Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Livros
Máquina de extermínio

Um levantamento minucioso da vida
e da morte nos gulags, os campos
de concentração soviéticos


Marilia Pacheco Fiorillo

EXCLUSIVO ON-LINE
Primeiro capítulo do livro

A jornalista americana Anne Applebaum reuniu em Gulag (tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte; Ediouro; 744 páginas; 84,90 reais) o mais alentado e atualizado levantamento dos campos de prisioneiros soviéticos já publicado. A autora, colunista do jornal Washington Post e colaboradora do The Wall Street Journal, foi correspondente em Varsóvia da revista The Economist. Pesquisou arquivos na ex-URSS e memórias de sobreviventes dos campos de trabalho forçado, os gulags, para construir seu épico das atrocidades cometidas pelo falecido império soviético entre 1923 e 1986. Nunca, antes, se haviam desnudado com tal minúcia estatística os horrores e a profunda idiotia da política de Stalin, que executou quase 3 milhões de dissidentes durante seu reinado e encarcerou outros 28 milhões, muitos deles em regiões inóspitas como o deserto do Cazaquistão ou a Sibéria. O livro expõe também a burrice atávica do sistema comunista: a tentativa de tornar rentável a extração de ouro, urânio, níquel ou madeira das regiões para onde mandava seus degredados se revelou vã, pois os intelectualizados prisioneiros políticos eram um desastre no trabalho braçal.

Os gulags, que chegaram ao espantoso número de 476, começaram já com Lenin, mas alcançaram o ápice do horror com Stalin. Os anos 1930 e 1940 foram os picos de mortalidade, quando a fome e depois a guerra assolaram a URSS. Mas os campos soviéticos continuaram crescendo até os anos 1950. Ao contrário dos campos de concentração nazistas, todos devotados ao extermínio, os gulags variavam da "relativa crueldade à relativa humanidade", na expressão de Applebaum. Kolyma, na Sibéria, era um dos piores, pela insalubridade do trabalho nas minas. No Arquipélago de Solovetsky, no Mar Branco, a vida não era tão dura – havia até biblioteca e teatro. E os campos nas vizinhanças de Moscou, onde cientistas rebeldes projetavam armas para o Exército Vermelho, eram até "luxuosos".

Com sorte, o trabalho forçado era realizado com pás e picaretas, como no Canal de Fergana, mas muitas vezes as escavações eram feitas com ferramentas improvisadas ou com as próprias mãos. A rotatividade nos campos era grande. Entre os degredados, mandados para morrer de inanição ou frio, estavam não só os kulaks (camponeses ricos) como delinqüentes comuns e muitas etnias consideradas incômodas por Stalin – poloneses, ucranianos, chechenos. Mulheres e crianças não escapavam à brutalidade, com uma agravante: como as mulheres eram escassas, tornavam-se vítimas freqüentes de estupro. Os gulags só seriam eliminados definitivamente por Gorbachev, ele mesmo neto de uma vítima dos campos, em 1987.

Diante de tão precioso e preciso levantamento, o que explicaria a reserva com que a obra, louvada na imprensa americana e ganhadora de um Prêmio Pulitzer, foi acolhida internacionalmente? Talvez porque Gulag resulte numa curiosa combinação de poderoso levantamento de fatos com visão histórica rasteira. As aproximações que a autora faz entre o gulag e os campos de concentração nazistas tendem a esvaziar as diferenças entre esses dois traumas históricos. Stalinismo e nazismo não são gatos do mesmo saco, embora mereçam idêntica terapêutica: a lata de lixo da história. Em Auschwitz, por exemplo, seria impensável que a SS se reunisse com os prisioneiros em greve para discutir suas exigências, como fizeram as "comissões de Moscou" nos campos em Gorlag e Rechlag, nos anos 1950. Applebaum falha principalmente ao não inquirir pelas raízes históricas do gulag, que deve tanto à tradição autocrática da Rússia quanto aos czares comunistas. E sabemos que o melhor antídoto contra a repetição da barbárie é a compreensão das condições particulares que lhe abriram caminho – enxergar a serpente ainda dentro do ovo.

 
 
 
 
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