Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Internet

A internet trouxe o mundo para dentro
o computador. Agora, intrusos e vírus
querem roubar essa riqueza


Ronaldo França

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Perigos reais e imaginários
Quadro: Velocidade máxima
Quadro: As armas dos bandidos
Quadro: Os culpados
Quadro: Cuidado necessário

Na lista dos avanços que mais mudaram as feições da humanidade, a internet ocupa um lugar de destaque. No mundo todo, mais de 600 milhões de pessoas já estão ligadas a ela, apenas 35 anos depois de sua criação. Por sua capacidade de integrar, desenvolver o conhecimento e o comércio, a rede virtual tornou-se um poderoso instrumento de promoção de mudanças positivas no planeta. Como ocorre em toda comunidade, um grupo de pessoas encara a internet apenas como um atalho para obter lucros indevidos ou simplesmente perturbar a vida dos demais. Nos últimos cinco anos, enquanto experimentou sua fase de maior expansão, a rede passou a ser uma ferramenta também na mão de delinqüentes.

A cada hora registram-se, no mundo, nove tentativas de invasão remota de sistemas de empresas ou de computadores pessoais. Entenda-se por ataque um rol de ações que vão da simples diversão em se infiltrar em sistema considerado inexpugnável até a prática de crimes, como uso indevido de número de cartão de crédito, roubo de dados de contas bancárias e até extorsão. Quadrilhas se especializaram em crimes cibernéticos. Os peritos no assunto estimam que os golpes via internet bem-sucedidos produzem prejuízos anuais que ultrapassam os 13 bilhões de dólares. No Brasil, as fraudes já causaram prejuízo de 400 milhões de reais em 2004. É uma gota d'água em um sistema que serve de meio de transação segura para negócios que, neste ano, segundo a consultoria Forrester Research, devem chegar a 6,4 trilhões de dólares em todo o mundo.


AP
A
Kevin Mitnick: o hacker mais procurado pelo FBI em todos os tempos foi o expoente de uma geração que buscava o desafio mas não visava dinheiro

O volume insignificante não explica por que o crime via internet provoca tanto temor nos usuários. Esse medo tem duas raízes. A primeira é a desconfiança que todo avanço tecnológico desperta nas pessoas. A segunda vem do fato real de que, embora seja segura para negócios e transações bancárias, a internet parece uma peneira. Qualquer pessoa com seu computador ligado na rede mundial tem a nítida sensação de que seu PC está sendo atacado por todos os lados. Quem não conhece ou não usa programas de proteção contra vírus ou invasores – os chamados firewalls, ou "paredes de fogo" – navega pela internet como os primeiros desbravadores dos mares, em meio a perigos reais e irreais. A sensação que se tem em muitos casos é a de que o computador é um aparelho mal-assombrado cujas janelas abrem e fecham sem que o usuário tenha a chance de lhe dar nenhum comando. Os PCs infestados por vírus ou sem bloqueadores de programas intrusos parecem possuídos por uma força sobrenatural que os comanda à revelia dos desejos do dono. Essa situação tem sido o maior empecilho ao uso ainda mais intenso das fabulosas possibilidades da internet para o comércio e as transações financeiras.

No Brasil, apenas 10% dos 30 milhões de usuários se dispõem a fazer compras on-line. A expectativa é que, neste ano, o faturamento do comércio eletrônico no país chegue a 1,7 bilhão de reais. Segundo pesquisa da Módulo Security, empresa especializada em segurança de informação, 43% das empresas relataram que, em 2002, sofreram ataques em seus computadores. É um número alto, mas mais baixo do que o registrado em 2003. No ano passado, a mesma resposta foi dada por 77% dos profissionais entrevistados. A pesquisa mostrou também que 58% dos entrevistados admitiram não se sentir pessoalmente seguros para fazer compras via internet. Quando os profissionais da área pensam assim, é sinal de que a sensação entre os leigos é menos positiva ainda.


Columbia/Tri-Star Pictures
A atriz Sandra Bullock, em A Rede: a realidade supera a ficção

Conto-do-vigário – Para entender por quê, basta um resumo do que os hackers são capazes de fazer. Até pouco tempo atrás, a única coisa de que se ouvia falar eram os famosos vírus, cuja finalidade era violar as máquinas, desorganizando os arquivos. Eles continuam existindo, claro, e em número exponencialmente maior. Mas, comparados às novas arapucas cibernéticas, soam como brincadeira de criança. Uma das mais disseminadas hoje em dia, responsável por 44% dos ataques de delinqüentes cibernéticos no Brasil, é o phishing, corruptela do inglês fishing, ou pescaria. Nos Estados Unidos, segundo a Gartner Inc., empresa especializada em pesquisa e análise sobre a internet, 57 milhões de usuários de internet adultos podem ter sido alvo desse golpe. Ele é o que mais se aproxima do tradicional conto-do-vigário. Isso mesmo: apesar de toda a tecnologia existente, a principal estratégia dos salafrários ainda é explorar a boa-fé das pessoas, só que agora na rede mundial de computadores. O phishing é especialmente danoso ao usuário doméstico porque o objetivo é pegar os dados que permitam entrar em sua conta-corrente.

