Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Artigo: Henry Kissinger
É hora de definir uma nova ordem mundial

"O surgimento de um governo radical em
Bagdá mergulharia o mundo islâmico inteiro
em confusão. Isso ocorreria na hipótese de
uma derrota ou fadiga dos Estados Unidos
decorrente do enfrentamento solitário dos
problemas no Iraque"

A campanha eleitoral que mesmerizou os Estados Unidos – e o mundo – acabou. Sobrevivem, porém, os desafios que, por vezes, fomentaram a frenética batalha eleitoral e a responsabilidade de lidar com eles.

Nenhum presidente enfrentou antes uma pauta de assuntos de tamanho alcance. Isso não é um exagero. São apenas as cartas que o jogo da história distribuiu à atual geração. Nunca antes havia sido necessário fazer uma guerra sem linhas de frente claras ou fronteira geográfica definida e, ao mesmo tempo, reconstruir os princípios fundamentais da ordem mundial para substituir os tradicionais, que se foram junto com a fumaça do World Trade Center e do Pentágono.

George W. Bush terá de liderar um esforço para definir e depois manter um sistema internacional que reflita as novas e revolucionárias circunstâncias. Apoiei Bush durante a campanha. Mas os Estados Unidos não podem dar conta de todas as tarefas necessárias sem que antes haja um compromisso das partes envolvidas para curar as feridas abertas durante a campanha eleitoral. A preocupação com o futuro deve ser o motivo para que todos cooperem entre si de modo que o mundo possa, de novo, ver os americanos trabalhando em prol de um destino comum não apenas para os EUA, mas para a comunidade das nações. O objetivo deste artigo é contribuir com esse esforço.

Nenhum outro assunto vai testar mais urgentemente tanto o bipartidarismo quanto a capacidade de cooperação internacional do que a próxima fase da presença americana no Iraque. O surgimento de um governo radical em Bagdá mergulharia o mundo islâmico inteiro em confusão. Isso ocorreria na hipótese de uma derrota ou fadiga dos Estados Unidos decorrente do enfrentamento solitário dos problemas no Iraque. Ocorreria, com certeza, caso o Iraque afunde no caos terrorista.

Outras nações precisam perceber que é do interesse delas participar nem que seja nas tarefas de reconstrução política e econômica do Iraque. Não existe um atalho: é imperativo restaurar a segurança no Iraque, especialmente nas áreas que se tornaram santuários terroristas. As primeiras eleições nacionais, marcadas para o fim de janeiro, são o próximo passo. Elas devem ser encaradas não como a culminação do estabelecimento de um governo estável no Iraque. Elas devem ser vistas apenas como o primeiro e menos complicado estágio para a existência de um Iraque autogovernado.

O país é composto de três grandes grupos: curdos, xiitas e sunitas, com os xiitas representando aproximadamente 60% da população e os outros dois grupos, 20% cada um. Por 500 anos os sunitas exerceram sua dominação pela força militar e, durante o regime de Saddam, usaram de enorme brutalidade. Eleições nacionais baseadas na regra de que a maioria vence vão implicar uma radical transformação no poder relativo que as três comunidades se acostumaram a ter entre elas.

A insurgência na região dos sunitas não é somente uma resistência nacionalista aos americanos. É uma tentativa de restaurar um antigo domínio político de uma das etnias sobre as demais.

Portanto, as eleições de janeiro no Iraque devem ser encaradas como a extensão da longa disputa travada entre os vários grupos étnicos, envolvendo o constante risco de uma guerra civil ou de um levante nacionalista contra os Estados Unidos – ou ambos.

Algum grau de internacionalização no Iraque e o firme apoio doméstico nos EUA fazem parte da única saída realista para estabilizar o caldeirão em potencial que se formará depois das eleições de janeiro. Além de requerer a participação dos países da Otan e outros, uma internacionalização realmente significativa exigirá que se amplie o foco da presença externa no Iraque, hoje centrado exclusivamente na segurança,

Isso não significa ceder ao consenso. Os Estados Unidos, por força de sua presença militar e por seu papel comercial-financeiro, deverão manter a posição de liderança. Depois das eleições de janeiro, seria desejável a criação de um grupo internacional, sob o patrocínio da ONU, com o objetivo de acompanhar a evolução da política iraquiana. Os integrantes mais naturais de um grupo desses seriam os países que abrigam militantes islâmicos e que tenham muito a perder com a radicalização do Iraque – países como a Índia, a Turquia, a Rússia e a Argélia, além dos EUA e da Inglaterra.

Embora a militância islâmica seja o mais imediato e óbvio desafio à ordem internacional, a proliferação nuclear é a ameaça mais insidiosa e de longo alcance para a sobrevivência global. O sistema internacional enfrenta agora o iminente alastramento de armas nucleares por dois países com uma agenda preocupante: o esquisito, isolado regime da Coréia do Norte e o Irã, cujo regime atual tem apoiado toda sorte de grupos terroristas do Oriente Médio e que continua a declarar os Estados Unidos seu principal inimigo.

Na Coréia do Norte, o problema é determinar se as negociações devem ser conduzidas bilateralmente entre os Estados Unidos e a própria Coréia ou por meio do fórum de seis membros já existente em Pequim e que compreende a Coréia do Norte, a Coréia do Sul, a China, o Japão, a Rússia e os Estados Unidos.

