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Economia e Negócios
A maior bolha
econômica da história
Febre imobiliária infla o patrimônio
dos
americanos em 5 trilhões de dólares.
Mas essa festa pode ter um final triste

Chrystiane Silva e Giuliano Guandalini
Em 1991, o valor somado dos imóveis
do Japão atingiu 18 trilhões de dólares, quatro
vezes o preço de todos os prédios e casas dos Estados
Unidos na época. Apenas o terreno do Palácio Imperial,
em Tóquio, valia mais que todas as casas e prédios
da Califórnia juntos. Embora fosse o auge da ascensão
econômica e financeira do Japão, o preço estava
muito além de quaisquer bons fundamentos econômicos.
A bolha estourou, e vários dos bancos que financiaram a especulação
imobiliária quebraram. O Japão entrou num longo período
de estagnação econômica e os imóveis
agora custam a metade do que custavam naquela época. Passados
quinze anos, são os Estados Unidos que experimentam o mesmo
fenômeno só que em dimensões e com riscos
muito maiores.
Os dados são impressionantes:
nos últimos dez anos, o preço médio das novas
casas subiu 85%; metade dos empregos criados no setor privado americano
desde 2001 relaciona-se ao setor imobiliário ou afins; em
Manhattan, coração de Nova York, um apartamento de
dois quartos custa em média 1,2 milhão de dólares.
Diz-se que bolhas econômicas existem quando o preço
de um determinado ativo sobe muito mais do que os conceitos econômicos
conseguem explicar. É o que estaria ocorrendo hoje, segundo
a maioria esmagadora dos economistas. Prova disso, dizem eles, é
que a inflação, a renda e até os aluguéis
nos EUA não acompanharam esses preços. Nos últimos
dez anos, por exemplo, o valor do metro quadrado em Manhattan subiu
130%. No mesmo período, a inflação americana
ficou em 25%. Se há uma bolha, como sustentam os economistas,
ela um dia vai estourar, criando crises em cascata. Uma queda abrupta
nos preços deixaria os americanos menos ricos e afetaria
o crédito e o consumo o que provavelmente afundaria
o país numa recessão, com efeitos óbvios sobre
toda a economia mundial. Na prática, se o preço dos
imóveis despencar, os mutuários não conseguirão
quitar os empréstimos que contraíram para comprá-los.
A maioria dá o calote nos bancos, que, para ajustar seus
balanços, cortam empréstimos às empresas. Daí
à recessão é um pulo. Esse é o roteiro
normal. Mas nesse caso existe uma agravante. Os consumidores e o
ágil sistema financeiro americano descobriram uma maneira
de ganhar ainda mais dinheiro com a própria bolha, usando
suas casas como verdadeiros caixas eletrônicos. O mecanismo
funciona da seguinte maneira: um imóvel comprado por 100.000
dólares há cinco anos pode valer hoje 150.000 dólares;
o comprador vai até o banco, renegocia a hipoteca e faz um
empréstimo dando como garantia essa valorização
de 50.000 dólares. Se o preço dos imóveis desabar
de uma hora para outra, o dono da casa terá dificuldades
para quitar o empréstimo e fatalmente reduzirá os
gastos de consumo. Como milhões de famílias americanas
embarcaram na febre imobiliária, o estouro na bolha teria
um grande efeito em cadeia em toda a economia do país, com
possíveis abalos no sistema financeiro.
Essa bolha, inflada pelas baixas
taxas de juro, é atualmente o principal propulsor do crescimento
da economia americana. A valorização anormal no preço
das moradias tornou os americanos 5 trilhões de dólares
mais ricos em dez anos, já descontada a inflação.
Parte dessa montanha de dinheiro transformou-se em gastos, o que
sustentou os elevados níveis de consumo no país nos
últimos anos e mais que atenuou a alta do petróleo.
O problema é que nenhum economista acredita que essa febre
imobiliária se sustente, e, de fato, já existem sinais
de arrefecimento no mercado imobiliário americano. O estouro
dessa bolha é apontado pelos principais economistas do planeta
como um dos maiores riscos para a economia mundial. A grande incógnita
é saber até quando essa bolha durará
e qual será o tamanho do tombo quando o ajuste nos preços
fatalmente ocorrer. Segundo cálculos do economista Dean Baker,
do Center for Economic and Policy Research, o fim da bolha poderia
significar uma queda entre 3,6 e 4,5 pontos porcentuais na taxa
de crescimento do PIB. Ou seja, deixaria o país à
beira de uma recessão. Isso ocorreria por dois motivos: um
direto, que é a queda na atividade imobiliária; outro
indireto, que é a freada no consumo que resultaria da eliminação
do efeito riqueza. Outros economistas não acreditam em cenários
catastrofistas. "O ajuste será feito com gradualismo, não
haverá mudanças abruptas que prejudiquem mutuários
ou que façam a maior economia do mundo perder o equilíbrio",
diz Mauro Miranda, especialista em investimento imobiliário
da Fundação Getulio Vargas. E o que aconteceria com
o Brasil se a bolha estourasse? Teoricamente, a redução
no consumo americano afetaria as exportações brasileiras,
mas não se sabe em que proporção. Riscos como
esse fazem lembrar que a atual fase de crescimento da economia mundial
não será eterna. E exigem de países como o
Brasil pressa nas reformas que geralmente ficam na gaveta em tempos
de bonança.
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