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Internacional
Um suicídio no
atoleiro do Haiti
A morte
do general brasileiro que
comandava as tropas da ONU expõe
os problemas da missão no país

José Eduardo Barella
Ariana Cubillos/AP
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| O general Urano Bacellar: a primeira baixa
brasileira no Haiti |
O governo brasileiro esperava que o comando das forças internacionais
de paz no Haiti servisse para abrir caminho para uma vaga permanente
no Conselho de Segurança da ONU. A avaliação
do Itamaraty era a de que a missão não trazia grandes
riscos para as tropas brasileiras e duraria apenas seis meses. Um
ano e meio depois, os soldados ainda estão no Haiti, a violência
no país caribenho aumentou e o Brasil, por obra de outros
fiascos diplomáticos, nunca esteve tão distante de
uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Na manhã
de sábado, dia 7, somou-se a esse quadro uma tragédia:
a morte do general Urano Teixeira da Matta Bacellar. O corpo do
militar brasileiro, que comandava a força de 7.265 capacetes
azuis no Haiti desde agosto passado, foi encontrado na varanda do
quarto de hotel onde morava, em Porto Príncipe. Ele morreu
com um tiro na boca disparado de sua própria arma.
Não havia sinais de luta corporal, o quarto estava arrumado
e os peritos da ONU encontraram vestígios de pólvora
em uma de suas mãos. Concluíram que foi suicídio.
Bacellar,
o primeiro brasileiro a perder a vida no Haiti, tinha 58 anos e
estava no auge de sua carreira militar. Havia substituído
o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, primeiro comandante da
missão. Um amigo conta que ele aceitou a tarefa com profissionalismo,
mas sem entusiasmo. Segundo amigos do general, ele costumava dizer
que pretendia levar uma vida mais tranqüila quando voltasse
ao Brasil. O gesto extremo foi uma surpresa para a família,
que não percebia nele sinais de depressão. No Haiti,
os colegas lembram dele como um homem de temperamento calado e retraído
mas parte dessa impressão pode ser atribuída
à comparação com o comportamento expansivo
de seu antecessor, o general Augusto Heleno. No dia anterior à
sua morte, ele telefonou à família, no Rio de Janeiro,
onde a mulher, Maria Ignez, e seus filhos, Rodrigo e Mariana, estavam
reunidos após o feriado de fim de ano. Os filhos moram nos
Estados Unidos e, como o pai, vieram do exterior para o Natal. A
conversa foi amena e o general chegou a traçar planos para
o futuro. "O general Bacellar era muito apegado à família
e tinha com a mulher uma relação tão carinhosa
que os dois pareciam um casal de namorados", diz o embaixador do
Brasil em Porto Príncipe, Paulo Cordeiro Andrade Pinto.
Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
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| A dor da mulher de Bacellar, Maria Ignez
(de rosa), durante o enterro: visita à família
nos feriados de Natal |
A hipótese
de que o suicídio do general tenha alguma relação
com dificuldades enfrentadas na missão haitiana é
descartada pelo chefe da missão diplomática da ONU
no Haiti, o embaixador chileno Juan Gabriel Valdés. "A morte
do general Bacellar aconteceu em um momento difícil, a três
semanas das eleições e com a violência no país
crescendo", disse Valdés a VEJA. "Apesar disso, não
acredito que os problemas da missão tenham influência
nessa tragédia, porque Bacellar era um militar experiente
e equilibrado." O caráter da carreira militar, em que as
demonstrações de fraqueza são desestimuladas
e os comandantes raramente deixam transparecer seus sentimentos
mesmo aos subordinados mais próximos, torna ainda mais difícil
saber o que realmente se passava na cabeça do general e que
problemas pessoais ou profissionais ele enfrentava. O fato é
que sua morte ocorre em um dos períodos mais delicados da
intervenção internacional no Haiti.
Recebidas
inicialmente com entusiasmo pela população, as tropas
da ONU não estão conseguindo impedir o aumento da
violência. Os militares brasileiros acabaram reduzidos a realizar
tarefas policiais, do tipo que recusaram nas favelas do Rio. Nos
últimos oito meses, 700 civis e sete capacetes azuis morreram
em tiroteios iniciados por bandos armados que atuam nas favelas
que cercam a capital. O desgaste da missão da ONU aumentou
com a dificuldade das tropas em conter a onda de seqüestros
são em média dez casos por dia. Recentemente,
um vendedor ambulante da capital foi libertado depois que a família
pagou o equivalente a 70 reais de resgate. Na véspera da
morte de Bacellar, os comerciantes da capital haviam convocado uma
greve de 24 horas para protestar contra a falta de segurança.
Paulo Vitale
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| Multidão em uma feira em Gonaives,
no interior: de cada dez haitianos, oito vivem na miséria
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A missão
da ONU foi enviada ao Haiti depois que o presidente Jean-Bertrand
Aristide se viu deposto por uma das periódicas explosões
de selvageria popular e política, em fevereiro de 2004. A
intenção da ONU era assegurar o processo de transição
política até a realização de eleições
gerais. Foi uma das raras iniciativas diplomáticas internacionais
em que o Brasil e os Estados Unidos estiveram de acordo desde o
princípio com a diferença de que os americanos
se recusaram a enviar suas tropas para o buraco sem fundo da ilha
caribenha. A violência endêmica, a corrupção
e a miséria, no entanto, sabotaram mais uma tentativa de
organização do país, o mais pobre da América.
De cada dez haitianos, oito estão na miséria e sete
não têm emprego. A população está
frustrada com a ausência de obras para a construção
de hospitais, escolas e usinas de tratamento de água, promessas
feitas por organismos internacionais como o Banco Mundial, FMI e
Banco Interamericano de Desenvolvimento, juntamente com a chegada
das tropas da ONU. A demora se deve em boa parte à baderna
e à corrupção no governo provisório
haitiano, que desafiam a boa vontade da comunidade internacional.
A falta de
segurança e o caos político-social fizeram também
com que as eleições para a Assembléia Nacional
e a Presidência fossem adiadas quatro vezes desde outubro.
Na semana passada, ficou acertado que a votação acontecerá
no dia 7 de fevereiro. Há outros problemas pendentes, como
a rixa entre as forças de paz. Encarregado de uma área
da capital, Porto Príncipe, que inclui o porto e duas favelas,
o destacamento brasileiro, de 1.200 homens, reclama que os jordanianos,
responsáveis por patrulhar uma favela vizinha, nada fazem
para impedir que sua área seja usada como cativeiro pelos
seqüestradores. O Brasil já entregou o nome de dois
militares para que a ONU escolha o novo comandante da missão.
Mas a morte do general Bacellar tornou público um debate
que até agora vinha sendo travado na surdina em Brasília.
O tema é a conveniência para os interesses nacionais
da expressiva presença brasileira no atoleiro do Haiti. Restam
poucas justificativas para continuar por lá.
Com
reportagem de Ronaldo França
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