Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Internet
O velho novo golpe

De uma pequena cidade do sul do Pará,
fraudes são aplicadas via internet.
Programadores criam o golpe e o
repassam para criminosos, que,
mesmo sem dominar a informática,
já roubaram 80 milhões de reais


Carlos Rydlewski, de Marabá


Paulo Santos/Interfoto
Em Parauapebas, no sul do Pará, o dinheiro furtado pela internet é comparado ao do garimpo: ganha-se fácil, mas gasta-se num piscar de olhos

Distante 836 quilômetros de Belém, no Pará, Parauapebas, com seus 81 000 habitantes, é uma típica cidade do interior da Amazônia. Mas, sob a aparência de normalidade, funcionou ali um ativo centro de perturbação da ordem mundial da internet. A Polícia Federal prendeu, no fim do mês passado, uma quadrilha de fraudadores de contas bancárias que, a partir dos programas feitos em Parauapebas, se espalhou por Belém e Marabá, além de Estados como Ceará, Maranhão e Tocantins. A operação Cavalo de Tróia 2 descobriu que mais de 70 pessoas estavam envolvidas no crime, praticado via internet, mas rústico em sua concepção e execução. Outras duas operações da PF, a CashNet, em 2001, e a Cavalo de Tróia 1, em 2003, já haviam identificado Parauapebas como a capital das falcatruas eletrônicas.

Raimundo Pacco/O Liberal/Ag. O Globo
Acusada de ser parte de uma quadrilha de roubos pela internet é presa durante operação batizada de Cavalo de Tróia 2


Comparado com os trilhões de dólares que circulam pela web anualmente, o volume roubado é irrisório. A PF estima que os criminosos alvo da operação Cavalo de Tróia 2 conseguiram embolsar 80 milhões de reais. Nenhum cliente de banco foi lesado. As instituições cobriram o prejuízo causado pelos pilantras eletrônicos. A tática usada era tosca. Não implicava requinte tecnológico nem habilidade de quebrar códigos para burlar a vigilância eletrônica dos sites dos bancos. Nada disso. Eles simplesmente enganavam alguns incautos convencendo-os, por e-mail, a lhes mandar dados pessoais, contas de banco e suas senhas. Em uma variante mais tecnológica, enviavam milhões de e-mails para destinatários em todo o país. Quem levava a sério os e-mails dos bandidos dava um clique sobre determinada área da mensagem. Ao fazer isso, a vítima ativava um programa de computador que capturava os dados pessoais e os retransmitia aos criminosos.

Parauapebas se julgou por alguns meses o centro financeiro dos porões da internet. CDs com os programas malfeitores eram vendidos na cidade. Formou-se uma economia do crime. "Havia uma cultura do cibercrime na cidade", afirma o delegado Cristiano Barbosa, responsável pela investigação. Entre os envolvidos, alguns se especializaram em obter contas-correntes "laranjas" para onde seguia o depósito da quantia desviada. Outros trabalhavam recrutando voluntários para a lavagem do dinheiro, por meio de financiamentos de bens. O dinheiro era desviado diretamente para pagar as prestações.

O primeiro dos softwares criados em Parauapebas foi batizado de Disney.com. "Escolhi esse nome justamente para parecer inofensivo", disse a VEJA Ataíde Evangelista de Araújo, 30 anos, um técnico em eletrônica ex-funcionário da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que, após ter sido preso em novembro de 2003, responde a processo em liberdade. No começo da década, o projeto era voltado principalmente contra os clientes do Banco do Brasil. Mais tarde, Araújo criou outro software, o Key Plus, direcionado para correntistas da Caixa Econômica Federal.

Para a polícia, prender os bandidos está longe de significar o fim dos problemas. Como a legislação no Brasil está atrasada, não existem leis específicas para crimes cometidos pela internet. A definição das penalidades contra esses criminosos é feita sempre por associação. Os grupos são acusados de estelionato, formação de quadrilha ou mesmo lavagem de dinheiro. "Não existe um crime previsto para a invasão de um site, por exemplo", ressalta a juíza Janete Lima Miguel Cabral, de Campo Grande, responsável pelas duas primeiras condenações de fraudes pela internet no país. Fonte de dificuldades para manter esses grupos atrás das grades, essa deficiência causou uma situação absurda. Na segunda operação realizada pela Polícia Federal no Pará, em 2003, havia pouco mais de vinte pessoas que também estavam na primeira leva de prisões feitas em 2001. Na terceira operação, efetuada em outubro, eram dezenove os nomes que constavam da segunda. Pelo menos cinco pessoas foram detidas nas três ações da PF.

Uma novidade relacionada aos crimes pela internet está no perfil de quem os pratica. "Quase a totalidade dos suspeitos e acusados não tem outro tipo de antecedente a não ser crimes desse mesmo tipo", observa o advogado Miguel Viana Santos Neto, que acumula mais de cinqüenta clientes acusados de crimes pela internet no Pará e em Estados vizinhos. Até hoje, no Brasil, apenas três pessoas foram condenadas por esse tipo de delito. O caso mais notório é o de Guilherme Amorim de Oliveira Alves, 20 anos. Ele nega ter cometido qualquer tipo de irregularidade, mas recebeu pena de seis anos, cinco meses e seis dias. Filho de dois conceituados médicos de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, Alves foi condenado em 2003 por estelionato, formação de quadrilha e quebra de sigilo bancário.

