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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Carro
e cidade, uma guerra de morte
Paris
tomou a luta a peito e elaborou um
plano contra o inimigo. Já no Brasil...
Houve tempo em que cidade grande era coisa de Primeiro
Mundo. Nova York, Londres estas eram as cidades ciclópicas, para
as quais o mundo olhava com perplexidade e admiração. Nova York,
segundo entoava, com orgulho, a canção famosa, era a cidade "que
nunca dorme". Movimento, barulho, trepidação: eis os elementos que,
identificados com as metrópoles cheias de luz e fúria, deixavam
o resto do mundo embasbacado. Hoje, cidade grande é coisa de Terceiro Mundo.
São Paulo (11 milhões de habitantes), Cidade do México (9
milhões), Mumbai (a antiga Bombaim, 12 milhões), Jacarta (11 milhões)
estas são as metrópoles, ou megalópoles, do século
XXI. Dentro de Lagos, na Nigéria (9 milhões de habitantes), caberiam
quase três Berlins (3,4 milhões). O Terceiro Mundo tomou a dianteira,
mas pobre Terceiro Mundo numa época em que a dianteira é
motivo de vergonha. Ser grande, para uma cidade, hoje é feio. Se há
algo que Londres abomina é trepidação. Nova York quer dormir.
Cidade cheia de carros particulares era, igualmente,
coisa de Primeiro Mundo. Media-se a prosperidade urbana pelo número deles
nas ruas. E reinava o orgulho, sim, orgulho por esse signo da modernidade que
era o congestionamento de trânsito. Hoje, cidade cheia de carros particulares
é cidade do Terceiro Mundo. Nas do Primeiro, a presença deles tende
a recuar. Nas do Terceiro, avança triunfalmente.
Os automóveis sofrem, no Primeiro Mundo, um duplo ataque. Por um lado,
o transporte coletivo apresenta-se cada vez mais abundante e melhorado. Por outro,
proliferam medidas inibitórias que vão do pagamento de pedágio
para circular, como em Londres e Roma, à punição ao motorista
que viaja sozinho, obrigado, em certas cidades americanas, a trafegar na faixa
de velocidade mais lenta nas avenidas e vias expressas. Mas é em Paris
que, por obra do prefeito Bertrand Delanoë, hoje se experimenta o mais abrangente
e articulado conjunto de políticas para fazer diminuir o número
de automóveis nas ruas. Paris tem talvez
a mais capilar rede de metrô do mundo. Nunca, ali, se está a mais
de 400 metros de uma estação. Mesmo assim, a cidade continua a investir
maciçamente no transporte coletivo. A proliferação dos corredores
de ônibus, traçados com capricho, de forma a não agredir a
paisagem, tem sido uma das marcas da administração Delanoë.
Em paralelo, os carros sofrem punições que incluem a diminuição
tanto das áreas de circulação quanto das de estacionamento
gratuito. Nas cidades brasileiras, o comum é aumentar os espaços
de circulação dos carros. Diminuem-se as calçadas. Constroem-se
viadutos, túneis e passagens de nível para seu uso exclusivo. Na
Paris de Delanoë, trabalha-se no sentido contrário. Corredores de
ônibus, ciclovias, calçadões para pedestres e reservas para
novas áreas verdes formam uma combinação que avança
com ímpeto sobre os espaços onde antes o carro reinava. A Avenida
Magenta, caso exemplar do que Delanoë tem na cabeça, ganhará
corredores de ônibus, ciclovia e um canteiro de árvores que reduzirão
de 20 para 7 metros o leito dos carros. Quanto à obrigatoriedade de pagar
para estacionar na rua, algo que já cobre grande parte da cidade, a intenção
do prefeito é estendê-la para a cidade inteira.
As medidas de Delanoë com relação ao transporte e ao tráfego,
junto com outras propostas urbanísticas, foram enfeixadas num plano que
caso inédito na cidade a prefeitura remeteu, em forma de
questionário, a um universo de 800.000 parisienses,
para que opinassem. Cento e vinte mil o fizeram retorno considerado alto
e, no geral, a aprovação às idéias do prefeito
foi ampla. A redução dos espaços dos automóveis e
o reforço na oferta do transporte coletivo tiveram 83% de opiniões
favoráveis. Só um plano de Delanoë, na questão do automóvel,
foi desaprovado: o de substituir a lei que obriga a criação de uma
vaga de garagem para cada nova habitação construída na cidade
por outra, que obrigaria a criação de uma vaga para cada duas novas
habitações. Ficava clara, nesse item, a intenção do
prefeito de desencorajar as pessoas até de comprar seu automóvel.
Cinqüenta e três por cento foram contra, sinal de que os parisienses,
se estão dispostos a renunciar a circular com o carro pela cidade, o que
de resto a maioria já faz, não pretendem abrir mão de tê-lo
na garagem, para o fim de semana. Em época
de renovação das administrações municipais no Brasil,
o exemplo de Paris merece um minuto da atenção dos novos prefeitos.
Não que aqui se possa declarar guerra tão aberta ao automóvel.
Falta-nos a contrapartida do transporte coletivo eficiente. Mas, para começar,
bem que se poderia banir os planos de viadutos, túneis e similares para
circulação dos carros. Toda vez que um prefeito anunciasse algo
do gênero, deveria ser punido com a destinação do dinheiro
correspondente ao transporte coletivo. Os carros e as cidades travam uma batalha
de morte, esta é a questão central. No Brasil, até agora,
tem-se favorecido o lado dos carros. |