Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Internacional
Um banho de ponta a ponta

Mapa da eleição mostra que voto moderado
pesou bastante para a reeleição de Bush


José Eduardo Barella

 
AP
George W. Bush: ele vai levar em conta o eleitorado heterogêneo ou governar apenas para os religiosos?



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Bush só não avançou entre os gays e os mais pobres

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Em Profundidade: Eleições nos EUA

De onde saíram os 3,5 milhões de votos de vantagem que deram um novo mandato a George W. Bush? A explicação de primeira hora foi que a extrema direita religiosa tinha desequilibrado a disputa ao conclamar suas hostes para uma guerra santa contra o casamento gay e o direito ao aborto. Uma análise esmiuçada do comportamento dos americanos nas urnas, agora disponível, desmistifica a idéia de que apenas uma faixa do eleitorado assegurou a reeleição do presidente. Ao contrário, indica que o voto moderado pode ter pesado mais que o de religiosos para a vitória. Bush foi o candidato mais votado entre os homens, a população branca, os moradores de subúrbio e os das cidades do interior. A maioria dos eleitores casados, dos mais ricos, dos protestantes e dos católicos também votou no presidente. Mais inesperado foi o avanço de Bush em tradicionais redutos democratas. Mesmo perdendo no total de votos entre esses eleitores, ele recebeu votação maior do que em 2000, principalmente nos eleitorados hispânico, feminino, judeu e negro.

Os números fazem parte de uma pesquisa de boca-de-urna realizada no dia da eleição, mas que só foi divulgada na semana passada. Encomendada por um pool de emissoras de televisão, ela ouviu 13.600 eleitores em todo o país. Os dados apurados são importantes porque classificam o eleitorado de acordo com renda, religião, estado civil, grau de instrução, etnia e orientação sexual – detalhes que, obviamente, não aparecem na apuração oficial. O corte contém revelações inesperadas, como a votação entre os gays. Como a plataforma eleitoral de Bush incluía proibir a união civil entre pessoas do mesmo sexo, seria natural esperar que os homossexuais votassem em massa na oposição. Não foi o que ocorreu. O republicano recebeu 23% do voto gay, uma queda de apenas 2 pontos porcentuais em relação a 2000.

 
Reuters
Marines carregam companheiro ferido: muitos terroristas islâmicos deixaram a cidade antes do ataque

A migração de votos dos hispânicos e das mulheres para Bush é um fenômeno sem ligação visível com a campanha dos republicanos contra o casamento gay ou o direito ao aborto. "Esses dois segmentos foram atraídos por outros valores pregados por Bush, como a segurança do país e sua imagem de líder com idéias próprias", diz o americano Mark Penn, especialista em pesquisas de opinião. A grande questão é se o presidente vai levar em conta esse eleitorado amplo e heterogêneo na hora de definir os caminhos no segundo mandato. Sua plataforma eleitoral esteve ancorada no que a direita religiosa americana tem de mais retrógrado e obscurantista. Eleito, Bush pode muito bem dar ênfase ao pragmatismo e deixar a ideologia em segundo plano. Antes das eleições, o presidente americano chegou a cortejar os evangélicos com a promessa de uma emenda constitucional tornando ilegal o casamento gay. Na reta final da campanha, porém, ele passou a evitar o assunto. Até os republicanos admitem que será difícil recolocar o tema em pauta. Mesmo com maioria no Congresso, Bush precisa de apoio da oposição democrata para adotar medidas duras para conter o déficit público, combater o desemprego e resolver de vez a encrenca no Iraque.

O primeiro sinal de mudanças na Casa Branca surgiu com a saída do secretário de Justiça, John Ashcroft, na semana passada. Profundamente religioso, Ashcroft era visto como o mais à direita entre os integrantes do primeiro escalão do governo – e olha que a disputa entre eles pela ponta direita é renhida. Há dois anos, num surto de histeria conservadora, ele mandou cobrir com panos a nudez da Estátua da Justiça no auditório de seu ministério, em Washington. Depois dos atentados de 11 de setembro, foi um dos primeiros a sugerir restrições às liberdades dos cidadãos. Sua saída poderia ser uma fonte de alívio para os conservadores moderados e democratas – mas não é assim tão simples. Seu substituto nomeado, Alberto Gonzáles, acompanha Bush desde o Texas. O presidente costuma apresentá-lo como "Mi abogado" (meu advogado, em espanhol), referência à origem mexicana da família do novo secretário. Gonzáles é um moderado. Pesa em seu currículo, contudo, o famoso memorando no qual defende a tese de que os membros da Al Qaeda e do Talibã capturados no Afeganistão são combatentes irregulares, sem direito à proteção da Convenção de Genebra para prisioneiros de guerra.

Se a nomeação de Gonzáles é apenas um sinal, a permanência de Colin Powell à frente do Departamento de Estado é quase uma declaração de maior moderação na política externa. Powell, a voz mais moderada do governo americano, é o único com capacidade de se aproximar da comunidade internacional, que olha torto para Bush. Mas é preciso esperar para ver o que Bush fará com Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa. Entusiasta da idéia de invadir o Iraque, ele colocou sua cabeça a prêmio com os escândalos de tortura na prisão de Abu Ghraib. Sua permanência no cargo foi, então, um mau augúrio. Continua a ser. Talvez, antes de demitir o ministro, a Casa Branca precise estabelecer uma estratégia para o Iraque que faça sentido. A intervenção na cidade de Falluja, um dos vértices do triângulo sunita próximo de Bagdá, mostrou que as ações militares americanas vêm sempre na frente do planejamento político. Para evitar uma carnificina de civis, a ocupação foi anunciada com antecedência – o que permitiu que muitos terroristas islâmicos batessem em retirada. Enquanto os 15.000 marines invadiam a cidade, os rebeldes promoviam um banho de sangue em cidades vizinhas dentro do triângulo, com atentados e emboscadas. É a segunda vez que os americanos cercam Falluja, cidade controlada pelos terroristas nos últimos dois anos. Há sete meses, a ocupação não chegou a se concretizar – um acordo acabou abortando a ofensiva. Agora, os americanos não podem mais recuar. Como será o Iraque se a operação em Falluja for um sucesso? Como os americanos não têm tropas em quantidade suficiente para manter a ocupação da cidade, é provável que a resistência iraquiana torne a se instalar por lá e tudo volte a ser como era antes da ofensiva.

 
 
 
 
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