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Tales
Alvarenga O direito a Deus
"Devido
ao ódio contra Bush, uma fatia minoritária do seu eleitorado,
os evangélicos, foi tratada com preconceito cultural, político e
étnico pelas elites bem pensantes das metrópoles"
O presidente George W. Bush é de direita e um crente
em Deus, isso é certo. Mas é mais esperto e menos radical do que
dizem seus adversários. Desconfio que Bush nem é tão religioso
como diz. E tenho certeza de que um mero caipira carola, como ele é apresentado,
não vira presidente reeleito na maior, mais poderosa e mais diversificada
democracia do planeta. Bush soube usar a religião e os preconceitos dos
americanos conservadores para ganhar mais votos. Políticos são assim,
inclusive os nossos. Mas não foi só isso que o elegeu. Tiveram mais
peso a guerra contra o terrorismo, o Iraque, a impressão que ele consegue
passar aos americanos de que é um líder forte com posições
claras. É o que dizem as pesquisas. Os inimigos
de Bush também afirmam que uma "onda fundamentalista" varre os Estados
Unidos. Não é verdade. O direitismo, o carolismo e o moralismo americano
sempre existiram. Você certamente já ouviu falar de "bruxas" queimadas
na Nova Inglaterra porque os puritanos da época da colonização
achavam que elas tinham parte com o demônio. Você também já
ouviu falar na perseguição da era macarthista contra suspeitos de
simpatias ao comunismo. Prenderam, demitiram, desmoralizaram milhares de pessoas
nos anos 50 com essa fúria anticomunista. Você também já
ouviu falar da organização pela supremacia branca chamada Ku Klux
Klan, que linchava negros por ódio à raça. Isso tudo existiu.
Os americanos não são perfeitos. Mas seu lado negativo tem sido
contrabalançado por correntes fortíssimas que defendem a liberdade,
a igualdade e o respeito a todos e a cada um dos seres humanos. Os EUA votam democraticamente
há mais de duzentos anos. Nas eleições em que há mais
antagonismo ideológico, é natural que fantasmas sejam caçados
como bodes expiatórios. Foi isso que aconteceu desta vez.
Em tempos recentes, não há registro de outro candidato a cargo eletivo
que tenha sido desqualificado por ser religioso e por defender padrões
morais severos, como aconteceu com Bush. John Kerry perdeu porque é insosso
e não foi capaz de apresentar ao eleitorado um conjunto de idéias
claras. Quem votou em Bush? Mais de 51% do eleitorado. Seus adversários,
no entanto, resolveram escalar um grupo determinado para levar a culpa pela derrota
de John Kerry. De uma hora para outra, os cristãos fundamentalistas ou
extremados foram chamados de direita evangélica branca, proletariado branco,
caipiras retrógrados. Devido ao ódio contra Bush, uma fatia minoritária
do seu eleitorado foi tratada com preconceito cultural, político e étnico
pelas elites bem pensantes das metrópoles. Isso num país em que
preconceitos contra negros, semitas ou hispânicos são considerados
ofensas impronunciáveis por pessoas cultas.
Os cristãos fundamentalistas acham que Jesus participa de cada momento
da vida deles, da mesmíssima forma que os católicos praticantes.
Os cristãos fundamentalistas americanos não admitem o aborto em
nenhuma hipótese. Sexo, só para fim de procriação.
Gays são aceitos desde que se abstenham de ter vida sexual. Pensam exatamente
como o papa João Paulo II. Não tenho religião desde a adolescência,
já me divorciei mais de uma vez, e sexo, para mim, é uma escolha
pessoal que só compete aos envolvidos na operação. Mas defendo
o direito dos evangélicos de viver conforme suas crenças e de não
ser insultados por causa disso. |