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Livros
Esposa por vocação
Um ano e três meses depois da morte
do empresário Roberto Marinho, sua
viúva conta o romance de ambos em livro

Sérgio Martins
Oscar Cabral
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| Lily Marinho: "Essa história está
no livro? Não era para contar" |
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Em sua juventude, Lily Marinho quase se tornou
atriz. Na França, onde passou a adolescência, chegou
a atuar em peças e como figurante de um filme. Mas ela estava
predestinada a ter outro grande papel na vida: o de esposa. Um ano
e três meses depois da morte de seu marido, o empresário
Roberto Marinho que, à frente das Organizações
Globo, foi um dos homens mais poderosos do país , Lily
está lançando um livro em que celebra essa condição.
No autobiográfico Roberto & Lily (Record;
181 páginas; 44,90 reais), ela narra a história de
amor com ares de produção hollywoodiana vivida por
ambos. Lily conheceu Marinho em 1941, época em que era casada
com o empresário carioca Horácio de Carvalho. A
relação só se consumaria cinco décadas
depois, quando ela já era viúva. Octogenário,
Marinho separou-se de sua então mulher em 1989 para se casar
com Lily dois anos depois, e com ela viveria por catorze anos. Com
essa bela história de paixão na velhice, ela quer
transmitir uma lição de vida. "Este livro é
a prova de que o amor e a ternura ainda podem bater à nossa
porta nas horas tardias", testemunha no prefácio. Nem a morte
arrefeceu seus sentimentos. Na mansão que foi o lar do casal,
no bairro carioca do Cosme Velho, tudo continua ao gosto do amado:
sua coleção de 3 700 gravatas é mantida impecável,
a arrumação do quarto continua igual e os jardins
ainda são habitados pelas carpas e flamingos que divertiam
o empresário e os figurões da sociedade nacional
e internacional que o visitavam. "O poder sempre atrai as mulheres",
disse Lily em entrevista a VEJA.
Para registrar suas memórias, ela contou
com os serviços de um parceiro. Seus depoimentos foram colhidos
por Romaric Büel, ex-adido cultural da França no Rio
de Janeiro e autor de romances folhetinescos ambientados em Paris.
Com sua prosa açucarada, Romaric deu tom de conto de fadas
à história de seu casamento com Marinho. Lily conferiu
o conteúdo da obra por meio de sessões em que o assistente
repassava o texto para ela em voz alta. Não leu o próprio
livro depois de pronto, pois temia que sua reação
fosse a mesma que tem ao reler suas cartas. "Às vezes fico
tão encabulada que desisto de mandá-las", diz. Isso
lhe trouxe surpresas como descobrir que consta da obra um
episódio indiscreto. Em certa ocasião, ela e Marinho
fizeram parte de um mesmo grupo num fim de semana em Angra dos Reis.
O empresário ainda era casado, mas aproveitou que a mulher
estava na praia para fazer uma investida: irrompeu no quarto de
Lily e lhe deu um beijo no pescoço. "Essa história
está no livro? Não era para contar", espanta-se ela.
Foi um romance, como se vê, com lances de paixão adolescente.
"Roberto era apressado. Eu puxava o freio", diz ela. Outra revelação
é que ela deixou de tocar piano a pedido dele. "Roberto preferia
uma mulher de unhas longas a uma pianista", diz. Havia ainda cenas
de ciúme até mesmo na hora de ver TV. "Quando
Roberto elogiava a beleza de alguma moça, eu mudava de canal.
Quanto a mim, nunca fiz isso, porque mulher elogiando homem é
falta de respeito. Mas, em pensamento, tudo pode", diz.
Filha de um major inglês e de uma senhora
francesa, Lily faz questão de cultivar os valores de família
e os códigos rígidos de outras épocas. Quando
seu primeiro marido morreu, ela guardou luto por cinco anos antes
de voltar às rodas sociais cariocas. Ao mesmo tempo, é
uma figura vivaz e espirituosa, com enorme traquejo social. Não
à toa, é considerada uma anfitriã impecável.
No quesito religião, é de um ecletismo a toda prova:
acredita em horóscopo ("a astrologia é uma ciência")
e no espiritismo, mas também é católica fervorosa.
Providenciou para que uma igreja em Milão reze missas para
todo o sempre em memória de seu único filho, morto
num acidente aos 26 anos.
Embora goste de frisar sua origem européia,
Lily declara ser brasileira de coração. Até
no futebol tem suas preferências. "Torço para o time
que está ganhando. Mas, no fundo, sou Flamengo", diz. Ela
também tem opiniões firmes sobre as mulheres brasileiras.
Uma delas é criticar as colegas da alta sociedade que pegam
no batente. "Não entendo as mulheres que têm dinheiro
e trabalham. Tiram emprego de quem precisa", diz. Em ótima
forma aos 84 anos, Lily também desanca aquelas que se renderam
à moda das plásticas. "Todas as minhas amigas fizeram,
mas isso não rejuvenesce. Pode-se esticar tudo, mas o olhar
continua velho", diz. Lily satisfaz sua vaidade de outra forma:
criou um guarda-roupa fabuloso, em que só têm lugar
grifes como Chanel e Ungaro, além de uma quantidade incrível
de sapatos. "A Imelda Marcos tinha uns 3.000.
Acho que tenho menos", diz. Quando indagada se gostaria de ver seu
romance adaptado para a tela, Lily não é tão
humilde: "Ainda estão para nascer atores capazes de interpretar
a mim e a Roberto".
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Amor férreo
"Na primeira semana em que confessou
seu amor, Roberto manifestou o desejo absoluto de construir
uma relação. Eu não estava assustada
com tanta rapidez, mas, por motivos distintos, não
pretendia renunciar a uma certa prudência e moderação.
Talvez por ser mulher e ser casada durante 45 anos com
o mesmo homem, não me parecia possível
anunciar no Rio, no Brasil, uma relação
com um homem tido como o mais poderoso do país.
E uma ligação entre a viúva do
célebre Horácio de Carvalho e o faiseur
de rois (fazedor de reis) não daria origem
a uma fofoca ainda mais inverossímil e saborosa?"
Trecho de Roberto
& Lily
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