Sua forma mais comum é o envio de e-mails chamados no jargão informático de scam. Pode ser qualquer coisa. Em 2001, rodou o mundo um e-mail prometendo fotos da exuberante tenista Anna Kournikova. Era balela. Quem abria instalava em seu computador um worm, programa que se aloja no HD, de onde começa a operar a serviço dos hackers. Os scams surgem na tela como se tivessem sido mandados por instituições conhecidas, como a Receita Federal, bancos ou organismos de proteção ao crédito, por exemplo. As mensagens têm sempre um tom ameaçador, como o aviso de um débito inesperado, de dívidas com o Fisco ou de que se está com o nome sujo na praça. Vale tudo. Sob o pretexto de facilitar as coisas, esses e-mails trazem um link para que se tenha acesso aos detalhes da situação junto à instituição. O clique, obviamente, não leva a pessoa ao site do banco ou da Receita Federal, mas a uma página clone da original. Ali, outra mensagem orienta a vítima a preencher um formulário com seus dados pessoais. Pronto. É tudo o que os delinqüentes queriam. O golpe pode parecer tão óbvio que é difícil imaginar alguém se deixando enganar por ele. Mas, como os bandidos mandam mensagens para dezenas de milhões de pessoas, sempre haverá entre elas algumas desinformadas sobre a maldade cibernética. "As pessoas devem desconfiar de todo pedido que recebem pela rede", avisa Vincent Weafer, diretor sênior dos centros de pesquisa em segurança da Symantec, um dos maiores fabricantes mundiais de softwares de segurança.

Outra modalidade de ataque em voga são os cavalos-de-tróia, programas que se instalam dentro de um micro abrindo portas para uma nova invasão. Eles surgem como e-mails ou links em uma página, oferecendo atrativos. O nome faz referência ao lendário episódio descrito por Homero, na Ilíada, em que os gregos colocaram um pelotão de soldados dentro dos muros de Tróia usando um gigantesco cavalo de madeira. Na versão cibernética, o programa se instala no computador sem que o usuário perceba. É o primeiro passo para que estelionatários obtenham informações como nome, endereço, número de CPF e até mesmo o número da conta bancária e senha.

Uma arapuca mais requintada que os cavalos-de-tróia são os spywares, programas que vasculham sua máquina em busca de sua senha bancária, por exemplo, independentemente do que se digita no teclado. Eles vão direto aos programas para fazê-lo. Em sua versão mais light, são chamados de adware, pois têm como única função registrar as páginas na internet que a pessoa mais acessa para, a partir daí, formular um perfil do consumidor. As informações são posteriormente vendidas para empresas de envio de spams, os insuportáveis e-mails de propaganda. Pode parecer mais inofensivo, mas não há nada de inocente na idéia de que é possível haver alguém monitorando suas ações ou de seus filhos. Para evitar os spywares, os bancos resolveram criar teclados virtuais em que a senha é digitada apenas se apertando o botão do mouse. Nos últimos tempos, todas as empresas adotaram proteção contra hackers. Os programas e a estruturação das quadrilhas também se profissionalizaram. Tirar o site de uma empresa do ar e exigir resgate para trazê-lo de volta era uma modalidade de crime impensável alguns anos atrás. Tornou-se uma ocorrência menos rara.

O crime na rede – Em 1995, notabilizou-se a figura do estudante americano Kevin Mitnick, o primeiro e mais famoso hacker da história mundial. Mitnick entrou para a lista de procurados do FBI após uma impressionante trajetória de invasões a sites de empresas e do governo. Suas táticas de ação conjugavam sua admirável capacidade técnica com a engenhosidade na elaboração de suas ações. Apanhado em sua casa, foi condenado a cinco anos de prisão por ter causado prejuízos estimados em 80 milhões de dólares. Seu histórico é obviamente o de um transgressor. A diferença de Mitnick para os hackers que andam hoje soltos no ciberespaço é que o americano nunca colocou um centavo no bolso. Seus golpes eram praticados pela tentação do desafio. O que se vê na internet hoje é uma ponte direta com o mundo do crime e com todo o nível de sofisticação que a mais moderna tecnologia pode proporcionar. "As fraudes e o crime organizado representam 5% dos crimes na internet, e esses são os que mais preocupam a polícia", afirma Mauro Marcelo Silva, diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ele é um especialista em crimes cibernéticos. A preocupação decorre da dificuldade de investigar essas quadrilhas, muitas vezes instaladas em países distantes. Em sua maioria, as queixas contra atos ilegais na internet são de crimes contra a honra.

