Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Cinema
Bem-vindo ao
mundo do amanhã

Exceto os atores, absolutamente
tudo é virtual na surpreendente
aventura Capitão Sky


Isabela Boscov


Fotos divulgação
Robôs voadores invadem uma Nova York retrô-futurista (acima), enquanto Gwyneth e Jude visitam lugares imaginários: um mundo inventado por 70 milhões de dólares

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O gigantesco Hindenburg se aproxima de Nova York até atracar no topo do Empire State Building, numa noite de nevasca de 1939: a cena que abre Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (Sky Captain and the World of Tomorrow, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, é um desses momentos de beleza quase impossível do cinema-espetáculo americano. Impossível, aliás, em vários sentidos. Nunca um dos célebres dirigíveis alemães lançou âncora num arranha-céu nova-iorquino, e nenhum deles voava desde 1937, quando o Hindenburg pegou fogo. O mais importante, porém, é que nada que está diante dos olhos da platéia existe realmente. Repita-se: nada. Afora os atores (que atuaram diante do vazio) e uns poucos objetos de cena, tudo o que se vê em Capitão Sky é virtual, numa mistura de desenho, fotografias convencionais modificadas e imagens criadas em computador, soberbamente costuradas pela obstinação do diretor estreante Kerry Conran. Há quase uma década o mundo retrô-futurista de Capitão Sky é a mania – pode-se dizer que no sentido psiquiátrico mesmo – do americano Conran. Durante quatro anos, ele trabalhou em sua garagem, munido apenas de um computador Macintosh, para finalizar seis minutos de filme. Teria trabalhado assim outros quarenta, não fosse seu irmão Kevin (que assina a direção de arte do filme) tê-lo persuadido de que mais dinheiro e recursos seriam necessários. Graças a essa intervenção, o projeto ganhou o apoio do produtor e diretor Jon Avnet e a adesão de Gwyneth Paltrow e Jude Law, decisiva para que se chegasse ao orçamento de 70 milhões de dólares. A quantia é muito modesta para o resultado que se queria (e se conseguiu) alcançar, mas determinante para a ambição de Conran de evitar que sua cria fosse desfigurada pela pressão de produtores e marqueteiros. Em que pesem suas falhas, se há uma coisa de que não se pode acusar Capitão Sky é de ser um "filme de estúdio" – eufemismo que designa as confecções amorfas e despersonalizadas produzidas em série por Hollywood.


Divulgação
Angelina Jolie: bem até de tapa-olho


Capitão Sky
é, para o bem e para o mal, uma matinê dos anos 30 e 40. O passageiro mais importante trazido pelo Hindenburg é um cientista, cujo sumiço quase imediato atiça a curiosidade da intrépida repórter Polly Perkins (Gwyneth Paltrow): o pesquisador é o sexto a desaparecer misteriosamente. Talvez todos os seis – e um sétimo que ainda se encontra livre – estejam ligados ao surgimento dos robôs colossais, da altura de prédios, que no mesmo dia marcham sobre Nova York e outras cidades do mundo, roubando suas fontes de energia. Com a ajuda de Joe Sullivan (Jude Law), o aviador que dá nome ao filme, Polly se propõe a desvendar a trama, numa aventura que leva a dupla a pontos diversos do planeta e até acima dele, na estação aérea comandada pela igualmente intrépida oficial britânica Franky Cook (Angelina Jolie, muito favorecida por um tapa-olho estiloso). Como não poderia deixar de ser, Polly e Joe são ex-namorados e atuais desafetos, do tipo que, mesmo sob fogo inimigo ou balançando sobre penhascos, acha tempo para discutir e trocar farpas. Conran casa, assim, vários dos gêneros mais em voga à época em que a ação é ambientada – a ficção científica à moda tanto de Flash Gordon quanto de Metropolis, a comédia romântica aprimorada por diretores como Ernst Lubitsch e Preston Sturges, em que o par central necessariamente vive às turras, as aventuras B e também o noir, que andava então em seus primeiros momentos. E o faz com o mesmo capricho com que esconde o alinhavo de seus fabulosos cenários virtuais. No seu roteiro, esses gêneros são como Polly e Joe: nasceram um para o outro.

É claro, porém, que há um preço a pagar por aderir tão estritamente a esse espírito passadista e a essa concepção visual singular. Passado o primeiro impacto dos monumentais cenários art déco e da fotografia quase fantasmagórica, que combina a saturação do technicolor com o preto-e-branco, Capitão Sky começa a dar sinais de que não é fácil se mover com tanta bagagem às costas. Os diálogos meticulosamente moldados nos das comédias da época e as boas atuações de Law e Gwyneth se apequenam diante de tanta mise-en-scène e roubam um tanto do entretenimento. Capitão Sky poderia ser o mais audacioso de todos os híbridos – algo como uma aventura de Indiana Jones dirigida por um expressionista alemão –, mas que ele não chegue lá é, de certa forma, o custo da ambição. O que Conran fez foi dar forma concreta a uma miragem que já derrotou gente bem mais graúda do que ele, como George Lucas: a de um cinema finalmente livre das limitações do mundo físico. E por um preço até que módico.

 
 
 
 
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