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Internet
O velho novo golpe
De uma pequena cidade do sul do Pará,
fraudes são aplicadas via internet.
Programadores criam o golpe e o
repassam para criminosos, que,
mesmo sem dominar a informática,
já roubaram 80 milhões de reais

Carlos Rydlewski, de Marabá
Paulo Santos/Interfoto
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| Em Parauapebas, no sul do Pará, o dinheiro
furtado pela internet é comparado ao do garimpo: ganha-se
fácil, mas gasta-se num piscar de olhos |
Distante 836 quilômetros
de Belém, no Pará, Parauapebas, com seus 81 000 habitantes,
é uma típica cidade do interior da Amazônia.
Mas, sob a aparência de normalidade, funcionou ali um ativo
centro de perturbação da ordem mundial da internet.
A Polícia Federal prendeu, no fim do mês passado, uma
quadrilha de fraudadores de contas bancárias que, a partir
dos programas feitos em Parauapebas, se espalhou por Belém
e Marabá, além de Estados como Ceará, Maranhão
e Tocantins. A operação Cavalo de Tróia 2 descobriu
que mais de 70 pessoas estavam envolvidas no crime, praticado via
internet, mas rústico em sua concepção e execução.
Outras duas operações da PF, a CashNet, em 2001, e
a Cavalo de Tróia 1, em 2003, já haviam identificado
Parauapebas como a capital das falcatruas eletrônicas.
Raimundo Pacco/O Liberal/Ag. O Globo
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| Acusada de ser parte de uma quadrilha de roubos
pela internet é presa durante operação
batizada de Cavalo de Tróia 2 |
Comparado com os trilhões de dólares que circulam
pela web anualmente, o volume roubado é irrisório.
A PF estima que os criminosos alvo da operação Cavalo
de Tróia 2 conseguiram embolsar 80 milhões de reais.
Nenhum cliente de banco foi lesado. As instituições
cobriram o prejuízo causado pelos pilantras eletrônicos.
A tática usada era tosca. Não implicava requinte tecnológico
nem habilidade de quebrar códigos para burlar a vigilância
eletrônica dos sites dos bancos. Nada disso. Eles simplesmente
enganavam alguns incautos convencendo-os, por e-mail, a lhes mandar
dados pessoais, contas de banco e suas senhas. Em uma variante mais
tecnológica, enviavam milhões de e-mails para destinatários
em todo o país. Quem levava a sério os e-mails dos
bandidos dava um clique sobre determinada área da mensagem.
Ao fazer isso, a vítima ativava um programa de computador
que capturava os dados pessoais e os retransmitia aos criminosos.
Parauapebas se julgou por
alguns meses o centro financeiro dos porões da internet.
CDs com os programas malfeitores eram vendidos na cidade. Formou-se
uma economia do crime. "Havia uma cultura do cibercrime na cidade",
afirma o delegado Cristiano Barbosa, responsável pela investigação.
Entre os envolvidos, alguns se especializaram em obter contas-correntes
"laranjas" para onde seguia o depósito da quantia desviada.
Outros trabalhavam recrutando voluntários para a lavagem
do dinheiro, por meio de financiamentos de bens. O dinheiro era
desviado diretamente para pagar as prestações.
O primeiro dos softwares
criados em Parauapebas foi batizado de Disney.com. "Escolhi esse
nome justamente para parecer inofensivo", disse a VEJA Ataíde
Evangelista de Araújo, 30 anos, um técnico em eletrônica
ex-funcionário da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que,
após ter sido preso em novembro de 2003, responde a processo
em liberdade. No começo da década, o projeto era voltado
principalmente contra os clientes do Banco do Brasil. Mais tarde,
Araújo criou outro software, o Key Plus, direcionado para
correntistas da Caixa Econômica Federal.
Para a polícia,
prender os bandidos está longe de significar o fim dos problemas.
Como a legislação no Brasil está atrasada,
não existem leis específicas para crimes cometidos
pela internet. A definição das penalidades contra
esses criminosos é feita sempre por associação.
Os grupos são acusados de estelionato, formação
de quadrilha ou mesmo lavagem de dinheiro. "Não existe um
crime previsto para a invasão de um site, por exemplo", ressalta
a juíza Janete Lima Miguel Cabral, de Campo Grande, responsável
pelas duas primeiras condenações de fraudes pela internet
no país. Fonte de dificuldades para manter esses grupos atrás
das grades, essa deficiência causou uma situação
absurda. Na segunda operação realizada pela Polícia
Federal no Pará, em 2003, havia pouco mais de vinte pessoas
que também estavam na primeira leva de prisões feitas
em 2001. Na terceira operação, efetuada em outubro,
eram dezenove os nomes que constavam da segunda. Pelo menos cinco
pessoas foram detidas nas três ações da PF.
Uma novidade relacionada
aos crimes pela internet está no perfil de quem os pratica.
"Quase a totalidade dos suspeitos e acusados não tem outro
tipo de antecedente a não ser crimes desse mesmo tipo", observa
o advogado Miguel Viana Santos Neto, que acumula mais de cinqüenta
clientes acusados de crimes pela internet no Pará e em Estados
vizinhos. Até hoje, no Brasil, apenas três pessoas
foram condenadas por esse tipo de delito. O caso mais notório
é o de Guilherme Amorim de Oliveira Alves, 20 anos. Ele nega
ter cometido qualquer tipo de irregularidade, mas recebeu pena de
seis anos, cinco meses e seis dias. Filho de dois conceituados médicos
de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, Alves foi condenado em
2003 por estelionato, formação de quadrilha e quebra
de sigilo bancário.
