Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Livros
Delírio moderado

O novo romance de Verissimo
tem conspiração, sexo, drogas.
Mas é um livro bem-comportado


Jerônimo Teixeira


Liane Neves
Luis Fernando Verissimo: trama amazônica com homenagens a Joseph Conrad

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Trecho do livro

Resumir O Opositor (Objetiva; 140 páginas; 25,90 reais) é um empreendimento temerário. Reduzido a suas linhas básicas, o quarto romance de Luis Fernando Verissimo, 68 anos, corre o risco de parecer impenetrável. A narrativa combina lendas amazônicas com elementos do clássico Coração das Trevas, do escritor e aventureiro Joseph Conrad, para contar uma história na qual quatro organizações secretas que decidem os rumos do mundo esbarram em uma seita apocalíptica cujos seguidores têm o polegar amputado por inspiração de uma pintura renascentista de Signorelli na catedral de Orvieto, na Itália. O talento de Verissimo se revela na habilidade com que ele enlaça todos os fios dessa história descabelada para compor uma obra linear, clara – e muito engraçada. Essa virtude, porém, é também um limite: um enredo que abre tantas possibilidades de desvario pedia um autor mais desvairado. O Opositor, ao contrário, é um livro bem-comportado.

O livro faz parte de uma coleção chamada 5 Dedos de Prosa, que reúne romances dedicados aos dedos da mão. Verissimo tratou do polegar, o dedo opositor – daí o título. A história é narrada por um jornalista que está em Manaus fazendo uma matéria sobre plantas alucinógenas da Amazônia. Em um boteco, ele conhece Jósef Teodor (não por acaso, o nome de nascimento de Joseph Conrad, britânico naturalizado que nasceu na Polônia). O polaco parece ser apenas um bêbado criativo, armando teorias da conspiração sob a influência da cachaça servida pelo dono do bar, Hatoum (homenagem malandra ao escritor amazonense Milton Hatoum). Mas aos poucos vão se revelando estranhas correspondências entre a realidade e os delírios de Jósef. O final, aliás, peca por remover todas as sombras de dúvida que pairavam sobre o relato do polaco, quebrando o clima de mistério tropical do livro.

A história será mais divertida para quem já leu Coração das Trevas e souber identificar as referências paródicas que Verissimo faz à obra-prima de Conrad. Mas há achados impagáveis por si mesmos, como a personagem Serena, que é metade índia, metade dinamarquesa, e faz guturais ruídos nórdicos quando chega ao clímax sexual. É o mesmo humor inusitado que Verissimo cultiva na crônica, gênero em que é mestre. O Opositor – como, aliás, toda a ficção de Verissimo – acaba sendo uma espécie de crônica ampliada: uma obra ligeira, divertida e fácil de ler – mas também de esquecer.

 
 
 
 
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