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Cinema
Bem-vindo ao
mundo do amanhã
Exceto os atores,
absolutamente
tudo é virtual
na surpreendente
aventura Capitão Sky

Isabela Boscov
Fotos divulgação
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Robôs voadores invadem uma
Nova York retrô-futurista (acima), enquanto Gwyneth
e Jude visitam lugares imaginários: um mundo inventado
por 70 milhões de dólares |
O gigantesco Hindenburg se aproxima
de Nova York até atracar no topo do Empire State Building,
numa noite de nevasca de 1939: a cena que abre Capitão
Sky e o Mundo de Amanhã (Sky Captain and the World
of Tomorrow, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta
sexta-feira no país, é um desses momentos de beleza
quase impossível do cinema-espetáculo americano. Impossível,
aliás, em vários sentidos. Nunca um dos célebres
dirigíveis alemães lançou âncora num
arranha-céu nova-iorquino, e nenhum deles voava desde 1937,
quando o Hindenburg pegou fogo. O mais importante, porém,
é que nada que está diante dos olhos da platéia
existe realmente. Repita-se: nada. Afora os atores (que atuaram
diante do vazio) e uns poucos objetos de cena, tudo o que se vê
em Capitão Sky é virtual, numa mistura de desenho,
fotografias convencionais modificadas e imagens criadas em computador,
soberbamente costuradas pela obstinação do diretor
estreante Kerry Conran. Há quase uma década o mundo
retrô-futurista de Capitão Sky é a mania
pode-se dizer que no sentido psiquiátrico mesmo
do americano Conran. Durante quatro anos, ele trabalhou em sua garagem,
munido apenas de um computador Macintosh, para finalizar seis minutos
de filme. Teria trabalhado assim outros quarenta, não fosse
seu irmão Kevin (que assina a direção de arte
do filme) tê-lo persuadido de que mais dinheiro e recursos
seriam necessários. Graças a essa intervenção,
o projeto ganhou o apoio do produtor e diretor Jon Avnet e a adesão
de Gwyneth Paltrow e Jude Law, decisiva para que se chegasse ao
orçamento de 70 milhões de dólares. A quantia
é muito modesta para o resultado que se queria (e se conseguiu)
alcançar, mas determinante para a ambição de
Conran de evitar que sua cria fosse desfigurada pela pressão
de produtores e marqueteiros. Em que pesem suas falhas, se há
uma coisa de que não se pode acusar Capitão Sky
é de ser um "filme de estúdio" eufemismo que
designa as confecções amorfas e despersonalizadas
produzidas em série por Hollywood.
Divulgação
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| Angelina Jolie: bem até de tapa-olho
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Capitão Sky é, para o bem e para o mal, uma matinê
dos anos 30 e 40. O passageiro mais importante trazido pelo Hindenburg
é um cientista, cujo sumiço quase imediato atiça
a curiosidade da intrépida repórter Polly Perkins
(Gwyneth Paltrow): o pesquisador é o sexto a desaparecer
misteriosamente. Talvez todos os seis e um sétimo
que ainda se encontra livre estejam ligados ao surgimento
dos robôs colossais, da altura de prédios, que no mesmo
dia marcham sobre Nova York e outras cidades do mundo, roubando
suas fontes de energia. Com a ajuda de Joe Sullivan (Jude Law),
o aviador que dá nome ao filme, Polly se propõe a
desvendar a trama, numa aventura que leva a dupla a pontos diversos
do planeta e até acima dele, na estação aérea
comandada pela igualmente intrépida oficial britânica
Franky Cook (Angelina Jolie, muito favorecida por um tapa-olho estiloso).
Como não poderia deixar de ser, Polly e Joe são ex-namorados
e atuais desafetos, do tipo que, mesmo sob fogo inimigo ou balançando
sobre penhascos, acha tempo para discutir e trocar farpas. Conran
casa, assim, vários dos gêneros mais em voga à
época em que a ação é ambientada
a ficção científica à moda tanto de
Flash Gordon quanto de Metropolis, a comédia romântica
aprimorada por diretores como Ernst Lubitsch e Preston Sturges,
em que o par central necessariamente vive às turras, as aventuras
B e também o noir, que andava então em seus primeiros
momentos. E o faz com o mesmo capricho com que esconde o alinhavo
de seus fabulosos cenários virtuais. No seu roteiro, esses
gêneros são como Polly e Joe: nasceram um para o outro.
É claro, porém, que há
um preço a pagar por aderir tão estritamente a esse
espírito passadista e a essa concepção visual
singular. Passado o primeiro impacto dos monumentais cenários
art déco e da fotografia quase fantasmagórica, que
combina a saturação do technicolor com o preto-e-branco,
Capitão Sky começa a dar sinais de que não
é fácil se mover com tanta bagagem às costas.
Os diálogos meticulosamente moldados nos das comédias
da época e as boas atuações de Law e Gwyneth
se apequenam diante de tanta mise-en-scène e roubam um tanto
do entretenimento. Capitão Sky poderia ser o mais
audacioso de todos os híbridos algo como uma aventura
de Indiana Jones dirigida por um expressionista alemão ,
mas que ele não chegue lá é, de certa forma,
o custo da ambição. O que Conran fez foi dar forma
concreta a uma miragem que já derrotou gente bem mais graúda
do que ele, como George Lucas: a de um cinema finalmente livre das
limitações do mundo físico. E por um preço
até que módico.
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