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Livros
Máquina de extermínio
Um levantamento minucioso da vida
e da morte nos gulags, os campos
de concentração soviéticos

Marilia Pacheco Fiorillo
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A jornalista americana Anne Applebaum reuniu
em Gulag (tradução de Mário Vilela
e Ibraíma Dafonte; Ediouro; 744 páginas; 84,90 reais)
o mais alentado e atualizado levantamento dos campos de prisioneiros
soviéticos já publicado. A autora, colunista do jornal
Washington Post e colaboradora do The Wall Street Journal,
foi correspondente em Varsóvia da revista The Economist.
Pesquisou arquivos na ex-URSS e memórias de sobreviventes
dos campos de trabalho forçado, os gulags, para construir
seu épico das atrocidades cometidas pelo falecido império
soviético entre 1923 e 1986. Nunca, antes, se haviam desnudado
com tal minúcia estatística os horrores e a profunda
idiotia da política de Stalin, que executou quase 3 milhões
de dissidentes durante seu reinado e encarcerou outros 28 milhões,
muitos deles em regiões inóspitas como o deserto do
Cazaquistão ou a Sibéria. O livro expõe também
a burrice atávica do sistema comunista: a tentativa de tornar
rentável a extração de ouro, urânio,
níquel ou madeira das regiões para onde mandava seus
degredados se revelou vã, pois os intelectualizados prisioneiros
políticos eram um desastre no trabalho braçal.
Os gulags, que chegaram ao espantoso número
de 476, começaram já com Lenin, mas alcançaram
o ápice do horror com Stalin. Os anos 1930 e 1940 foram os
picos de mortalidade, quando a fome e depois a guerra assolaram
a URSS. Mas os campos soviéticos continuaram crescendo até
os anos 1950. Ao contrário dos campos de concentração
nazistas, todos devotados ao extermínio, os gulags variavam
da "relativa crueldade à relativa humanidade", na expressão
de Applebaum. Kolyma, na Sibéria, era um dos piores, pela
insalubridade do trabalho nas minas. No Arquipélago de Solovetsky,
no Mar Branco, a vida não era tão dura havia
até biblioteca e teatro. E os campos nas vizinhanças
de Moscou, onde cientistas rebeldes projetavam armas para o Exército
Vermelho, eram até "luxuosos".
Com sorte, o trabalho forçado era realizado
com pás e picaretas, como no Canal de Fergana, mas muitas
vezes as escavações eram feitas com ferramentas improvisadas
ou com as próprias mãos. A rotatividade nos campos
era grande. Entre os degredados, mandados para morrer de inanição
ou frio, estavam não só os kulaks (camponeses ricos)
como delinqüentes comuns e muitas etnias consideradas incômodas
por Stalin poloneses, ucranianos, chechenos. Mulheres e crianças
não escapavam à brutalidade, com uma agravante: como
as mulheres eram escassas, tornavam-se vítimas freqüentes
de estupro. Os gulags só seriam eliminados definitivamente
por Gorbachev, ele mesmo neto de uma vítima dos campos, em
1987.
Diante de tão precioso e preciso levantamento,
o que explicaria a reserva com que a obra, louvada na imprensa americana
e ganhadora de um Prêmio Pulitzer, foi acolhida internacionalmente?
Talvez porque Gulag resulte numa curiosa combinação
de poderoso levantamento de fatos com visão histórica
rasteira. As aproximações que a autora faz entre o
gulag e os campos de concentração nazistas tendem
a esvaziar as diferenças entre esses dois traumas históricos.
Stalinismo e nazismo não são gatos do mesmo saco,
embora mereçam idêntica terapêutica: a lata de
lixo da história. Em Auschwitz, por exemplo, seria impensável
que a SS se reunisse com os prisioneiros em greve para discutir
suas exigências, como fizeram as "comissões de Moscou"
nos campos em Gorlag e Rechlag, nos anos 1950. Applebaum falha principalmente
ao não inquirir pelas raízes históricas do
gulag, que deve tanto à tradição autocrática
da Rússia quanto aos czares comunistas. E sabemos que o melhor
antídoto contra a repetição da barbárie
é a compreensão das condições particulares
que lhe abriram caminho enxergar a serpente ainda dentro
do ovo.
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