Ainda não se tem notícia na vida real de algo tão desesperador quanto o que ocorre no filme A Rede, thriller cibernético estrelado pela atriz Sandra Bullock. Ela vive o papel de uma especialista em informática que, após ter acesso a informações ultra-secretas, passa a ser monitorada, tem sua identidade roubada e é alvo de uma bem articulada campanha de difamação na internet. Não se deve mesmo imaginar que histórias como essa são fruto apenas da criatividade de roteiristas de cinema. No Brasil, tornou-se célebre o caso protagonizado pelo empresário Ricardo Mansur, aquele mesmo que quebrou as redes de departamentos Mesbla e Mappin, deixando atrás de si prejuízo de 400 milhões de reais. Em 2000, ele foi acusado de enviar e-mails com notícias alarmantes sobre a saúde financeira do Bradesco. Foi condenado inicialmente a três anos de prisão, por crimes contra o sistema financeiro, mas teve a pena substituída por multas e serviços à comunidade.

O primeiro crime cibernético registrado no Brasil aconteceu em São Paulo, em 1996. As ocorrências surgiram na mesma proporção em que a rede crescia. Mas não existe ainda total acordo sobre o que representam legalmente tais invasões. Ainda se tenta enquadrar essas ações em artigos do velho Código Penal brasileiro, escrito em 1940, quase trinta anos antes do nascimento da rede. À falta de uma legislação específica – o primeiro projeto de lei sobre o assunto está em gestação no Congresso – soma-se o fato de que os crimes, muitas vezes, cruzam fronteiras como o vento e, no lugar onde foram praticados, nem sequer são considerados crimes. Claro que uma vítima de fraude ou ataque à honra sempre poderá exigir reparação na Justiça. Mas, por enquanto, dificilmente o autor irá para a cadeia. "Na dúvida, sempre se deve procurar a polícia. No caso dos crimes cibernéticos, o cuidado deve ser redobrado", afirma o advogado carioca Atílio Gorini, especialista no assunto.

Não há motivo para pensar que se está correndo risco em um site de banco ou em uma loja virtual de renome. Os especialistas são unânimes em afirmar que é quase impossível a um hacker se intrometer em uma ligação de alguém que está acessando seu banco via internet. As empresas e bancos fazem investimentos pesados em segurança. A IBM tem um exército de 2.700 pessoas encarregadas de manter a segurança de suas transações com clientes ou outras empresas. A Microsoft, empresa que domina o mercado de programas para computadores pessoais, acordou para o problema e acaba de lançar uma atualização para seu sistema operacional Windows XP que visa principalmente blindar os PCs contra invasores. Via internet, a Microsoft faz atualizações periódicas que instalam nos micros novas soluções de defesa. O investimento global em segurança na rede beira a casa dos 2 bilhões de dólares por ano. Afirma Bruno Fiorentini, presidente do megaportal Yahoo! no Brasil: "A internet reproduz o que acontece na vida real. Ninguém anda numa rua escura de madrugada sem correr risco. Não se deve fazer o mesmo na rede. É preciso redobrar o cuidado ao navegar em áreas desconhecidas".

 

A visão dos Badir

Cegos de nascimento, os irmãos Badir produziram, em Israel, um dos casos mais bizarros de fraude eletrônica de que se tem notícia. Ramy, Muzher e Shadde roubaram mais de 2 milhões de dólares de usuários de cartões de crédito e de empresas de telefonia. Entre outros crimes, os três montaram uma companhia de longa distância que tinha custo zero porque explorava, sem ser notada, o sistema telefônico de outras empresas. Seus maiores clientes, palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, adoravam o baixo custo dos telefonemas, proporcionado, é claro, pelo uso indevido das linhas de terceiros. A deficiência visual congênita dos Badir exigiu dos irmãos o uso de teclados em braile e programas especiais. Mas também lhes deu uma vantagem em relação às vítimas. Por não enxergarem, os três desenvolveram audição privilegiada e capacidade impressionante de se passar, ao telefone, por funcionários de empresas de longa distância. Eles faziam chamadas para as vítimas e pediam que digitassem senhas e códigos ao telefone. Depois, traduziam para números os tons produzidos pelas teclas. Os três foram pegos em 1999 quando decidiram entrar no sistema eletrônico dos militares israelenses. Ramy cumpriu pena de 47 meses. Reabilitados, os irmãos Badir trabalham em um programa de proteção ao sistema de telefonia. Ninguém melhor do que eles para enxergar os perigos das fraudes eletrônicas.

 

 
 
 
 
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