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Artigo:
Henry Kissinger É
hora de definir uma nova ordem mundial
"O surgimento de um governo radical em Bagdá mergulharia o mundo
islâmico inteiro em confusão. Isso ocorreria na hipótese
de uma derrota ou fadiga dos Estados Unidos decorrente do enfrentamento
solitário dos problemas no Iraque"
A campanha eleitoral que mesmerizou os Estados Unidos e o mundo
acabou. Sobrevivem, porém, os desafios que, por vezes, fomentaram a frenética
batalha eleitoral e a responsabilidade de lidar com eles.
Nenhum presidente enfrentou antes uma pauta de assuntos de tamanho alcance. Isso
não é um exagero. São apenas as cartas que o jogo da história
distribuiu à atual geração. Nunca antes havia sido necessário
fazer uma guerra sem linhas de frente claras ou fronteira geográfica definida
e, ao mesmo tempo, reconstruir os princípios fundamentais da ordem mundial
para substituir os tradicionais, que se foram junto com a fumaça do World
Trade Center e do Pentágono.
George W. Bush terá de liderar um esforço para definir e depois
manter um sistema internacional que reflita as novas e revolucionárias
circunstâncias. Apoiei Bush durante a campanha. Mas os Estados Unidos não
podem dar conta de todas as tarefas necessárias sem que antes haja um compromisso
das partes envolvidas para curar as feridas abertas durante a campanha eleitoral.
A preocupação com o futuro deve ser o motivo para que todos cooperem
entre si de modo que o mundo possa, de novo, ver os americanos trabalhando em
prol de um destino comum não apenas para os EUA, mas para a comunidade
das nações. O objetivo deste artigo é contribuir com esse
esforço. Nenhum
outro assunto vai testar mais urgentemente tanto o bipartidarismo quanto a capacidade
de cooperação internacional do que a próxima fase da presença
americana no Iraque. O surgimento de um governo radical em Bagdá mergulharia
o mundo islâmico inteiro em confusão. Isso ocorreria na hipótese
de uma derrota ou fadiga dos Estados Unidos decorrente do enfrentamento solitário
dos problemas no Iraque. Ocorreria, com certeza, caso o Iraque afunde no caos
terrorista. Outras
nações precisam perceber que é do interesse delas participar
nem que seja nas tarefas de reconstrução política e econômica
do Iraque. Não existe um atalho: é imperativo restaurar a segurança
no Iraque, especialmente nas áreas que se tornaram santuários terroristas.
As primeiras eleições nacionais, marcadas para o fim de janeiro,
são o próximo passo. Elas devem ser encaradas não como a
culminação do estabelecimento de um governo estável no Iraque.
Elas devem ser vistas apenas como o primeiro e menos complicado estágio
para a existência de um Iraque autogovernado.
O país é composto de três grandes grupos: curdos, xiitas e
sunitas, com os xiitas representando aproximadamente 60% da população
e os outros dois grupos, 20% cada um. Por 500 anos os sunitas exerceram sua dominação
pela força militar e, durante o regime de Saddam, usaram de enorme brutalidade.
Eleições nacionais baseadas na regra de que a maioria vence vão
implicar uma radical transformação no poder relativo que as três
comunidades se acostumaram a ter entre elas.
A insurgência na região dos sunitas não é somente uma
resistência nacionalista aos americanos. É uma tentativa de restaurar
um antigo domínio político de uma das etnias sobre as demais.
Portanto, as eleições de janeiro no Iraque devem ser encaradas como
a extensão da longa disputa travada entre os vários grupos étnicos,
envolvendo o constante risco de uma guerra civil ou de um levante nacionalista
contra os Estados Unidos ou ambos.
Algum grau de internacionalização no Iraque e o firme apoio doméstico
nos EUA fazem parte da única saída realista para estabilizar o caldeirão
em potencial que se formará depois das eleições de janeiro.
Além de requerer a participação dos países da Otan
e outros, uma internacionalização realmente significativa exigirá
que se amplie o foco da presença externa no Iraque, hoje centrado exclusivamente
na segurança,
Isso não significa ceder ao consenso. Os Estados Unidos, por força
de sua presença militar e por seu papel comercial-financeiro, deverão
manter a posição de liderança. Depois das eleições
de janeiro, seria desejável a criação de um grupo internacional,
sob o patrocínio da ONU, com o objetivo de acompanhar a evolução
da política iraquiana. Os integrantes mais naturais de um grupo desses
seriam os países que abrigam militantes islâmicos e que tenham muito
a perder com a radicalização do Iraque países como
a Índia, a Turquia, a Rússia e a Argélia, além dos
EUA e da Inglaterra.
Embora a militância islâmica seja o mais imediato e óbvio desafio
à ordem internacional, a proliferação nuclear é a
ameaça mais insidiosa e de longo alcance para a sobrevivência global.
O sistema internacional enfrenta agora o iminente alastramento de armas nucleares
por dois países com uma agenda preocupante: o esquisito, isolado regime
da Coréia do Norte e o Irã, cujo regime atual tem apoiado toda sorte
de grupos terroristas do Oriente Médio e que continua a declarar os Estados
Unidos seu principal inimigo.
Na Coréia do Norte, o problema é determinar se as negociações
devem ser conduzidas bilateralmente entre os Estados Unidos e a própria
Coréia ou por meio do fórum de seis membros já existente
em Pequim e que compreende a Coréia do Norte, a Coréia do Sul, a
China, o Japão, a Rússia e os Estados Unidos.