No Pará, os programas
Disney.com e Key Plus ganharam novas versões e se popularizaram
nos últimos quatro anos. Os grupos são hierarquizados.
Em seu topo estão os "patrões", que chegam a pagar
até 15.000 reais por um programa
de fraude que espalha milhões de e-mails fraudulentos pela
internet. Uma vez conseguidas as senhas das vítimas, os criminosos
transferem o dinheiro para contas bancárias que não
levantem nenhuma suspeita. Elas pertencem a pessoas dispostas a
"alugar" suas contas e cartões de saque. Por produzir dinheiro
rápido e fácil, esse esquema criminoso virou febre
no Pará. "Isso é que nem dinheiro de garimpo", diz
Fernando de Souza Ferreira, 26 anos, conhecido como Duda, morador
de Parauapebas, atualmente preso em Marabá, no Pará,
suspeito de comprar cartões de débito usados para
sacar o dinheiro roubado. "Perde-se tudo o que se ganha muito rápido
comprando coisas supérfluas", diz.
A estimativa é
que 5% dos usuários de internet que recebem uma mensagem
criminosa acabam caindo no golpe. O estudo mais detalhado a esse
respeito foi realizado pelo instituto Gartner, especializado em
tecnologia. No ano passado, 57 milhões de internautas americanos
podem ter recebido pelo menos um e-mail desse tipo. Pouco menos
de 2 milhões forneceram dados bancários ou pessoais
aos golpistas. À medida que as ações dos criminosos
aumentam, crescem também as barreiras contra os golpes. São
programas de segurança e medidas de checagem. No começo
da década, os bandidos conseguiam quinze acessos a contas-correntes
em cada 1 000 tentativas. Hoje, para obter o mesmo resultado, é
preciso enviar milhões de e-mails.
Paulo Santos/Interfoto
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Para Guilherme Gomes da Silva Júnior (foto),
de 32 anos, "é muito mais fácil pegar num notebook do
que num revólver calibre 38 para ganhar dinheiro". O
programador com curso técnico preso em outubro no Pará
admite ter prestado serviço de manutenção para um grupo
que usava um software para fraudar contas bancárias
pela internet. Silva Júnior reconhece que não é preciso
grande conhecimento de computação para aplicar esse
tipo de golpe. "Mais de 90% das pessoas não sabem nada
de informática", estima. "É por isso que esse problema
virou uma coisa banal", acrescenta. "Já vi até casos
de vendedores ambulantes usando esse software, assim
como donos de farmácia e outros comerciantes..." Os
chefes das quadrilhas compram os softwares de programadores
e pedem apoio técnico quando acontece algum problema.
A facilidade e a ausência de violência e de contato
físico com as vítimas são algumas das explicações para
o grande número de pessoas sem antecedentes criminais
nas quadrilhas de roubo pela internet. O programador
diz, agora, querer colaborar com instituições financeiras.
Ele acredita que as fraudes poderiam sofrer brutal redução
caso os bancos identificassem a máquina de onde está
sendo feita a operação antes de liberar o dinheiro.
"E, para os clientes que estão em viagem ou longe de
seus computadores, é possível desenvolver uma forma
momentânea de cadastramento", declara.
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Paulo Santos/Interfoto
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No topo da hierarquia dos grupos que
atacam pela internet estão os "patrões",
que ficam com cerca de 70% de todo o dinheiro furtado.
Welligton Patrick Borges de Souza (foto),
de 25 anos, é apontado como "patrão" de
um grupo preso em Belém do Pará em outubro.
Patrick, como é conhecido, é mais um exemplo
da presença da classe média nos crimes
digitais. Antes de ser preso na operação
Cavalo de Tróia 2, Patrick estudou em colégios
particulares e levava uma vida confortável. Acabou
envolvendo quase toda a família. Além
dele, foram detidos cinco parentes, inclusive a própria
mãe. De acordo com a investigação,
Patrick resolveu usar o software de golpes pela facilidade
proporcionada pelo esquema. Quanto um grupo consegue
arrecadar? "Isso depende muito. Pode ser que de apenas
uma conta se retirem 10 000 reais", declarou a VEJA.
Patrick disse acreditar que, para combater os golpes
pela rede, basta reunir os cinco melhores programadores
entre os criminosos. "Eles conhecem as falhas do sistema",
afirmou.
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Ana Araujo
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Ex-funcionário da Companhia Vale
do Rio Doce, Ataíde
Evangelista de Araújo (foto), de 30 anos,
está no centro das operações deflagradas
pela Polícia Federal contra hackers desde 2001.
O técnico em eletrônica é o criador
do Disney.com e do Key Plus, dois programas de computador
que causaram algumas das maiores fraudes pela internet
contra bancos brasileiros. Ataíde fez os programas
no começo da década enquanto trabalhava
em Carajás, no sul do Pará, o que explica
a proliferação dessa prática de
crime no Estado. "Sempre gostei do desafio de quebrar
as senhas usadas em computador", diz Ataíde,
que formatou o primeiro software em duas semanas
ou 34 horas de programação. Inicialmente
preso, Ataíde responde em liberdade a um processo
criminal. Concordou em falar a VEJA porque garante que
está reconstruindo sua vida. "Estou trabalhando
em um programa para ajudar a segurança dos bancos.
Tenho certeza de que posso desfazer o que criei", conta.
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