No Pará, os programas Disney.com e Key Plus ganharam novas versões e se popularizaram nos últimos quatro anos. Os grupos são hierarquizados. Em seu topo estão os "patrões", que chegam a pagar até 15.000 reais por um programa de fraude que espalha milhões de e-mails fraudulentos pela internet. Uma vez conseguidas as senhas das vítimas, os criminosos transferem o dinheiro para contas bancárias que não levantem nenhuma suspeita. Elas pertencem a pessoas dispostas a "alugar" suas contas e cartões de saque. Por produzir dinheiro rápido e fácil, esse esquema criminoso virou febre no Pará. "Isso é que nem dinheiro de garimpo", diz Fernando de Souza Ferreira, 26 anos, conhecido como Duda, morador de Parauapebas, atualmente preso em Marabá, no Pará, suspeito de comprar cartões de débito usados para sacar o dinheiro roubado. "Perde-se tudo o que se ganha muito rápido comprando coisas supérfluas", diz.

A estimativa é que 5% dos usuários de internet que recebem uma mensagem criminosa acabam caindo no golpe. O estudo mais detalhado a esse respeito foi realizado pelo instituto Gartner, especializado em tecnologia. No ano passado, 57 milhões de internautas americanos podem ter recebido pelo menos um e-mail desse tipo. Pouco menos de 2 milhões forneceram dados bancários ou pessoais aos golpistas. À medida que as ações dos criminosos aumentam, crescem também as barreiras contra os golpes. São programas de segurança e medidas de checagem. No começo da década, os bandidos conseguiam quinze acessos a contas-correntes em cada 1 000 tentativas. Hoje, para obter o mesmo resultado, é preciso enviar milhões de e-mails.

 
Paulo Santos/Interfoto


Para Guilherme Gomes da Silva Júnior (foto), de 32 anos, "é muito mais fácil pegar num notebook do que num revólver calibre 38 para ganhar dinheiro". O programador com curso técnico preso em outubro no Pará admite ter prestado serviço de manutenção para um grupo que usava um software para fraudar contas bancárias pela internet. Silva Júnior reconhece que não é preciso grande conhecimento de computação para aplicar esse tipo de golpe. "Mais de 90% das pessoas não sabem nada de informática", estima. "É por isso que esse problema virou uma coisa banal", acrescenta. "Já vi até casos de vendedores ambulantes usando esse software, assim como donos de farmácia e outros comerciantes..." Os chefes das quadrilhas compram os softwares de programadores e pedem apoio técnico quando acontece algum problema. A facilidade e a ausência de violência e de contato físico com as vítimas são algumas das explicações para o grande número de pessoas sem antecedentes criminais nas quadrilhas de roubo pela internet. O programador diz, agora, querer colaborar com instituições financeiras. Ele acredita que as fraudes poderiam sofrer brutal redução caso os bancos identificassem a máquina de onde está sendo feita a operação antes de liberar o dinheiro. "E, para os clientes que estão em viagem ou longe de seus computadores, é possível desenvolver uma forma momentânea de cadastramento", declara.

 

Paulo Santos/Interfoto

No topo da hierarquia dos grupos que atacam pela internet estão os "patrões", que ficam com cerca de 70% de todo o dinheiro furtado. Welligton Patrick Borges de Souza (foto), de 25 anos, é apontado como "patrão" de um grupo preso em Belém do Pará em outubro. Patrick, como é conhecido, é mais um exemplo da presença da classe média nos crimes digitais. Antes de ser preso na operação Cavalo de Tróia 2, Patrick estudou em colégios particulares e levava uma vida confortável. Acabou envolvendo quase toda a família. Além dele, foram detidos cinco parentes, inclusive a própria mãe. De acordo com a investigação, Patrick resolveu usar o software de golpes pela facilidade proporcionada pelo esquema. Quanto um grupo consegue arrecadar? "Isso depende muito. Pode ser que de apenas uma conta se retirem 10 000 reais", declarou a VEJA. Patrick disse acreditar que, para combater os golpes pela rede, basta reunir os cinco melhores programadores entre os criminosos. "Eles conhecem as falhas do sistema", afirmou.

 

Ana Araujo

Ex-funcionário da Companhia Vale do Rio Doce, Ataíde Evangelista de Araújo (foto), de 30 anos, está no centro das operações deflagradas pela Polícia Federal contra hackers desde 2001. O técnico em eletrônica é o criador do Disney.com e do Key Plus, dois programas de computador que causaram algumas das maiores fraudes pela internet contra bancos brasileiros. Ataíde fez os programas no começo da década enquanto trabalhava em Carajás, no sul do Pará, o que explica a proliferação dessa prática de crime no Estado. "Sempre gostei do desafio de quebrar as senhas usadas em computador", diz Ataíde, que formatou o primeiro software em duas semanas – ou 34 horas de programação. Inicialmente preso, Ataíde responde em liberdade a um processo criminal. Concordou em falar a VEJA porque garante que está reconstruindo sua vida. "Estou trabalhando em um programa para ajudar a segurança dos bancos. Tenho certeza de que posso desfazer o que criei", conta.

 
 
 
 
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