Cada um desses países tem, como pano de fundo no debate, os próprios
objetivos políticos e estratégicos. Por essa razão, as tecnicalidades
envolvidas na não-proliferação nuclear empalidecem quando
comparadas ao objetivo maior de criar um sistema de segurança para o nordeste
da Ásia. Uma análise similar poderia ser feita no caso do Irã,
para o qual ainda não existe um fórum de discussão.
De qualquer forma, a solução não pode ser relegada a conversações
bilaterais entre os EUA e os países proliferadores. A insistência
no bilateralismo entre Estados Unidos e Coréia do Norte deixaria a América
na incômoda situação de fazer valer sozinha um acordo bem
na fronteira com a China. E isso seria um convite a Pyongyang para usar, no futuro,
o novo acordo como uma forma de chantagem. Foi esse seu padrão de conduta
logo depois do acordo bilateral de 1994. O mesmo se aplica, em diferente contexto,
às relações com o Irã.
Importantes como sejam, as crises regionais perdem estatura pela transferência
essencial de poder dentro do sistema internacional. Historiadores concordam que
o surgimento de uma Alemanha unificada, mais de um século atrás,
abalou o sistema europeu ao introduzir um Estado mais poderoso do que cada um
de seus vizinhos. Em nossa época, a ascensão da China ao posto de
superpotência em formação tem maior significado histórico,
uma vez que marca o deslocamento do centro de gravidade dos negócios mundiais
do Atlântico para o Pacífico.
Com certeza, a China não terá uma política tão imprudente
como a da União Soviética, que ameaçou todos os seus vizinhos
simultaneamente e desafiou os Estados Unidos para uma disputa de sobrevivência.
Tomando-se Taiwan como um caso à parte, a China se contentará em
ter uma influência, por meios diplomáticos e políticos, lastreada
em seu crescimento econômico.
Tanto os líderes de Pequim quanto os de Washington têm a responsabilidade
de ajudar a formar as opiniões das gerações vindouras. Com
respeito à China, a prioridade deveria ser evitar que o nacionalismo que
está substituindo o comunismo tome o caminho do confronto. Na América,
a prioridade é vencer a tentação de ver a história
pelo prisma da experiência mais recente em prejuízo de uma visão
de longo prazo. As
relações entre a China e os Estados Unidos exigem um diálogo
estratégico permanente de alto nível, buscando definir propósitos
de longo prazo para torná-los compatíveis onde for possível
e para reduzir o perigo de confronto quando esse esforço falhar. Precisam
evitar que a questão de Taiwan arruíne suas relações.
Tudo isso nos traz
de volta às relações no Atlântico. A campanha política
reduziu as divergências atlânticas aos erros táticos americanos
de curto prazo. É uma leitura errônea da realidade. O problema vai
muito além das personalidades.
O impasse deve-se em parte ao fato de a geração que deu forma às
relações atlânticas ter saído de cena.
Na Europa, as nações que inventaram o conceito de Estado-nação
estão agora no processo de entregar sua soberania para fazer parte da União
Européia, que ainda não possui os atributos tradicionais de Estado.
Tudo isso gerou uma
mistura explosiva de incompreensões mútuas. Essas condições
não podem ser removidas por simples consulta sobre qualquer assunto individual
e requerem uma séria mudança de atitude em ambos os lados do Atlântico.
As nações às margens do Atlântico Norte precisam se
fazer a pergunta fundamental que sempre estruturou essa aliança: além
do consenso internacional já representado pela ONU, que mais os aliados
vão fazer em prol de suas boas relações?
A maior parte do debate que ocorre hoje na Europa dá a entender que a resposta
é "muito pouco". Submeter uma ação militar comum à
aprovação prévia do Conselho de Segurança é
incompatível com o próprio conceito de aliança, que implica
uma série especial de obrigações. Representa a desintegração
final de uma ordem mundial que tem na parceria do Atlântico sua peça
central. A parceria
atlântica, para fazer sentido, precisa ter caráter especial. Os Estados
Unidos e a Europa têm de estar dispostos a fazer coisas uns pelos outros
numa esfera além dos ditames imediatos do interesse nacional e sem insistir
num consenso universal.
Um aprofundamento no diálogo entre os dois lados do Atlântico é
imperativo. Deveria ser, ainda, complementado por uma nova abordagem do problema
palestino-israelense. Durante décadas, o impasse diplomático se
aprofundou porque a Europa transparecia ser a defensora da posição
palestina enquanto os EUA eram os paladinos do objetivo de Israel. Mas novas circunstâncias
permitem imaginar como as duas posições podem se aproximar. Nesse
processo, a aliança do Atlântico poderá redescobrir seu propósito
comum. O debate entre
unilateralismo e multilateralismo precisa ser superado com essa perspectiva em
mente. Unilateralismo por si só é contraproducente. Assim também
é o multilateralismo abstrato.
O dilema de nossa era foi, talvez, mais bem resumido pelo filósofo Immanuel
Kant, há mais de 200 anos. Em seu ensaio Paz Perpétua, ele
escreveu que o mundo está destinado à paz perpétua. Ela viria
ou da perspicácia humana ou de uma série de catástrofes que
não deixarão ao mundo outra opção. Qual delas será
a realidade é a suprema questão que o recém-reeleito presidente
terá de enfrentar. Henry
Kissinger, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, foi secretário de Estado
dos EUA |