Auto-Retrato
José Francisco dos Santos
Ao reconstituir a história da
vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o filme Lula, o Filho
do Brasil, a ser rodado em 2009, o cineasta Fábio Barreto deparou com
o caminhoneiro José Francisco dos Santos. Ele diz ser o motorista que,
há 56 anos, levou Lula e sua família de Garanhuns, no interior de
Pernambuco, para São Paulo. O caminhoneiro relembrou a viagem em entrevista
à repórter Mariana Amaro.
Como
foi a viagem que o presidente Lula fez, ainda criança, para São
Paulo?
Começou às 5 horas da manhã de um dia de calor
de 1952 e durou para mais de dez dias. O menino Lula quase ficou para trás.
Como
isso aconteceu?
Logo que peguei a estrada, pediram para ir ao banheiro.
Parei. Uns vinte minutos depois, disseram que todo mundo já estava no pau-de-arara.
Como eram mais de 100, não tinha condição de contar. Perguntei
de novo se estava todo mundo lá. Disseram que sim. Já tinha rodado
uns 40 metros quando uma mulher gritou: "Meus filhos ficaram". Parei
e vi dois moleques pançudos chorando e correndo atrás do caminhão.
Um dia desses, o Vavá (Genival Inácio da Silva) me contou
que eram ele e Lula.
Quanto
o senhor cobrou pela viagem?
Deles, eu não cobrei nada. Não
tinham de onde tirar. Estavam passando necessidade. Um político amigo meu
me explicou a situação e pediu que eu não cobrasse. Fiquei
no prejuízo. O político me disse que eram oito pessoas. Quando eu
cheguei, onze me esperavam. Como cada passagem custava 250 cruzeiros, deixei de
ganhar 2 750 cruzeiros. Eles não foram os únicos que vieram de graça.
Eu trouxe mais de 100 000 pessoas para São Paulo. Não teve viagem
em que não viesse alguém sem pagar.
Mas
era um bom negócio ser dono de pau-de-arara?
Era ótimo.
Cheguei a ter quatro caminhões para trazer o povão do Nordeste para
São Paulo. Juntei bastante dinheiro. Acabei perdendo quase tudo quando
entrei na política. Em 1962, eu me elegi vereador em Garanhuns. Tive um
mandato de seis anos. Fui do partido do governo militar, a Arena (Aliança
Renovadora Nacional). Gosto muito de política, mas, naquele tempo,
tinha de ter dinheiro para entrar nela. Os eleitores exigiam muito. Cobravam pelo
voto. Queriam sapato, roupa, passagem, consulta médica...
O
senhor já votou em Lula?
Nunca. Não votei nem votarei. Até
a família dele dizia que ele era comunista, e eu sempre fui de direita.
Aliás, tenho um desejo grande: gostaria de viver para assistir à
volta do regime militar ao nosso país. Foi Pedro Álvares Cabral
quem descobriu o Brasil, mas quem construiu o país foram os 21 anos de
governo militar. Se for tirado o que o regime militar construiu, não fica
nada.
Depois da viagem, o
senhor chegou a reencontrar o presidente?
Sim. Em 2006, ele foi a Garanhuns
e falou que queria me conhecer. Quando cheguei, esperei que fosse, pelo menos,
me oferecer a mão. Ele falou para mim: "Dizem que foi o senhor que
levou minha família e eu para São Paulo em 1952". Eu respondi:
"Dizem não, é a realidade". Lula deve ter pensado que
era mentira, porque me pareceu muito mal-agradecido. Depois, quis ver onde ficava
a casa em que ele estava quando eu passei para buscar a família. Aí,
foi um pouco mais simpático.
O
senhor se arrepende de ter-lhe dado carona?
Na vida, só me arrependo
de não ter aprendido a ler direito. Se eu tivesse estudado, seria um Rui
Barbosa.