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Cinema
À beira do abismo
Em Contra Todos,
a ruína está
sempre à espreita de uma família
da periferia paulistana

Isabela Boscov
Divulgação
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| Lopes e Silvia, como pai e filha: bife no
jantar, carro na garagem e infinitas chances de desgraça
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Em Contra Todos (Brasil, 2004),
em cartaz a partir de sexta-feira no país, o diretor Roberto
Moreira acompanha a dissolução súbita de um
pequeno grupo de pessoas na massacrante periferia paulistana: a
adolescente Soninha (Silvia Lourenço), que vive em choque
com a madrasta insatisfeita (Leona Cavalli) e com o pai, Teodoro
(Giulio Lopes), um matador disfarçado em moralista. Teodoro
e família estão, aparentemente, a salvo de bater no
fundo do poço. Têm carro, casa com um quarto para cada
um e bife no jantar. Contabilizados como estatística, ficariam
no azul, e não no vermelho. É aí que Contra
Todos soa o alarme: esse é um falso equilíbrio,
e basta um passo para lá ou para cá para que se despenque
num sem-número de abismos possíveis.
A estréia em longa-metragem de Moreira
compartilha com dois grandes filmes da safra recente Cidade
de Deus e O Invasor o foco na desagregação
social brasileira e no caráter infeccioso da violência.
O que torna esses filmes instigantes, porém, não é
o fato de eles falarem de miséria, caos e violência:
é muito mais mostrar como o diretor chegou a um mundo que
não é o seu. Cidade de Deus, por exemplo, nasceu
dentro da favela, nas histórias registradas pelo autor Paulo
Lins, e se integrou a ela durante a filmagem. O Invasor era
protagonizado não pelo bandido designado no título,
e sim por dois engenheiros em muito semelhantes a qualquer
pessoa na platéia do cinema ou atrás da câmera,
portanto que em dado momento colidiam, e se confundiam, com
ele. Cidade de Deus e O Invasor eram, de certa forma,
relatos de viagem. Em Contra Todos, esse trajeto não
é visível. O filme está imerso na periferia
e a retrata com um estilo bem mais próximo do documental
do que do ficcional. Em vez do novo "a vida como eu a vi", tem-se
o antigo "a vida como ela é". Às inquietações
que o filme quer suscitar, então, se acrescenta uma outra
a de que a ficção se pretenda confundir com
o documentário, com prejuízo para ambos.
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