Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Tales Alvarenga
O direito a Deus

"Devido ao ódio contra Bush, uma fatia
minoritária do seu eleitorado, os evangélicos,
foi tratada com preconceito cultural, político
e étnico pelas elites bem pensantes das metrópoles"

O presidente George W. Bush é de direita e um crente em Deus, isso é certo. Mas é mais esperto e menos radical do que dizem seus adversários. Desconfio que Bush nem é tão religioso como diz. E tenho certeza de que um mero caipira carola, como ele é apresentado, não vira presidente reeleito na maior, mais poderosa e mais diversificada democracia do planeta. Bush soube usar a religião e os preconceitos dos americanos conservadores para ganhar mais votos. Políticos são assim, inclusive os nossos. Mas não foi só isso que o elegeu. Tiveram mais peso a guerra contra o terrorismo, o Iraque, a impressão que ele consegue passar aos americanos de que é um líder forte com posições claras. É o que dizem as pesquisas.

Os inimigos de Bush também afirmam que uma "onda fundamentalista" varre os Estados Unidos. Não é verdade. O direitismo, o carolismo e o moralismo americano sempre existiram. Você certamente já ouviu falar de "bruxas" queimadas na Nova Inglaterra porque os puritanos da época da colonização achavam que elas tinham parte com o demônio. Você também já ouviu falar na perseguição da era macarthista contra suspeitos de simpatias ao comunismo. Prenderam, demitiram, desmoralizaram milhares de pessoas nos anos 50 com essa fúria anticomunista. Você também já ouviu falar da organização pela supremacia branca chamada Ku Klux Klan, que linchava negros por ódio à raça. Isso tudo existiu. Os americanos não são perfeitos. Mas seu lado negativo tem sido contrabalançado por correntes fortíssimas que defendem a liberdade, a igualdade e o respeito a todos e a cada um dos seres humanos. Os EUA votam democraticamente há mais de duzentos anos. Nas eleições em que há mais antagonismo ideológico, é natural que fantasmas sejam caçados como bodes expiatórios. Foi isso que aconteceu desta vez.

Em tempos recentes, não há registro de outro candidato a cargo eletivo que tenha sido desqualificado por ser religioso e por defender padrões morais severos, como aconteceu com Bush. John Kerry perdeu porque é insosso e não foi capaz de apresentar ao eleitorado um conjunto de idéias claras. Quem votou em Bush? Mais de 51% do eleitorado. Seus adversários, no entanto, resolveram escalar um grupo determinado para levar a culpa pela derrota de John Kerry. De uma hora para outra, os cristãos fundamentalistas ou extremados foram chamados de direita evangélica branca, proletariado branco, caipiras retrógrados. Devido ao ódio contra Bush, uma fatia minoritária do seu eleitorado foi tratada com preconceito cultural, político e étnico pelas elites bem pensantes das metrópoles. Isso num país em que preconceitos contra negros, semitas ou hispânicos são considerados ofensas impronunciáveis por pessoas cultas.

Os cristãos fundamentalistas acham que Jesus participa de cada momento da vida deles, da mesmíssima forma que os católicos praticantes. Os cristãos fundamentalistas americanos não admitem o aborto em nenhuma hipótese. Sexo, só para fim de procriação. Gays são aceitos desde que se abstenham de ter vida sexual. Pensam exatamente como o papa João Paulo II. Não tenho religião desde a adolescência, já me divorciei mais de uma vez, e sexo, para mim, é uma escolha pessoal que só compete aos envolvidos na operação. Mas defendo o direito dos evangélicos de viver conforme suas crenças e de não ser insultados por causa disso.

 
 
 
 
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