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Internacional O
Chile abre os porões Comando
assume a responsabilidade do
Exército nas barbáries da ditadura
AP
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Cheyre: por fim, uma admissão de culpa oficial |
O
presidente Ricardo Lagos, do Chile, recebeu na semana passada um relatório
sobre as prisões políticas, as torturas e as mortes cometidas pela
ditadura do general Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990. A comissão
que elaborou o estudo foi formada a pedido do próprio presidente, há
um ano. Foi um trabalho de fôlego, elaborado com base nos depoimentos de
35.000 pessoas perseguidas pelo regime militar. Os chilenos estão acostumados
a ouvir os militares dizerem que, se houve tortura e mortes nos porões
do regime, foram cometidas por "algumas maçãs podres" das Forças
Armadas. Essa versão caiu por terra há duas semanas, quando o comandante
do Exército, general Juan Emilio Cheyre, divulgou uma carta em que assume
a culpa da instituição nas violações de direitos humanos
da ditadura. "Este é um passo importante para o Chile. Quantos países
se atreveram a olhar em profundidade sua história?", disse o presidente
Lagos.
A Argentina teve igual coragem. Em 1995, as Forças Armadas assumiram a
responsabilidade institucional pelo desaparecimento de 30.000 argentinos. No Brasil,
isso nunca ocorreu. Ao contrário, no mês passado o Exército
reagiu à divulgação de supostas fotos do jornalista Vladimir
Herzog no quartel em que foi morto, em 1975, com uma nota em que tentou justificar
a barbárie nos porões da ditadura. O episódio ilustra como
o Brasil lida mal com a memória dos anos de chumbo. É um paradoxo,
considerando que os militares brasileiros saíram pela porta dos fundos,
desmoralizados por uma economia em frangalhos. No Chile, ao contrário,
os militares tiveram controle total da transição. Derrotados num
plebiscito convocado pelo regime, deixaram o poder voluntariamente, entregando
aos civis um Estado moderno e uma economia próspera.
"O grau de poder que os manda-chuvas
autoritários conservaram na transição para a democracia não
influenciou a maneira como os governos civis trataram as violações
dos direitos humanos", disse a VEJA o cientista político americano Anthony
Pereira, autor de um livro sobre as ditaduras do Cone Sul. Há três
explicações para o acanhamento dos brasileiros em relação
ao tema. A primeira é que os regimes chileno e argentino foram mais violentos.
A profundidade do trauma faz com que a sociedade dos dois países pressione
pela punição dos responsáveis. A segunda explicação
é que, no Brasil, o envolvimento de civis no regime e na repressão
era muito maior do que nos países vizinhos. "A elite civil chilena ficou
de fora das decisões políticas, ao contrário do que aconteceu
no Brasil", diz o cientista político Francisco César Pinto da Fonseca.
Por isso, no Brasil, um maior número de grupos políticos quer evitar
que os podres do regime militar venham à tona. A terceira razão
é o caráter conciliatório da política brasileira.
No jogo de alianças entre partidos para garantir apoio para governar, aceita-se
com mais facilidade esquecer as mágoas do passado. |