenais estavam em mãos respeitáveis. Nesse segundo aspecto, infelizmente, o mundo mudou para pior. Na semana passada, o Irã removeu os selos internacionais de sua usina de enriquecimento de urânio e anunciou o recomeço de suas pesquisas nucleares. A decisão pôs fim a dois anos de suspensão voluntária, acertada em um acordo com países da Europa e a Agência Internacional de Energia Atômica, órgão das Nações Unidas, e só pode ser interpretada de uma maneira: os aiatolás querem ter armas atômicas, mesmo que para isso seja preciso enfrentar sanções internacionais.

A idéia de colocar tecnologia nuclear nas mãos do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o mesmo que diz que o holocausto é uma mentira dos judeus e clama pela destruição de Israel, é assustadora. Combinação de fanático e populista, eleito com o voto dos miseráveis da periferia das cidades iranianas, Ahmadinejad esforça-se para sepultar o que restou da tímida abertura ao mundo exterior ensaiada por seu antecessor, Mohammed Khatami. "Trata-se de um risco real", disse a VEJA o americano Leonard Spector, diretor do Centro de Pesquisas para a Não-Proliferação do Instituto Monterey de Estudos Internacionais, nos Estados Unidos. "Se tivesse tecnologia para obter a bomba nuclear, Ahmadinejad não hesitaria em usá-la contra Israel ou qualquer outro país que considerasse seu inimigo."

O Irã sustenta que seus esforços são modestos e pacíficos. Oficialmente, o urânio será enriquecido a apenas 5%, potência suficiente para acionar usinas geradoras de energia elétrica, mas bem abaixo dos 90% exigidos para armar uma bomba. O problema é que a tecnologia empregada em ambos os casos é a mesma. Durante dezoito anos, os aiatolás mantiveram em segredo suas atividades nucleares, até ser denunciados por dissidentes em 2002. Nesse período, negociaram com Abdul Qadeer Khan, o pai da bomba atômica do Paquistão, que também vendeu projetos nucleares à Coréia do Norte e à Líbia. O Irã ainda colabora com a Coréia do Norte para desenvolver mísseis de longo alcance, capazes de levar artefatos nucleares. É um conjunto de atitudes sinistras.

Ainda que Israel pareça o país em maior perigo, o programa nuclear do Irã desestabiliza toda a região. A Arábia Saudita, o Egito, a Síria e a Turquia, apenas para citar os quatro mais óbvios, logo estarão correndo atrás da bomba. Da mesma forma que George W. Bush quer espalhar a democracia pelo mundo, Ahmadinejad e sua turma estão comprometidos com a missão de expandir a revolução islâmica. Do ponto de vista deles, isso significa principalmente libertar as populações xiitas no restante do mundo islâmico. É difícil determinar por que os aiatolás decidiram afrontar o mundo exatamente agora, mas há algumas pistas. Uma delas é a relativa tranqüilidade. Seu maior inimigo, o Iraque, não apenas foi colocado de joelhos pelos Estados Unidos, como agora é governado por religiosos xiitas, gente que busca inspiração nos turbantes negros do Irã. O Exército americano está na fronteira, é verdade, mas sem fôlego para uma nova aventura militar.

Outro motivo é econômico: com a quarta maior produção de petróleo do mundo, os iranianos confiam que os países industrializados vão relutar em aprovar sanções comerciais contra eles, temendo uma alta no preço dos combustíveis. Não há muito que a comunidade internacional possa fazer de efetivo para dobrar os fanáticos com renda petrolífera anual de 50 bilhões de dólares – exceto, evidentemente, iniciar uma guerra. Os Estados Unidos e os principais países da Europa querem levar o caso para o Conselho de Segurança da ONU, onde se poderá votar pela aplicação de sanções econômicas e diplomáticas. Ahmadinejad não teme o isolamento internacional. Na verdade, ele o deseja. "A estratégia dele é transformar o confronto com o Ocidente em uma desculpa para ampliar e consolidar o poder dos políticos e religiosos linha-dura dentro do Irã", disse a VEJA o cientista político iraniano Abbas Milani, diretor do programa de estudos iranianos na Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Calcula-se que o Irã esteja a cinco anos de ter um arsenal nuclear pronto para ser usado. É o tempo que se tem para evitar que um louco ponha as mãos na bomba.

 
 
 
 
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