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Ponto
de vista: Lya
Luft
Brasil, mostra a
sua (outra) cara
"Europeus e americanos
costumam ser
desinformados a respeito do que se passa
fora de seu país. Não nos dão
importância
suficiente e lhes basta a imagem de exotismo
que transmitimos. Mas, em grande parte, isso
ocorre porque nós não sabemos mostrar nosso
rosto mais civilizado"
Esta coluna não vai como crítica
a nenhum governo ou pessoa, mas talvez possa ser encarada como uma
autocrítica de brasileira. A questão é: por
que, em ocasiões especiais e recepções a autoridades
estrangeiras, nos limitamos a promover o Brasil com escolas de samba?
Ilustração Atômica
Studio
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Atenção, não sou contra o Carnaval. Um de meus
sonhos é assistir a um desfile no Rio, porque sei que é
arrebatador. Não me crucifiquem da mesma forma que ocorreu
quando escrevi uma coluna sobre as baleias. Por causa dela, muitos
me julgaram inimiga da natureza, a que odeia animais, a que deseja
a extinção dos simpáticos cetáceos e
do resto também quando eu apenas disse que baleias
não me emocionam tanto quanto seres humanos (se os que preferem
cachorros a pessoas continuam aborrecidos, o que posso fazer?).
Então, que fique registrado: não
sou contra o Carnaval, nada tenho contra mulatas ou negras ou brancas,
lindas ou feias, mostrando suas habilidades no samba. Gosto de música
popular, sim, gosto de samba, e costumo dizer que não há
depressão que resista a um bom ritmo brasileiro. Isso explicado
(em vão, provavelmente), indago por que não acolhemos
convidados ou nos apresentamos no exterior com uma boa orquestra
sinfônica, um conjunto de câmara, um pouco de música
clássica brasileira. Sei que de vez em quando o fazemos,
mas poderia ser uma iniciativa mais freqüente.
Houve uma feira de livros em Frankfurt na
qual a sala dedicada ao Brasil estava ornamentada com jarras de
caipirinha, TVs ligadas mostrando Carnaval, praias e até
favelas. Sobre as mesas, desordenadamente dispostos (para não
dizer jogados), havia alguns livros de autores brasileiros. Pois
é. Como esse tipo de coisa é a regra, não a
exceção, não deveríamos nos aborrecer
quando estrangeiros se espantam ao saber que aqui há professores
fantásticos, excelentes universidades, escritores e até
mesmo editoras. Lembro-me de que, ainda assim, certa vez tive vontade
de brigar com um intelectual holandês. Num congresso de escritores
em Toronto, no Canadá, ele me disse, espantado, que jamais
imaginara que no Brasil houvesse pessoas cultas.
Europeus e americanos costumam ser desinformados
a respeito do que se passa fora de seu país. Não nos
dão importância suficiente e lhes basta a imagem de
exotismo que transmitimos. Mas, em grande parte, isso ocorre porque
nós não sabemos mostrar nosso rosto mais civilizado.
Por mais belos e instigantes que sejam corpos e música e
ritmos, por mais comovente (ou assustadora e constrangedora) que
seja a visão de nossa pobreza, temos outras coisas a expor,
além dessas.
Pena que não aproveitemos algumas boas
ocasiões para consertar nossa imagem até diante de
nós mesmos. Não fingindo que tudo vai bem, não
arrumando a sala apenas quando o convidado chega, mas mostrando
aos outros o que temos de bom, de pacífico, de ordeiro, até
de sofisticado. Não precisamos nos sentir inferiores, porque
não somos inferiores. Mas às vezes nos esquecemos
disso.
Lya Luft é escritora
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