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Brasil
Festa no exterior Receita
rastreia mais de 1 700 pessoas que movimentaram contas suspeitas nos Estados
Unidos  Ronaldo
Soares
Fernando
Quevedo/Ag. O Globo
 | | Cláudia
Raia: operação no MTB |
O
doleiro Toninho da Barcelona não estava exagerando quando disse à
CPI dos Correios que o MTB Bank, um dos bancos americanos que funcionavam como
lavanderia de dinheiro de brasileiros, foi usado "por toda a sociedade" para remeter
dinheiro ao exterior entre 1985 e 2003. Sua declaração faz sentido
quando se analisa a imensa base de dados gerada pela CPI do Banestado a partir
de informações bancárias enviadas pelas autoridades americanas
ao Brasil. No rastreamento feito até agora para identificar brasileiros
que movimentaram dinheiro no exterior por meio de doleiros, em operações
de débito ou crédito não comunicadas ao Banco Central, constam
os nomes de pessoas (físicas e jurídicas) das mais diferentes áreas
de atuação, de bicheiro a delegado de polícia, de artista
plástico a industrial, de estilista a fabricante de pneus, de jogador de
futebol a jornalista. A mais recente análise dos documentos referentes
às operações de 2000 em contas mantidas por doleiros em quatro
instituições financeiras investigadas nos Estados Unidos
gerou cerca de 1 700 representações fiscais emitidas nos últimos
meses pela Receita Federal. Um dos
contribuintes no alvo do Fisco é a Petrobras, que nos dados bancários
enviados aos investigadores brasileiros aparece movimentando 325.807 dólares
na conta da offshore Azteca Financial Corporation no MTB Bank de Nova York em
2000. Nos extratos constam duas operações na Azteca naquele ano,
uma de crédito para a offshore (172.771 dólares) e a outra de débito
(153.036), em que a Petrobras é a beneficiária. É um tanto
estranho, convenhamos, que uma estatal tenha relações com uma offshore
com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e controlada por doleiros de São
Paulo. Outro caso detectado pela Receita no mesmo ano, mas com valor de operação
bem mais elevado, foi o das Casas Bahia, empresa fundada por Samuel Klein e dirigida
por seu filho, Michael. O nome da maior rede varejista do Brasil aparece em uma
transferência de 1,06 milhão de dólares no MTB Bank, feita
pela Agata International a mesma offshore relacionada a depósitos
em favor do publicitário Duda Mendonça no exterior para uma
conta no banco italiano Ambrosiano Veneto.
Sebastião
Moreira/AE
 | | A
família Klein, das Casas Bahia: movimentação de 1 milhão
de dólares via offshore |
A Receita trabalhou os dados referentes a 2000 nas contas investigadas, porque
no ano passado terminaria o prazo, previsto em lei, de cinco anos para o lançamento
da cobrança do que o órgão supõe que lhe seja devido.
A representação fiscal não significa que o contribuinte tenha
cometido crime, mas é um indício de sonegação fiscal.
Nesse caso, uma vez quitado o débito que vier a ser apurado (normalmente
com o pagamento de multa mais os juros sobre o imposto que deixou de ser recolhido)
ou caso o Fisco seja convencido de que não houve irregularidade, extingue-se
a pendência no âmbito fiscal. No entanto, o contribuinte fica sujeito
a sanções penais caso a apuração continue tramitando
na Polícia Federal e no Ministério Público Federal
e pode vir a responder por crimes como evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
Os extratos do MTB apontaram ainda
uma operação em que a atriz Cláudia Raia foi identificada
pela Receita como beneficiária de um depósito de 200.000 dólares
feito em 2000 pela offshore Depolo Corporation, controlada por doleiros com atuação
no Rio e em São Paulo. Também surgiu em operações
suspeitas o nome do jogador Roger, do Corinthians, que em 2001 e 2002 movimentou
150.000 dólares em uma das contas da Beacon Hill, empresa fechada em 2003
pelas autoridades americanas sob acusação de lavagem de dinheiro.
Até agora, os dados bancários enviados pelos Estados Unidos permitiram
identificar, só nas investigações sobre a Beacon Hill, mais
de 9.500 contribuintes com dinheiro suspeito no exterior. Em geral, as operações
eram feitas pelo sistema dólar cabo, em que o doleiro movimenta lá
fora a quantia determinada pelo cliente e recebe o valor equivalente no Brasil,
cobrando uma comissão pelo serviço. A abertura da caixa-preta da
lavanderia brasileira só foi possível graças à cooperação
iniciada a partir do caso Banestado entre as autoridades brasileiras principalmente
Polícia Federal e Ministério Público Federal e as
americanas, representadas pela Promotoria de Nova York e pelo Departamento de
Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS). Hoje, os americanos se encontram
tão familiarizados com o universo dos colegas brasileiros que, nos contatos
com eles, deixam de lado a forma clássica de definição dos
investigados illegal money transmitters e preferem usar a
terminologia que aprenderam com seus pares (com sotaque, é claro): "doleros".
Sebastião
Moreira/AE
 | | O
corintiano Roger: movimentação de 150 000 dólares em conta
em Nova York, sem declaração |
A Receita não dá informações
sobre o andamento das representações fiscais nem se elas já
foram repassadas aos contribuintes identificados. Existe um acordo firmado entre
os órgãos envolvidos nas investigações para que a
Receita dê prioridade aos casos em que estejam envolvidos agentes públicos
e às movimentações financeiras de maior vulto. Isso pode
explicar o fato de os citados nesta reportagem alegarem não ter tomado
conhecimento das representações fiscais. A Petrobras informou que
a empresa não opera com doleiros e que suas operações cambiais
são "sistematicamente registradas" no Banco Central. Em nota enviada por
sua assessoria, Cláudia Raia informou que paga impostos e taxas em dia.
"Isso está em minhas declarações fiscais", afirmou. O empresário
do jogador Roger, Mauro Azevedo, disse que tanto ele quanto o atleta desconhecem
as operações citadas pela Receita e que o fato "causou estranheza"
a eles. A assessoria das Casas Bahia informou que a empresa não se pronunciaria
porque ainda não recebeu a notificação da Receita.
O monumental volume de recursos no exterior (veja quadro abaixo) detectado
pela base de dados da CPI do Banestado reativou uma antiga discussão e
motivou um projeto de lei, em tramitação na Câmara, que concede
anistia fiscal aos contribuintes que possuem recursos não declarados no
exterior. O problema seria a contrapartida: se aprovada, a medida beneficiaria
quem está sob investigação por suspeita de crimes como lavagem
de dinheiro, caso de Duda Mendonça, já que a idéia é
extinguir a punição dos delitos referentes aos valores não
declarados exceto em casos de réus condenados e titulares de recursos
provenientes de crimes como narcotráfico e terrorismo. |