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Livros
Delírio moderado
O novo romance de Verissimo
tem conspiração, sexo, drogas.
Mas é um livro bem-comportado

Jerônimo Teixeira
Liane Neves
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| Luis Fernando Verissimo: trama amazônica
com homenagens a Joseph Conrad |
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Resumir O Opositor (Objetiva;
140 páginas; 25,90 reais) é um empreendimento temerário.
Reduzido a suas linhas básicas, o quarto romance de Luis
Fernando Verissimo, 68 anos, corre o risco de parecer impenetrável.
A narrativa combina lendas amazônicas com elementos do clássico
Coração das Trevas, do escritor e aventureiro
Joseph Conrad, para contar uma história na qual quatro organizações
secretas que decidem os rumos do mundo esbarram em uma seita apocalíptica
cujos seguidores têm o polegar amputado por inspiração
de uma pintura renascentista de Signorelli na catedral de Orvieto,
na Itália. O talento de Verissimo se revela na habilidade
com que ele enlaça todos os fios dessa história descabelada
para compor uma obra linear, clara e muito engraçada.
Essa virtude, porém, é também um limite: um
enredo que abre tantas possibilidades de desvario pedia um autor
mais desvairado. O Opositor, ao contrário, é
um livro bem-comportado.
O livro faz parte de uma coleção
chamada 5 Dedos de Prosa, que reúne romances dedicados
aos dedos da mão. Verissimo tratou do polegar, o dedo opositor
daí o título. A história é narrada
por um jornalista que está em Manaus fazendo uma matéria
sobre plantas alucinógenas da Amazônia. Em um boteco,
ele conhece Jósef Teodor (não por acaso, o nome de
nascimento de Joseph Conrad, britânico naturalizado que nasceu
na Polônia). O polaco parece ser apenas um bêbado criativo,
armando teorias da conspiração sob a influência
da cachaça servida pelo dono do bar, Hatoum (homenagem malandra
ao escritor amazonense Milton Hatoum). Mas aos poucos vão
se revelando estranhas correspondências entre a realidade
e os delírios de Jósef. O final, aliás, peca
por remover todas as sombras de dúvida que pairavam sobre
o relato do polaco, quebrando o clima de mistério tropical
do livro.
A história será mais divertida
para quem já leu Coração das Trevas e
souber identificar as referências paródicas que Verissimo
faz à obra-prima de Conrad. Mas há achados impagáveis
por si mesmos, como a personagem Serena, que é metade índia,
metade dinamarquesa, e faz guturais ruídos nórdicos
quando chega ao clímax sexual. É o mesmo humor inusitado
que Verissimo cultiva na crônica, gênero em que é
mestre. O Opositor como, aliás, toda a ficção
de Verissimo acaba sendo uma espécie de crônica
ampliada: uma obra ligeira, divertida e fácil de ler
mas também de esquecer.
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