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Internacional Um
banho de ponta a ponta Mapa da eleição
mostra que voto moderado pesou bastante para a reeleição de Bush
 José
Eduardo Barella
AP
 | | George
W. Bush: ele vai levar em conta o eleitorado heterogêneo ou governar apenas para
os religiosos? |
De
onde saíram os 3,5 milhões de votos de vantagem que deram um novo
mandato a George W. Bush? A explicação de primeira hora foi que
a extrema direita religiosa tinha desequilibrado a disputa ao conclamar suas hostes
para uma guerra santa contra o casamento gay e o direito ao aborto. Uma análise
esmiuçada do comportamento dos americanos nas urnas, agora disponível,
desmistifica a idéia de que apenas uma faixa do eleitorado assegurou a
reeleição do presidente. Ao contrário, indica que o voto
moderado pode ter pesado mais que o de religiosos para a vitória. Bush
foi o candidato mais votado entre os homens, a população branca,
os moradores de subúrbio e os das cidades do interior. A maioria dos eleitores
casados, dos mais ricos, dos protestantes e dos católicos também
votou no presidente. Mais inesperado foi o avanço de Bush em tradicionais
redutos democratas. Mesmo perdendo no total de votos entre esses eleitores, ele
recebeu votação maior do que em 2000, principalmente nos eleitorados
hispânico, feminino, judeu e negro. Os números
fazem parte de uma pesquisa de boca-de-urna realizada no dia da eleição,
mas que só foi divulgada na semana passada. Encomendada por um pool de
emissoras de televisão, ela ouviu 13.600 eleitores
em todo o país. Os dados apurados são importantes porque classificam
o eleitorado de acordo com renda, religião, estado civil, grau de instrução,
etnia e orientação sexual detalhes que, obviamente, não
aparecem na apuração oficial. O corte contém revelações
inesperadas, como a votação entre os gays. Como a plataforma eleitoral
de Bush incluía proibir a união civil entre pessoas do mesmo sexo,
seria natural esperar que os homossexuais votassem em massa na oposição.
Não foi o que ocorreu. O republicano recebeu 23% do voto gay, uma queda
de apenas 2 pontos porcentuais em relação a 2000. Reuters
 | | Marines
carregam companheiro ferido: muitos terroristas islâmicos deixaram a cidade
antes do ataque |
A migração
de votos dos hispânicos e das mulheres para Bush é um fenômeno
sem ligação visível com a campanha dos republicanos contra
o casamento gay ou o direito ao aborto. "Esses dois segmentos foram atraídos
por outros valores pregados por Bush, como a segurança do país e
sua imagem de líder com idéias próprias", diz o americano
Mark Penn, especialista em pesquisas de opinião. A grande questão
é se o presidente vai levar em conta esse eleitorado amplo e heterogêneo
na hora de definir os caminhos no segundo mandato. Sua plataforma eleitoral esteve
ancorada no que a direita religiosa americana tem de mais retrógrado e
obscurantista. Eleito, Bush pode muito bem dar ênfase ao pragmatismo e deixar
a ideologia em segundo plano. Antes das eleições, o presidente americano
chegou a cortejar os evangélicos com a promessa de uma emenda constitucional
tornando ilegal o casamento gay. Na reta final da campanha, porém, ele
passou a evitar o assunto. Até os republicanos admitem que será
difícil recolocar o tema em pauta. Mesmo com maioria no Congresso, Bush
precisa de apoio da oposição democrata para adotar medidas duras
para conter o déficit público, combater o desemprego e resolver
de vez a encrenca no Iraque. O primeiro sinal de
mudanças na Casa Branca surgiu com a saída do secretário
de Justiça, John Ashcroft, na semana passada. Profundamente religioso,
Ashcroft era visto como o mais à direita entre os integrantes do primeiro
escalão do governo e olha que a disputa entre eles pela ponta direita
é renhida. Há dois anos, num surto de histeria conservadora, ele
mandou cobrir com panos a nudez da Estátua da Justiça no auditório
de seu ministério, em Washington. Depois dos atentados de 11 de setembro,
foi um dos primeiros a sugerir restrições às liberdades dos
cidadãos. Sua saída poderia ser uma fonte de alívio para
os conservadores moderados e democratas mas não é assim tão
simples. Seu substituto nomeado, Alberto Gonzáles, acompanha Bush desde
o Texas. O presidente costuma apresentá-lo como "Mi abogado" (meu advogado,
em espanhol), referência à origem mexicana da família do novo
secretário. Gonzáles é um moderado. Pesa em seu currículo,
contudo, o famoso memorando no qual defende a tese de que os membros da Al Qaeda
e do Talibã capturados no Afeganistão são combatentes irregulares,
sem direito à proteção da Convenção de Genebra
para prisioneiros de guerra. Se a nomeação
de Gonzáles é apenas um sinal, a permanência de Colin Powell
à frente do Departamento de Estado é quase uma declaração
de maior moderação na política externa. Powell, a voz mais
moderada do governo americano, é o único com capacidade de se aproximar
da comunidade internacional, que olha torto para Bush. Mas é preciso esperar
para ver o que Bush fará com Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa.
Entusiasta da idéia de invadir o Iraque, ele colocou sua cabeça
a prêmio com os escândalos de tortura na prisão de Abu Ghraib.
Sua permanência no cargo foi, então, um mau augúrio. Continua
a ser. Talvez, antes de demitir o ministro, a Casa Branca precise estabelecer
uma estratégia para o Iraque que faça sentido. A intervenção
na cidade de Falluja, um dos vértices do triângulo sunita próximo
de Bagdá, mostrou que as ações militares americanas vêm
sempre na frente do planejamento político. Para evitar uma carnificina
de civis, a ocupação foi anunciada com antecedência
o que permitiu que muitos terroristas islâmicos batessem em retirada. Enquanto
os 15.000 marines invadiam a cidade, os rebeldes promoviam
um banho de sangue em cidades vizinhas dentro do triângulo, com atentados
e emboscadas. É a segunda vez que os americanos cercam Falluja, cidade
controlada pelos terroristas nos últimos dois anos. Há sete meses,
a ocupação não chegou a se concretizar um acordo acabou
abortando a ofensiva. Agora, os americanos não podem mais recuar. Como
será o Iraque se a operação em Falluja for um sucesso? Como
os americanos não têm tropas em quantidade suficiente para manter
a ocupação da cidade, é provável que a resistência
iraquiana torne a se instalar por lá e tudo volte a ser como era antes
da ofensiva. |