Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Em foco: Sergio Abranches
O consenso chinês

"Quem aposta na China o faz por sua conta
e risco e talvez não
esteja relatando tudo
para
seus acionistas e cotistas"

A próxima crise global pode ser da China. A China virou moda no mercado global, em busca de oportunidades mais rentáveis de investimento do que as lentas economias do mundo maduro. Principalmente depois do colapso das empresas pontocom. Hoje, absorve mais de 30% do fluxo global de capitais. As últimas crises – Argentina e Turquia – não tiveram contágio. Imaginem o risco de contágio da erupção numa economia desse tamanho.

Ilustração Ale Setti


O que está acontecendo com a China se parece muito com o que ocorreu com as empresas pontocom e as ações de alta tecnologia. Elas eram muito mais frágeis e de muito maior risco do que se dizia, prestes a se desmanchar no ar. É característica desse mercado globalizado a facilidade com que aceita certos mitos, quando lhe são convenientes, e se recusa a ver as verdades mais concretas, quando não lhe interessa.

Pensamos no "efeito manada" como fuga desabalada, estouro de investidores assustados, em busca de segurança. Mas sua principal, e mais inquietante, manifestação é a formação de "bolhas de consenso", a partir de frágeis premissas sobre países, empresas ou papéis. Elas alimentam verdadeira invasão de investidores no(s) mercado(s) emergente(s) da vez. Pode ser o caso da China agora.

A China tem muitos atrativos. É um enorme mercado. Não chega ao mais de 1 bilhão de almas consumidoras dos sonhos mais exagerados, mas a região das "ilhas de capitalismo" tem aproximadamente 400 milhões de pessoas. Mercado para ninguém botar defeito. Um país com enormes carências de infra-estrutura e recursos suficientes – de natureza fiscal e parafiscal – para tocar um megaprograma de obras, atraindo empreiteiras e investidores.

O problema é o risco China, subestimado e desprezado pelo consenso favorável. Qualquer análise superficial da China revela as fragilidades e contradições que elevam seu risco para muito além do admitido pelo mercado. Mas a aposta global hoje é que a China será o primeiro país emergente a se tornar uma economia desenvolvida. E uma parte aposta que será a superpotência do futuro, roubando a hegemonia aos Estados Unidos.

Superpotência pode ser, mas não antes de resolver suas contradições profundas. Elas são de tal natureza que é pouco provável que se resolvam sem rupturas.

O risco político chinês se desdobra em vários fatores. Primeiro, a governança ultra-autoritária, personalista e sem transparência. Um regime que reprime à força qualquer manifestação pública de contrariedade e toda demanda por liberdade. A maioria dos investimentos realizados na China não tem a garantia de um contrato formal, mas apenas a segurança da palavra oficial. Como a história informa, todo governo tirânico pode sofrer sucessão inesperada e radical. É possível que o novo inquilino do poder tenha preferências distintas das que tinha o anterior e se recuse a manter os acordos. O sistema financeiro chinês é muito frágil. Os créditos podres abundam: 20%, nas contas oficiais; 40% a 45%, para analistas independentes. O governo está salvando, pela terceira vez, seus bancos estatais, ao custo de 121 bilhões de dólares. Não há razão para crer que os – poucos – dados sobre os fundamentos macroeconômicos chineses sejam confiáveis. Aliás, a noção de fundamentos macroeconômicos nem sequer se aplica a um país capaz de sacrificar o que os capitalistas consideram racionalidade econômica em favor de outros objetivos políticos.

Este é o segundo risco: a ideologia da grande China e os interesses geopolíticos do Partido Comunista se sobrepõem à racionalidade dos negócios. As atitudes do governo chinês em relação a Taiwan são um exemplo eloqüente disso.

O terceiro risco é sociopolítico. A China da qual Xangai é um ícone tem 400 milhões de almas, contemporâneas de Wall Street e da Nasdaq e que até têm a chance de ficar ricas em poucos anos. Os habitantes de vilarejos como Xanxi são 900 milhões, porém vivendo em condições medievais, impedidos de circular livremente por seu país. A desigualdade aumenta velozmente. O plano é, segundo o Ministério do Desenvolvimento, "modernizar a economia para lhe dar toda a força possível no limite da estabilidade social". Mas o próprio governo reconhece em seus relatórios que o protesto social tem aumentado exponencialmente. A repressão acompanha essa elevação da insatisfação. Até quando essa situação é sustentável ninguém sabe.

Portanto, quem aposta na China o faz por sua conta e risco e talvez não esteja relatando tudo para seus acionistas e cotistas. Há um verso de D.C. Dave sobre o "efeito manada" que diz assim: "Todos pensamos igual... o consenso não mente jamais". É isso, até que a manada mude de direção.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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