Cada um desses países tem, como pano de fundo no debate, os próprios objetivos políticos e estratégicos. Por essa razão, as tecnicalidades envolvidas na não-proliferação nuclear empalidecem quando comparadas ao objetivo maior de criar um sistema de segurança para o nordeste da Ásia. Uma análise similar poderia ser feita no caso do Irã, para o qual ainda não existe um fórum de discussão.

De qualquer forma, a solução não pode ser relegada a conversações bilaterais entre os EUA e os países proliferadores. A insistência no bilateralismo entre Estados Unidos e Coréia do Norte deixaria a América na incômoda situação de fazer valer sozinha um acordo bem na fronteira com a China. E isso seria um convite a Pyongyang para usar, no futuro, o novo acordo como uma forma de chantagem. Foi esse seu padrão de conduta logo depois do acordo bilateral de 1994. O mesmo se aplica, em diferente contexto, às relações com o Irã.

Importantes como sejam, as crises regionais perdem estatura pela transferência essencial de poder dentro do sistema internacional. Historiadores concordam que o surgimento de uma Alemanha unificada, mais de um século atrás, abalou o sistema europeu ao introduzir um Estado mais poderoso do que cada um de seus vizinhos. Em nossa época, a ascensão da China ao posto de superpotência em formação tem maior significado histórico, uma vez que marca o deslocamento do centro de gravidade dos negócios mundiais do Atlântico para o Pacífico.

Com certeza, a China não terá uma política tão imprudente como a da União Soviética, que ameaçou todos os seus vizinhos simultaneamente e desafiou os Estados Unidos para uma disputa de sobrevivência. Tomando-se Taiwan como um caso à parte, a China se contentará em ter uma influência, por meios diplomáticos e políticos, lastreada em seu crescimento econômico.

Tanto os líderes de Pequim quanto os de Washington têm a responsabilidade de ajudar a formar as opiniões das gerações vindouras. Com respeito à China, a prioridade deveria ser evitar que o nacionalismo que está substituindo o comunismo tome o caminho do confronto. Na América, a prioridade é vencer a tentação de ver a história pelo prisma da experiência mais recente em prejuízo de uma visão de longo prazo.

As relações entre a China e os Estados Unidos exigem um diálogo estratégico permanente de alto nível, buscando definir propósitos de longo prazo – para torná-los compatíveis onde for possível e para reduzir o perigo de confronto quando esse esforço falhar. Precisam evitar que a questão de Taiwan arruíne suas relações.

Tudo isso nos traz de volta às relações no Atlântico. A campanha política reduziu as divergências atlânticas aos erros táticos americanos de curto prazo. É uma leitura errônea da realidade. O problema vai muito além das personalidades.

O impasse deve-se em parte ao fato de a geração que deu forma às relações atlânticas ter saído de cena.

Na Europa, as nações que inventaram o conceito de Estado-nação estão agora no processo de entregar sua soberania para fazer parte da União Européia, que ainda não possui os atributos tradicionais de Estado.

Tudo isso gerou uma mistura explosiva de incompreensões mútuas. Essas condições não podem ser removidas por simples consulta sobre qualquer assunto individual e requerem uma séria mudança de atitude em ambos os lados do Atlântico. As nações às margens do Atlântico Norte precisam se fazer a pergunta fundamental que sempre estruturou essa aliança: além do consenso internacional já representado pela ONU, que mais os aliados vão fazer em prol de suas boas relações?

A maior parte do debate que ocorre hoje na Europa dá a entender que a resposta é "muito pouco". Submeter uma ação militar comum à aprovação prévia do Conselho de Segurança é incompatível com o próprio conceito de aliança, que implica uma série especial de obrigações. Representa a desintegração final de uma ordem mundial que tem na parceria do Atlântico sua peça central.

A parceria atlântica, para fazer sentido, precisa ter caráter especial. Os Estados Unidos e a Europa têm de estar dispostos a fazer coisas uns pelos outros numa esfera além dos ditames imediatos do interesse nacional e sem insistir num consenso universal.

Um aprofundamento no diálogo entre os dois lados do Atlântico é imperativo. Deveria ser, ainda, complementado por uma nova abordagem do problema palestino-israelense. Durante décadas, o impasse diplomático se aprofundou porque a Europa transparecia ser a defensora da posição palestina enquanto os EUA eram os paladinos do objetivo de Israel. Mas novas circunstâncias permitem imaginar como as duas posições podem se aproximar. Nesse processo, a aliança do Atlântico poderá redescobrir seu propósito comum.

O debate entre unilateralismo e multilateralismo precisa ser superado com essa perspectiva em mente. Unilateralismo por si só é contraproducente. Assim também é o multilateralismo abstrato.

O dilema de nossa era foi, talvez, mais bem resumido pelo filósofo Immanuel Kant, há mais de 200 anos. Em seu ensaio Paz Perpétua, ele escreveu que o mundo está destinado à paz perpétua. Ela viria ou da perspicácia humana ou de uma série de catástrofes que não deixarão ao mundo outra opção. Qual delas será a realidade é a suprema questão que o recém-reeleito presidente terá de enfrentar.


Henry Kissinger, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, foi secretário de Estado dos EUA

 
 
 
 
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