Edição 1939 . 18 de janeiro de 2006

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Internacional
Um suicídio no
atoleiro do Haiti

A morte do general brasileiro que
comandava as tropas da ONU expõe
os problemas da missão no país


José Eduardo Barella


Ariana Cubillos/AP
O general Urano Bacellar: a primeira baixa brasileira no Haiti


O governo brasileiro esperava que o comando das forças internacionais de paz no Haiti servisse para abrir caminho para uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. A avaliação do Itamaraty era a de que a missão não trazia grandes riscos para as tropas brasileiras e duraria apenas seis meses. Um ano e meio depois, os soldados ainda estão no Haiti, a violência no país caribenho aumentou e o Brasil, por obra de outros fiascos diplomáticos, nunca esteve tão distante de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Na manhã de sábado, dia 7, somou-se a esse quadro uma tragédia: a morte do general Urano Teixeira da Matta Bacellar. O corpo do militar brasileiro, que comandava a força de 7.265 capacetes azuis no Haiti desde agosto passado, foi encontrado na varanda do quarto de hotel onde morava, em Porto Príncipe. Ele morreu com um tiro na boca – disparado de sua própria arma. Não havia sinais de luta corporal, o quarto estava arrumado e os peritos da ONU encontraram vestígios de pólvora em uma de suas mãos. Concluíram que foi suicídio.

Bacellar, o primeiro brasileiro a perder a vida no Haiti, tinha 58 anos e estava no auge de sua carreira militar. Havia substituído o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, primeiro comandante da missão. Um amigo conta que ele aceitou a tarefa com profissionalismo, mas sem entusiasmo. Segundo amigos do general, ele costumava dizer que pretendia levar uma vida mais tranqüila quando voltasse ao Brasil. O gesto extremo foi uma surpresa para a família, que não percebia nele sinais de depressão. No Haiti, os colegas lembram dele como um homem de temperamento calado e retraído – mas parte dessa impressão pode ser atribuída à comparação com o comportamento expansivo de seu antecessor, o general Augusto Heleno. No dia anterior à sua morte, ele telefonou à família, no Rio de Janeiro, onde a mulher, Maria Ignez, e seus filhos, Rodrigo e Mariana, estavam reunidos após o feriado de fim de ano. Os filhos moram nos Estados Unidos e, como o pai, vieram do exterior para o Natal. A conversa foi amena e o general chegou a traçar planos para o futuro. "O general Bacellar era muito apegado à família e tinha com a mulher uma relação tão carinhosa que os dois pareciam um casal de namorados", diz o embaixador do Brasil em Porto Príncipe, Paulo Cordeiro Andrade Pinto.


Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
A dor da mulher de Bacellar, Maria Ignez (de rosa), durante o enterro: visita à família nos feriados de Natal

A hipótese de que o suicídio do general tenha alguma relação com dificuldades enfrentadas na missão haitiana é descartada pelo chefe da missão diplomática da ONU no Haiti, o embaixador chileno Juan Gabriel Valdés. "A morte do general Bacellar aconteceu em um momento difícil, a três semanas das eleições e com a violência no país crescendo", disse Valdés a VEJA. "Apesar disso, não acredito que os problemas da missão tenham influência nessa tragédia, porque Bacellar era um militar experiente e equilibrado." O caráter da carreira militar, em que as demonstrações de fraqueza são desestimuladas e os comandantes raramente deixam transparecer seus sentimentos mesmo aos subordinados mais próximos, torna ainda mais difícil saber o que realmente se passava na cabeça do general e que problemas pessoais ou profissionais ele enfrentava. O fato é que sua morte ocorre em um dos períodos mais delicados da intervenção internacional no Haiti.

Recebidas inicialmente com entusiasmo pela população, as tropas da ONU não estão conseguindo impedir o aumento da violência. Os militares brasileiros acabaram reduzidos a realizar tarefas policiais, do tipo que recusaram nas favelas do Rio. Nos últimos oito meses, 700 civis e sete capacetes azuis morreram em tiroteios iniciados por bandos armados que atuam nas favelas que cercam a capital. O desgaste da missão da ONU aumentou com a dificuldade das tropas em conter a onda de seqüestros – são em média dez casos por dia. Recentemente, um vendedor ambulante da capital foi libertado depois que a família pagou o equivalente a 70 reais de resgate. Na véspera da morte de Bacellar, os comerciantes da capital haviam convocado uma greve de 24 horas para protestar contra a falta de segurança.


Paulo Vitale
Multidão em uma feira em Gonaives, no interior: de cada dez haitianos, oito vivem na miséria

A missão da ONU foi enviada ao Haiti depois que o presidente Jean-Bertrand Aristide se viu deposto por uma das periódicas explosões de selvageria popular e política, em fevereiro de 2004. A intenção da ONU era assegurar o processo de transição política até a realização de eleições gerais. Foi uma das raras iniciativas diplomáticas internacionais em que o Brasil e os Estados Unidos estiveram de acordo desde o princípio – com a diferença de que os americanos se recusaram a enviar suas tropas para o buraco sem fundo da ilha caribenha. A violência endêmica, a corrupção e a miséria, no entanto, sabotaram mais uma tentativa de organização do país, o mais pobre da América. De cada dez haitianos, oito estão na miséria e sete não têm emprego. A população está frustrada com a ausência de obras para a construção de hospitais, escolas e usinas de tratamento de água, promessas feitas por organismos internacionais como o Banco Mundial, FMI e Banco Interamericano de Desenvolvimento, juntamente com a chegada das tropas da ONU. A demora se deve em boa parte à baderna e à corrupção no governo provisório haitiano, que desafiam a boa vontade da comunidade internacional.

A falta de segurança e o caos político-social fizeram também com que as eleições para a Assembléia Nacional e a Presidência fossem adiadas quatro vezes desde outubro. Na semana passada, ficou acertado que a votação acontecerá no dia 7 de fevereiro. Há outros problemas pendentes, como a rixa entre as forças de paz. Encarregado de uma área da capital, Porto Príncipe, que inclui o porto e duas favelas, o destacamento brasileiro, de 1.200 homens, reclama que os jordanianos, responsáveis por patrulhar uma favela vizinha, nada fazem para impedir que sua área seja usada como cativeiro pelos seqüestradores. O Brasil já entregou o nome de dois militares para que a ONU escolha o novo comandante da missão. Mas a morte do general Bacellar tornou público um debate que até agora vinha sendo travado na surdina em Brasília. O tema é a conveniência para os interesses nacionais da expressiva presença brasileira no atoleiro do Haiti. Restam poucas justificativas para continuar por lá.

Com reportagem de Ronaldo França

 
 
 
 
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