Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Santo André
E a propina de Santo André?

Os promotores ainda precisam descobrir
onde foi parar o dinheiro da corrupção


Maurício Lima


Jonne Roriz/AE
Caio Guatelli
Gomes da Silva: após a denúncia, a prisão Francisco Daniel, o irmão do prefeito morto: sua denúncia foi rejeitada pelo STF

Notícias diárias sobre o caso Celso Daniel

Há duas grandes questões envolvendo a morte do prefeito Celso Daniel, de Santo André, assassinado em janeiro de 2002. Uma delas é identificar a autoria do crime. Outra é desvendar a relação apontada entre o assassinato e um esquema de achaque de empresários de ônibus em Santo André. Na semana passada, a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público de São Paulo, que apontou o empresário Sérgio Gomes da Silva, amigo do prefeito morto, como mandante do assassinato. Junto com outros sete acusados, ele responderá por homicídio triplamente qualificado. Se for condenado, o empresário poderá pegar até trinta anos de cadeia. Só com a apuração completa da autoria do assassinato é que as autoridades poderão avançar em direção à segunda questão e esclarecer, de uma vez por todas, até onde ia o esquema de corrupção que os promotores descobriram na prefeitura de Celso Daniel – e que comprovadamente beneficiava amigos dele, entre os quais Sérgio Gomes da Silva.

De acordo com o irmão do prefeito morto, o médico João Francisco Daniel, o dinheiro do achaque em Santo André não se destinava apenas a vigaristas locais, mas também alimentava o cofre do PT nacional. O médico informa ter ouvido de Miriam Belchior, ex-mulher do prefeito e atual assessora especial da Presidência da República, a confirmação da existência de uma caixinha que beneficiaria a campanha nacional do Partido dos Trabalhadores. O irmão médico diz ainda que Gilberto Carvalho, ex-secretário de governo de Celso Daniel e atual chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mencionou certa vez ter entregado 1,2 milhão de reais ao então presidente nacional do PT, José Dirceu, hoje ministro da Casa Civil. Miriam, Carvalho e o ministro Dirceu desmentem as informações.

Depois da morte do prefeito, as denúncias de corrupção geraram uma CPI montada pela Câmara de Vereadores de Santo André. A comissão descobriu que empresas, principalmente de transporte, pagavam à quadrilha dos amigos do prefeito assassinado uma caixinha regular em troca de favores do poder público. Uma das firmas que contribuíam com o esquema ganhou o direito de prestar serviços à prefeitura sem participar de licitação. Outra empresa financiadora da caixinha mantinha contratos com pelo menos seis administrações petistas. O proprietário é dono de mais de cinqüenta empresas e tem entre seus sócios o próprio Sérgio Gomes da Silva, agora acusado de ter mandado matar o prefeito. O irmão de Celso Daniel afirma que sua morte teria ligação com o esquema de corrupção que funcionava na administração de Santo André. Na opinião dele, repetida várias vezes à imprensa, o prefeito quis pôr um fim à corrupção e acabou morto por causa disso.

Pelo volume de informações levantado até agora, não há nenhuma dúvida sobre a existência de corrupção na cidade. Há declarações dos envolvidos, gravações de conversas telefônicas, extratos bancários e farta prova documental para colocar muita gente na cadeia. Faltam elementos, no entanto, para estabelecer uma conexão entre a bandalha local e a política nacional petista. Todas as acusações nesse sentido se baseiam exclusivamente nas afirmações do irmão do prefeito. Nem a CPI nem os promotores reuniram até o momento uma única evidência de que o dinheiro era entregue a um figurão do PT.

 

 
 
 
 
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