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Brasil
A pancada de Alckmin
Governador paulista tenta ganhar à força
a vaga de candidato tucano à Presidência

Fábio Portela
O governador de São Paulo,
Geraldo Alckmin, é famoso pela temperança e pelo estilo
cordato. Mas, nos últimos dias, ele anda irreconhecível.
Ameaçou renunciar ao cargo para concorrer à Presidência
da República. Foi um movimento para tentar encurralar o prefeito
José Serra, que também quer se mudar para o Palácio
do Planalto. Depois que o prefeito disparou nas pesquisas eleitorais,
Alckmin decidiu que precisava fazer uma jogada de efeito para evitar
que a candidatura do PSDB fosse parar no colo de Serra. Seus conselheiros
chegaram a sugerir que ele abandonasse imediatamente o governo para
constranger o partido a lançá-lo à sucessão
de Lula. O governador adotou uma versão mais branda da tática
"vão ter de me engolir". No domingo passado, aproveitou um
show de hip hop em uma escola estadual para anunciar que abandonará
seu posto até 1º de abril para concorrer a presidente,
e que não aceita disputar nenhum outro cargo.
Alckmin ganhou as manchetes de
jornais, recolocou seu nome no páreo e intimidou os aliados
de Serra. O governador recebeu dezenas de telefonemas de apoio de
políticos tucanos. Os jornais trataram sua iniciativa como
um gesto de "ousadia e coragem", que teria realmente emparedado
seu adversário. A cúpula do PSDB se encarregou de
esconder os efeitos colaterais do "dia do saio" de Alckmin. Sua
declaração causou mal-estar no partido e ele se viu
obrigado a procurar os cardeais tucanos a fim de se explicar. Telefonou
para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e para os governadores
do partido. Entre eles, o mineiro Aécio Neves, outro presidenciável
tucano. Em todas as conversas, repetiu que não imaginava
que sua entrevista teria tanta repercussão e que não
pretendia pressionar a cúpula partidária. O que os
cardeais gostariam, no entanto, de ter ouvido de Alckmin é
que ele apoiará a decisão do partido, ainda que ela
seja favorável a Serra. O PSDB teme que a eleição
deste ano repita o racha que, em 2002, separou em campos opostos
Serra e o atual presidente da agremiação, Tasso Jereissati.
Os tucanos acreditam que essa ruptura está entre as causas
da derrota para o PT.
A declaração de
Alckmin foi especialmente mal digerida por Aécio Neves, que
veio a público para criticar "atitudes individualistas" no
tucanato. Aécio, que já foi um dos aliados de Alckmin,
aproximou-se de Serra no fim do ano passado. Para conquistá-lo,
o prefeito disse que, se chegar ao Planalto, não concorrerá
a um segundo mandato. Como garantia, pediu a um de seus aliados
que encaminhasse ao Congresso um projeto de emenda constitucional
acabando com a reeleição. Essa saída vai ao
encontro dos projetos de Aécio, que deseja ser candidato
em 2010. A aliança de Serra e Aécio acuou Alckmin,
que acreditava que a competente boa gestão no governo de
São Paulo seria suficiente para garantir o apoio do PSDB
às suas pretensões presidenciais.
O governador paulista perdeu
espaço porque se isolou no Palácio dos Bandeirantes,
enquanto Serra se empenhava em conquistar apoios em outros estados.
Alckmin distanciou-se da bancada de deputados do PSDB e deixou que
o prefeito mantivesse o controle do partido. Estima-se que Serra
conte hoje com a simpatia de, pelo menos, 60% dos integrantes da
executiva do seu partido. O que é mais grave para Alckmin,
no entanto, é que ele perde por larga margem para seu rival
nas pesquisas de intenção de voto. Os levantamentos
apontam Serra como o único candidato capaz de derrotar Lula
no primeiro turno. Alckmin aparece bem atrás do petista.
Pior: está empatado com o ex-governador do Rio Anthony Garotinho,
do PMDB. Essa performance afugenta os tucanos indecisos e põe
em risco a realização de alianças com outros
partidos, que recebem poucos afagos do governador paulista. O principal
deles é o PFL, que deve indicar o vice na chapa do PSDB.
Em 2001, o presidente do partido,
Jorge Bornhausen, lançou Alckmin à Presidência.
Foi um gesto importante, porque, nessa ocasião, nem os tucanos
cogitavam seu nome. Além disso, Bornhausen era um inimigo
público de Serra. Bastaria, portanto, que Alckmin mantivesse
o diálogo com o cacique pefelista. O governador silenciou.
Na semana passada, teve de apelar a seu vice, Cláudio Lembo,
para reunir-se com Bornhausen. O encontro só serviu para
fotos. O senador catarinense apareceu acompanhado do vice de Serra,
Gilberto Kassab, que anda interessadíssimo em ver o prefeito
no Planalto. Com Kassab na sala, não se tratou de nada relevante.
Enquanto Alckmin pensava apenas na administração do
estado, Serra remendou sua relação com Bornhausen,
que passou a ser contado como seu aliado.
Os próximos 45 dias serão
cruciais para o governador de São Paulo. Nesse prazo, Alckmin
precisa construir pontes com as lideranças dos partidos aliados.
Também terá de provar que é capaz de manter
a unidade do PSDB, que foi abalada pela sua impetuosidade recém-adquirida.
"Ninguém é candidato sozinho. Os eleitores não
nos darão uma nova chance de governar o Brasil se não
mostrarmos que temos unidade no partido", diz o senador Arthur Virgílio.
O principal desafio de Alckmin, no entanto, é melhorar nas
pesquisas. O PSDB só lhe dará a vaga se ele provar
que é capaz de ficar à frente de Lula já no
primeiro turno.
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