Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
À beira do abismo

Em Contra Todos, a ruína está
sempre à espreita de uma família
da periferia paulistana


Isabela Boscov


Divulgação
Lopes e Silvia, como pai e filha: bife no jantar, carro na garagem e infinitas chances de desgraça

EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos

DA INTERNET
Trailer

Em Contra Todos (Brasil, 2004), em cartaz a partir de sexta-feira no país, o diretor Roberto Moreira acompanha a dissolução súbita de um pequeno grupo de pessoas na massacrante periferia paulistana: a adolescente Soninha (Silvia Lourenço), que vive em choque com a madrasta insatisfeita (Leona Cavalli) e com o pai, Teodoro (Giulio Lopes), um matador disfarçado em moralista. Teodoro e família estão, aparentemente, a salvo de bater no fundo do poço. Têm carro, casa com um quarto para cada um e bife no jantar. Contabilizados como estatística, ficariam no azul, e não no vermelho. É aí que Contra Todos soa o alarme: esse é um falso equilíbrio, e basta um passo para lá ou para cá para que se despenque num sem-número de abismos possíveis.

A estréia em longa-metragem de Moreira compartilha com dois grandes filmes da safra recente – Cidade de Deus e O Invasor – o foco na desagregação social brasileira e no caráter infeccioso da violência. O que torna esses filmes instigantes, porém, não é o fato de eles falarem de miséria, caos e violência: é muito mais mostrar como o diretor chegou a um mundo que não é o seu. Cidade de Deus, por exemplo, nasceu dentro da favela, nas histórias registradas pelo autor Paulo Lins, e se integrou a ela durante a filmagem. O Invasor era protagonizado não pelo bandido designado no título, e sim por dois engenheiros – em muito semelhantes a qualquer pessoa na platéia do cinema ou atrás da câmera, portanto – que em dado momento colidiam, e se confundiam, com ele. Cidade de Deus e O Invasor eram, de certa forma, relatos de viagem. Em Contra Todos, esse trajeto não é visível. O filme está imerso na periferia e a retrata com um estilo bem mais próximo do documental do que do ficcional. Em vez do novo "a vida como eu a vi", tem-se o antigo "a vida como ela é". Às inquietações que o filme quer suscitar, então, se acrescenta uma outra – a de que a ficção se pretenda confundir com o documentário, com prejuízo para ambos.

 
 
 
 
topovoltar